Celebração

Eu sei que os Jogos Olímpicos se distanciaram de sua origem pura, que tinha como objetivo apenas apontar qual era o melhor atleta - "mais rápido, mais alto, mais forte" - de cada modalidade. Eu sei que os atletas de hoje são profissionais, competindo pela glória do esporte e pela honra de suas equipes, mas que também procuram se remunerar - licitamente, diga-se. Eu sei que, dependendo da modalidade, tanto podem ser pessoas que ganham apenas o suficiente para sobreviver quanto multimilionários de fama global.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h05

Eu sei que muitos países que hospedam os Jogos Olímpicos tentam provar sua supremacia cultural, econômica ou esportiva - ou, como ocorreu com a China, as três coisas de uma só vez. Eu sei que a preconizada igualdade entre as nações acaba no exato instante em que o árbitro da prova dispara o revólver e, com aquele tiro, assassina as chances dos países menos favorecidos diante das superpotências esportivas, que quase sempre são também as superpotências econômicas. Eu sei que o doping se transformou numa praga do esporte, mancha repugnante que distancia ainda mais os atletas dos países pobres dos atletas das nações mais sofisticadas em preparação técnica, tática, física e, infelizmente, química. Eu sei que o doping significa uma corrida inglória para a ciência de detecção de fraudes esportivas, sempre dois ou três passos atrás da ciência da fabricação de resultados, mais sutil, ardilosa e poderosa em recursos.

Eu sei que a cobertura dos Jogos mundo afora é repleta de patriotadas e que, eventualmente, os árbitros favorecerão os atletas do país-sede ou do país mais influente em cada modalidade. Eu sei que protestos sempre poderão tumultuar o evento. Eu sei que torcedores, jornalistas e atletas de países com rivalidade ancestral trocarão farpas e destilarão rancores inúteis. Eu sei que continuaremos a ter discussões tolas, como a que envolve a proibição de uma judoca muçulmana usar o véu durante as competições ou se a porta-bandeira dos Estados Unidos deve ou não abaixar o pavilhão ao passar diante da rainha. E, finalmente, eu sei que sempre há o risco de um grupo de extremistas imbecis conseguir promover um atentado durante os Jogos.

Apesar de saber de tudo isso, eu simplesmente não consigo sufocar a emoção sincera que sinto sempre que vejo a pira olímpica explodindo em chamas. Não consigo ser indiferente ao esforço extraordinário dos milhares de atletas que, em busca do sonho olímpico, consumiram uma vida em duros treinamentos e enormes sacrifícios pessoais. A maioria dos atletas não está competindo por dinheiro. A maioria dos cidadãos de um país não confunde orgulho com arrogância. A maioria das pessoas ainda acredita na convivência harmoniosa das nações.

Mesmo em meio a tantos dilemas, os Jogos Olímpicos ainda representam a grande celebração do homem, do humanismo e da humanidade. E foi pensando assim que, ao ver a cerimônia de abertura dos Jogos de Londres, eu me esqueci das questões políticas e econômicas envolvidas numa competição cercada de interesses conflitantes e por um instante - apenas por um instante -, embalado pelas canções da MPB - Música Popular Britânica (Sex Pistols, Paul McCartney, entre outros), eu sorri como um menino.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.