Rafael Arbex
Rafael Arbex

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 07h00

O hipismo tem uma particularidade em relação às outras modalidades: a idade não limita de maneira decisiva o desempenho dos competidores. Afinal, é o cavalo que precisa ser jovem, não o cavaleiro. Nesse contexto, o Brasil tem uma legião de atletas com perfil diferenciado. Aos 50 e 60 anos, eles são competitivos, fazem uma preparação física específica para a idade e ainda levam vantagem no quesito experiência. É a velha guarda do hipismo brasileiro. 

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Alguns exemplos dão sustância a essas afirmações. Cesinha Almeida é bastante conhecido no Clube Hípico de Santo Amaro, em São Paulo. Em um dos treinos, ele foi cumprimentado por três pessoas em 15 minutos. Sua façanha mais recente foi a conquista do Torneio de Verão, principal prova de abertura da temporada nacional. É um torneio tradicional, com 30 anos, disputado com provas de salto para todos os níveis e categorias.

O medalhista pan-americano se sagrou campeão competindo com rivais de ponta, como André Miranda, medalhista pan-americano e campeão brasileiro, e Fábio Sarti, bicampeão do torneio em 2017. Também superou os jovens talentos Thales Marino e Marcelo Gozzi, ambos de apenas 17 anos. 

Aos 57, ele toma alguns cuidados com a alimentação e bate ponto na academia duas vezes por semana para fazer musculação. E só. “O cavaleiro não pode perder a forma, engordar, mas o esforço maior é do cavalo”, diz Cesinha, que se prepara para o Internacional The Best Jump em Porto Alegre na altura de 1,55 m. Ele é o único tetracampeão do evento. 

Vitor Teixeira fala espontaneamente que completou 60 anos no dia 22 de janeiro. Ele dispensa a ginástica e os exercícios de alongamento e conta que se mantém em forma apenas com as atividades diárias. Ele monta quatro cavalos por dia e dá aula para dez conjuntos de salto que participam de provas internacionais. Além disso, ainda compete como atleta e esteve no Winter Equestrian Festival (WEF) 2018, em Wellington, e pretende competir em Porto Alegre.

“Dizem que o hipismo é como vinho: quanto mais velho, melhor”, brinca. “Quando você está mais experiente, você domina a parte emocional e pode render mais”, diz Teixeira, que também é responsável por todas as equipes de salto da Argentina.

Para Rodrigo Sarmento, competidor e também presidente da Federação Hípica de Minas Gerais, os saltos não exigem uma preparação física extrema do cavaleiro. Ele faz pilates (exercícios que visa a conexão completa entre corpo e mente), joga futebol, anda de bicicleta (uma hora por dia) e treina com seis a oito cavalos diariamente.

Dois nomes estendem a ideia da longevidade ainda mais adiante. Nelson Pessoa, ícone do hipismo mundial e pai do campeão olímpico Rodrigo Pessoa, monta e salta aos 82 anos. Aos 59, o britânico Nick Skelton conquistou o ouro no salto nos Jogos Olímpicos do Rio.

Para Katia Rubio, professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da USP, os casos do hipismo são exemplos para outras áreas. “As questões principais são lidar com o envelhecimento e aproveitar a experiência dessas pessoas para ajudar as novas gerações”, opina. 

Embora Cesinha, Teixeira e Pessoa não tenham histórico de lesões recentes, os médicos afirmam que o risco é grande. Alexandre Fogaça Cristante, ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, explica que, no hipismo, existe um impacto repetitivo sobre a região lombar que pode predispor a lesões na coluna, como lombalgia por desgaste do disco, por artrose e hérnias de disco. Skelton passou por lesões mais sérias, conseguiu se recuperar e retornou. 

Como em outros esportes, o treinamento e preparo muscular são fundamentais. Para Orlando Righesso Neto, ortopedista, cirurgião da coluna e titular da Sociedade Brasileira de Coluna (SBC), os exercícios de fortalecimento do sistema core, musculatura estabilizadora da coluna, podem prevenir lesões mais drásticas nos cavaleiros.

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 07h00

A competitividade da velha guarda no hipismo não inibe a ascensão de novos talentos no cenário brasileiro. Ainda adolescentes, alguns nomes despontam como colecionadores de títulos e são promessas para a Olimpíada de Tóquio em 2020. 

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Aos 15 anos, Philip Greenlees é campeão mundial pela Federação Equestre Internacional (FEI) Children 2017. Esse é um torneio com amazonas e cavaleiros entre 12 e 14 anos que realiza seletivas em diversos países para selecionar os 16 melhores conjuntos da categoria. Greenless também triunfou na seletiva do Brasil para a Olimpíada da Juventude, que será disputada em Buenos Aires nesta temporada, em outubro. 

Pedro Backheuser foi campeão sul-americano junior 2017, bicampeão brasileiro Junior 2015/2017 e vice-campeão pelo Brasil na Copa das Nações junior 2016, em Wellington (EUA). Tudo isso aos 18 anos. 

Essa garotada que está chegando fala com reverência dos cavaleiros experientes. “No ano passado, pude treinar no mesmo lugar que o Rodrigo Pessoa, nos EUA. Isso foi muito importante para mim. É bom ver que posso conviver nesse meio, com os meus ídolos”, diz Pedro. 

Greenless treina com Felipe Amaral, atual campeão brasileiro sênior top (categoria de rendimento máximo, com saltos de 1,50 m e 1,60 m) e que vai disputar a final da Copa do Mundo de Salto em Paris entre 10 e 14 de abril. “Eles são ídolos, mas, com a convivência, acabam virando nossos amigos.”

Thales Marino, ouro por equipes na categoria pré-júnior do Sul-Americano da Juventude em 2016, tem como treinadores os olímpicos Caio Sérgio de Carvalho e Pedro Veniss, que está em atividade na Europa. “Comecei a ter noção do que o cavalo está precisando, dar mais atenção a ele, algo crucial para ter sucesso nesse esporte”, diz o ginete de 17 anos

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 07h00

O cavalo Restless conseguiu um feito raro no hipismo. Depois de sobreviver a um acidente de caminhão, que despencou em um ribanceira de 15 metros no fim do ano passado, ele foi campeão em sua primeira prova após o retorno. Restless e Cesinha Almeida venceram o Torneio de Verão.

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Dos cinco cavalos, três faleceram e só ele voltou a competir. Após o acidente, que aconteceu no trajeto para a Bahia, na altura da cidade de Salinas, ele fugiu para a mata, foi resgatado pelo corpo de bombeiros e acabou num parque de exposições. 

O animal não sofreu fraturas, apenas um corte profundo, de 7 cm acima da pata dianteira esquerda. Cesinha temia que o cavalo ficasse traumatizado, fato comum em acidentes assim, e não competisse mais. Aos 12 anos, Restless ainda não atingiu seu ápice e pode ser selecionado para Tóquio-20. 

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