Luis Ruas
Luis Ruas

Cavaleiros 'gordinhos' conquistam bons resultados e quebram tabus

Mesmo com tipo físico diferente dos outros atletas, cavaleiros se destacam pelo equilíbrio e habilidade

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2018 | 05h00

O cavaleiro olímpico José Roberto Reynoso Fernandez Filho é chamado de “Fenômeno” e “Gordo” entre os amigos mais próximos. Os apelidos fazem referência ao ex-atacante Ronaldo que, no final da carreira, apresentava uma forma física mais “cheinha”, diferente dos outros atletas. Com 1,86m e 96 quilos, Reynoso faz parte do grupo de cavaleiros que foge dos padrões físicos tradicionais. A exemplo do que acontece em outras modalidades, os atletas do hipismo são majoritariamente magros. Um jóquei em corridas de cavalo não passa dos 50 quilos, por exemplo.

“Consigo usar meu peso a meu favor. Não tenho grandes dificuldades. Para um cavaleiro, o importante é encontrar o ponto de equilíbrio”, diz Reynoso, que defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos 2012 e está convocado para integrar o Time Brasil na qualificatória sul-americana para o Pan 2019, entre 15 e 25 de novembro, na Argentina. Ele disputa as provas de salto. 

A relação “peso e altura” é um tema polêmico em diversas modalidades. No futebol, por exemplo, alguns clubes simplesmente não divulgam o peso dos atletas. É um tabu. No vôlei feminino, a líbero Suellen convivia com questionamentos sobre o peso. Ela tinha 1,69 m e 95 kg. Decidiu ser submetida a uma cirurgia bariátrica e perdeu 32 quilos.

“Existe um estigma associado ao excesso de peso e que fica mais nítido nas profissões que classicamente estão associadas ao menor peso corporal. Isso não vai implicar necessariamente em menor rendimento. Importante sempre é individualizar a análise”, avalia Maria Edna de Melo, endocrinologista da USP e presidente da Abeso (Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

No hipismo, o sobrepeso realmente não impede a obtenção de bons resultados. Reynoso é tricampeão brasileiro senior top 2015/2017/2018, atual líder do ranking brasileiro e um dos mais experientes do hipismo brasileiro.

Fato semelhante acontece com o paulista André Parro. Com 1,81m e 90kg, ele foi medalha de bronze por equipes no sul-americano deste ano, sua quarta participação na competição, e esteve presente nos Jogos Olímpicos de 2000 e 2004. “Em 2019, meu plano principal é integrar a equipe brasileira no Pan, no Peru competir no Campeonato Mundial de cavalos de novos, na França.

Os dois cavaleiros encaram a questão com naturalidade. Parro questiona a existência de uma forma física ideal. “Fico na dúvida se existe o biotipo ideal para os esportes. O que vejo é uma maioria de pessoas com mesmo biotipo. Na maioria das vezes, aquele que foge à regra do biotipo tem mais talento. No hipismo acredito que seja igual”, argumenta o cavaleiro de 41 anos. “Obviamente existem alguns atletas muito altos e outros acima do peso ideal. Se eles tiverem boa técnica, equilíbro e talento, podem ter resultados expressivos”, avalia o cavaleiro que disputa o Concurso Completo de Equitação (CCE). 

A Sociedade Hípica Paulista promoveu um encontro entre Reynoso e três modelos plus size da Ford Models Curve, novo departamento da agência voltado para os manequins 44 ao 48. O encontro foi realizado na véspera do Campeonato Brasileiro de Seniores 2018, no mês passado. De maneira simbólica, Reynoso usou sua imagem e prestígio para mostrar que é um "atleta plus size". E vencedor.

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