Células-tronco salvam cavalos

Método recupera animais com lesões ou rompimentos de tendão

Valéria Zukeran, O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Rompimento de tendão é sempre uma lesão grave. Quando o problema acontece com um cavalo de competição, existem dois riscos: a montaria pode ter a carreira encerrada prematuramente ou ser sacrificada. Mas um tratamento inovador, com o uso de células-tronco, tem reduzido o tempo de recuperação desses ?atletas? especiais e, em muitos casos, até elimina a cirurgia. Um dos incentivadores da difusão dessa técnica no Brasil é o veterinário Thomaz Montello. Por muitos anos, ele foi veterinário da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) e responsável pela saúde dos cavalos nacionais em competições como Copas do Mundo, Mundiais, Jogos Pan-Americanos e Olimpíadas. Tratou, entre outros, do campeão olímpico Baloubet du Rouet. Atualmente, Montello é um dos veterinários da Federação Eqüestre Internacional (FEI) e estará em Hong Kong, acompanhando as provas de hipismo da Olimpíada.Montello teve os primeiros contatos com a técnica de uso de células-tronco na recuperação de cavalos há três anos, ao acompanhar provas hípicas na Europa. "Existem diversos centros que desenvolvem pesquisas nessa área", revela. "Mas, como muitos dos estudiosos se preocupam em não revelar seus conhecimentos aos ?rivais?, na Europa é mais fácil trocar informações do que nos Estados Unidos." O veterinário afirma que experimentou o uso de células-tronco obtidas de diferentes métodos nos cavalos com os quais trabalhava, até que passou a se interessar por aquele que permitia obter o material a partir das células adiposas situadas abaixo da cauda do animal. As primeiras experiências no Brasil foram complicadas. Como a cultura (extração e reprodução das células-tronco) só era feita no exterior, o material bruto precisava ser enviado para a Europa para, dias depois, retornar ao País em forma do produto a ser injetado no cavalo.Não era a situação adequada. Segundo Montello, as células-tronco funcionam melhor quando injetadas em um curto prazo após a ocorrência da contusão. "Se a aplicação for feita muito tempo depois, em vez de o tendão reconstituído ser igual ao de antes da lesão, as células produzidas podem ser iguais àquelas formadas durante o processo de cicatrização (fibroses)", compara. "Essas não têm a mesma elasticidade." O veterinário conta que na época já era sócio de uma empresa especializada em fertilização in vitro de bovinos, a Biotecnologia Animal, junto com amigos ex-pesquisadores da Embrapa. "Falei com eles e perguntei se não seria possível fazer a cultura de células-tronco de cavalos no laboratório. Depois de um tempo de pesquisa e testes, disseram que já conseguiam dominar a técnica."Montello diz que não demorou a fazer as primeiras experiências em cavalos de competição brasileiros, sempre com a autorização de seus respectivos proprietários. Em alguns casos, o tempo de recuperação dos animais foi reduzido à metade quando comparado ao dos tratamentos tradicionais. "Na verdade, faço testes até hoje. O valor pelo uso das células-tronco atualmente (não quis revelar valores) poderia ser muito mais alto, mas como ainda considero um trabalho experimental, cobro praticamente o preço de custo."Outro ponto que mereceu atenção do veterinário foi a fase posterior à reconstituição do tendão. "Tivemos alguns problemas até percebemos o quanto era importante fazer um bom trabalho de fisioterapia para fortalecer a área afetada pela contusão. Do contrário, apesar do tendão estar curado, o cavalo podia ter outros problemas." POPULARIDADEO veterinário garante que o uso das células-tronco na recuperação de cavalos de competição, em especial os que sofreram lesões ou rupturas de tendão, já é popular no exterior. "Acredito que 60% das montarias que competem em alto nível no mundo e tiveram problemas dessa natureza já usaram do método." Montello conta que, no entanto, alguns proprietários preferem não fazer alarde sobre o sucesso do tratamento em seus animais . "Muitos temem que a informação de que o cavalo passou por lesão de tendão possa desvalorizá-lo." Ele diz que o uso de células-tronco para recuperação de contusões ainda é uma técnica em desenvolvimento. Assim, novas possibilidades de aplicações do material podem ser descobertas no futuro, em especial no tratamento de fraturas ósseas ou lesões musculares. É questão de esperar para ver.

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