Alexandre Urch|MPIX|CPB
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Cecília Araújo colhe frutos da 'ousadia' de seguir sonho na natação paralímpica

Classificada para o Mundial pela 1ª vez, atleta da classe S8 é a mais rápida das Américas

Nathalia Garcia, O Estado de S. Paulo

23 de abril de 2017 | 07h01

Aos 18 anos, Cecília Araújo disputará o Mundial Paralímpico de Natação pela primeira vez depois de garantir o índice exigido nos 100 m livre (classe S8), no Open Internacional Loterias Caixa, em São Paulo. E chegará à competição, em setembro, com o moral de nadadora mais rápida das Américas após quebrar o recorde continental dos 50 m livre (S8) com 31s10, três centésimos mais veloz que a marca anterior.

Quando soube do feito, custou a acreditar, sobretudo, por ter ficado sete meses sem competir sua prova preferida. O afastamento veio com a decepção na Paralimpíada do Rio, quando teve de abandonar a competição em andamento sem disputar os 50 m por ter contraído caxumba. "Achei que fosse dor de dente e procurei a médica, que não quis me contar o que eu tinha. Depois me falaram que eu não poderia nadar, que era contagioso", relembra.

O golpe também impulsionou Cecília a seguir outros caminhos e, assim, iniciou o curso de Gestão de RH, na Universidade Max Planck, em Indaiatuba. "Foquei também nos estudos porque descobri que o esporte pode ser ingrato", afirma. O bom desempenho no Open renova as esperanças da jovem atleta e, mesmo com a classificação antecipada, ela promete disciplina na sequência do trabalho.

O comprometimento é uma característica que veio com a experiência de vida. Ao 15 anos, deixou a casa dos pais em Natal, no Rio Grande do Norte, para morar sozinha no interior paulista com o objetivo de se dedicar exclusivamente ao esporte. A decisão foi tomada quase um ano depois do convite do técnico Antônio Luiz Cândido.

"Em Natal, tinha alguns problemas de local de treinamento, falta de técnico e de deslocamento. Sentei com meus pais e falei que queria tentar, para chegar lá na frente e falar que tive a ousadia de sair de casa e realizar meu sonho", conta.

Foi com preocupação que a mãe recebeu a notícia da filha única, mas deu seu consentimento. Para amenizar a apreensão, ficou três meses com Cecília em Indaiatuba e só então a deixou seguir seu caminho solitário no esporte paralímpico. Foi mais um passo rumo à profissionalização da garota na natação, que já fazia parte da vida da família desde cedo.

Após uma gestação complicada da mãe, Cecília teve paralisia cerebral por falta de oxigenação na hora do parto. Aos dois anos, ainda não andava nem falava. A persistência da família colocou a criança na fisioterapia, que aos poucos começou a mostrar evolução e seguiu para a hidroterapia. Na água desde pequena, ela viu a natação virar coisa séria aos 10 anos e não parou mais.

O suporte da família foi fundamental para o crescimento de Cecília, que segue até hoje os ensinamentos da mãe. "A preocupação dela era que eu mesma me aceitasse e eu me aceito do jeito que sou, isso é muito bacana. Não podia correr quando era pequena, mas é difícil falar isso para uma criança. Hoje minhas pernas são machucadas porque minha mãe dizia: 'Caia, mas levante de novo'. Vou cair e levantar, uma hora vou continuar a minha caminhada. Isso não absorvi só na minha infância, mas na vida toda".

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