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CBF como exemplo?

Elogiar o local de trabalho é normal, apesar embutir umas encenações. A gente sabe como funciona: no cafezinho, na troca de e-mails, nos torpedos, nos papos à boca pequena não faltam críticas à chefia, à empresa, que não reconhecem meu esforço, minha dedicação, meu suor, meu talento. Enfim, a choradeira de sempre. O ser humano é assim. Mas, em público, o verbo fica solto: a firma é uma beleza nisto, a casa é imbatível naquilo, estamos juntos, etc, etc. Uma das leis de sobrevivência corporativa.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2014 | 02h03

Esquisito mesmo é exagerar, carregar nos elogios além da conta. Não pega bem. Como fez Carlos Alberto Parreira. O experiente treinador, rodado como poucos, campeão do mundo, bom de conversa, poliglota, um monte de Copas nas costas, deu uma de "Somebody Love", aquele personagem da Escolinha que sofria de puxa-saquismo incontrolável pelo professor Raimundo. Lembra dele?

E não é que o Parreira se empolgou nas declarações para a TV CBF - é, agora tem dessas bossas por lá - ao comentar o que achou das novas instalações? Meu amigo, não sei se você teve oportunidade de ver ou ler. Mas, se tiver um tempinho, vai no site ou coloca no YouTube que acha fácil. O coordenador da seleção encheu a bola do prédio, que custou a ninharia de 70 milhões, e não se aguentou na admiração: "É o que sempre digo em palestras: a CBF é um exemplo. É o Brasil que deu certo, é o Brasil que dá certo." E outros babados.

Que chato. Se o Parreira falou da boca pra fora, foi disparate. Com o currículo que tem, não precisa bajular ninguém. Se acredita, de fato, no que afirmou, aí complica, pois revela parâmetros de avaliação que sinceramente não esperava. Bom, cada um é livre de manifestar-se da forma que achar melhor.

Mas não dá para ver na CBF um paradigma (ele usou essa palavra bacaninha também). Ao contrário, ela é o Brasil que não queremos mais, o Brasil que não cabe em tempos modernos, o Brasil sepultado pela democracia e por discussões em torno dos rumos que deve tomar. A não ser que Parreira considere a CBF como o exemplo de um certo Brasil moribundo que teima em existir - de um lado a imponência, o esnobismo, o símbolo oco de poder e desperdício; de outro, as agruras, o sufoco, o aperto no dia a dia dos pequenos.

De que adianta a CBF ter um edifício imponente, cheio de modernices, enquanto a maior parte dos clubes - incluídas aí várias agremiações tradicionais - batalham para não ir pra falência, para não desaparecerem? Quantos jogadores ficam desempregados grande período do ano, pela ausência de torneios rentáveis, competitivos? A CBF tem ideia da quantidade de atletas boias-frias espalhados por aí?

Quando aperta o calo, a CBF alega que cuida da seleção, sua extraordinária fonte de renda, mas formada por jogadores que vêm dos clubes, pouco importa se brasileiros ou estrangeiros. Então, por que não larga o osso e não permite ou estimula a criação de Ligas independentes, nas quais os times escolherão o que é mais adequado para eles, em termos de calendário, campeonatos, patrocínios?

Imagina se a CBF vai abrir mão da primazia do controle. A estrutura do futebol é conservadora, centralizada. Cartolas de diversas regiões comportam-se como antigos coronéis, que não delegavam tarefas, não aceitavam independência, acumulavam propriedades, na forma de terras ou de pessoas. Caro Parreira, a CBF tem muito o que mudar para ser o exemplo do Brasil que sonhamos venha a vingar um dia.

Pedido à toa. O secretário da Segurança Pública de São Paulo afirmou que haverá tolerância zero contra baderneiros durante a disputa do Mundial. Muito bem, louvável, todos queremos nos sentir em paz e sem temer que a ida ao estádio se transforme em programa de risco. Mas, passado festival da bola, daria para continuarmos com a mesma sensação de tranquilidade? Só o afastamento de torcedores violentos já seria um grande alívio. Dá pra ser?

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