CBF mostra que não tem programa para a seleção de 2014

A CBF escancarou ontem que não tem programa para a seleção brasileira. A entidade foi protagonista de episódios constrangedores, primeiro com o convite a Muricy Ramalho, logo recusado. Em seguida, com a escolha, a toque de caixa e ainda não oficial, de Mano Menezes. O que deveria ser processo natural de preenchimento do cargo vago com a demissão de Dunga se transformou em nova demonstração de amadorismo e improvisação do país que vai organizar o Mundial de 2014.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

A sequência de atitudes equivocadas começou pela manhã, com a reunião entre Ricardo Teixeira e Muricy. O dirigente acertou na intenção de tê-lo como técnico da seleção, mas errou na maneira como conduziu a negociação. Por cortesia, sensatez e política de boa vizinhança, deveria ter avisado o Fluminense de que pretendia tirar-lhe um colaborador com funções relevantes. Se ouvisse um não, refaria os planos nos bastidores e ficaria resguardado do desgaste público. Teixeira, porém, pecou por presunção, ao supor que a um simples estalar de dedos teria o resolvido a questão. Também considerou irrelevante saber de antemão a opinião tricolor.

O presidente da CBF teve tempo de sobra para consultas sem compromisso antes de encontro oficial. Bem costurada ação diplomática prévia ajudaria a conduzir o processo a arremate feliz. A conversa com o ungido a cargo tão estratégico deveria ser formalidade. Aperto de mãos e fotos de praxe selariam o pontapé inicial para os próximos quatro anos de atividades da equipe nacional. O roteiro saiu errado porque o ator principal desdenhou do ensaio e levou pito do Fluminense.

A disposição de pagar multa para o rompimento do contrato mostrou-se inábil. Ao agira assim, a CBF dava a entender que dinheiro não era obstáculo para comprar a alforria do treinador. Até prova em contrário, o Fluminense se apegou ao princípio da palavra empenhada com Muricy e não a cifras. Embora não haja nenhuma garantia de que venha a mantê-lo no posto, mais adiante, se enfrentar período de turbulência e maus resultados.

Dessa forma, Teixeira frustrou profissional de bons princípios como Muricy - também vacilou ao não alertar o Flu -, criou saia-justa e teve de achar saída que lhe pareceu honrosa, ao apelar para Mano, que topou a empreitada. Mas quem lhe garante que não servirá como quebra-galhos até aparecer solução mais adequada daqui a algum tempo?

Os 21 anos de comando fizeram com que Teixeira se habituasse a ver seus desejos atendidos. Mas fatos recentes sinalizam que às vezes algumas coisas mudam e contrariam as determinações surgidas de sua enorme influência. Meses atrás, sofreu derrota na eleição para a presidência do Clube dos 13, pois apoiava Kleber Leite e teve de engolir outro mandato de Fabio Koff, o preferido dos times.

A definição de estádio para São Paulo no Mundial também lhe causa aborrecimentos. O veto ao Morumbi foi demonstração de força e teve respaldo da Fifa. Teixeira só não contava com postura firme do governador e do prefeito. Ambos bateram pé e disseram não ao uso de dinheiro público para a construção de novo campo, em Pirituba ou em qualquer outro lugar. Nem se abalaram com a ameaça de a cidade ficar sem o jogo de abertura, pois sabem que a Copa é que perde sem São Paulo. Nesse meio tempo, ouviu do presidente Lula a sugestão de que houvesse rodízio na cúpula da CBF...

A vida é implacável e todo poder, temporário.

Colunista do Estado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.