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Antero Greco
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Centenário amargo

O Palmeiras fez festa bonita, no começo da semana, para comemorar o centenário. Houve homenagens a personagens históricos, emoção e esperança de retomar o caminho de conquistas. A alegria não mascarou, porém, a fragilidade do time. Dentro de campo, as decepções se acumulam, e vieram ainda no eco do "parabéns a você".

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2014 | 04h22

Na quarta-feira, no Pacaembu, derrota por 1 a 0 para o Atlético-MG pela Copa do Brasil. Mesmo placar de ontem, no duelo com o Internacional, pelo Brasileiro. Há risco de desclassificação na competição nacional de tiro curto, assim como aumenta - e muito - o risco de terceira queda na Série A. Com 11 derrotas em 18 jogos, é retrospecto para descenso.

Pior: a equipe é ruim, desengonçada, desentrosada, desmantelada. Não incomoda ninguém, a não ser seus milhões de seguidores. A diretoria contratou em penca, nos dois últimos anos, perdeu alguns jogadores significativos e não consegue ter elenco minimamente razoável, confiável. Nem o fato de serem várias as baixas justifica a pobreza criativa de ontem. O que se viu em campo, com camisa azul - pelo menos o verde foi preservado - foi um catadão à procura de um gol. O destino? O torcedor já intui qual seja em 2015...

Macaquices nacionais. Pessoal, e o racismo não sai de pauta, infelizmente. Voltou volta à tona, depois do papelão de alguns torcedores do Grêmio, no jogo com o Santos. Vocês estão por dentro, sei. Correram o País imagens de rapazes a insultar o goleiro Aranha. E, com destaque, uma moça a encher a boca pra chamar o rival de "macaco".

A revolta foi justa e correta, e parece que os mal-educados identificados passarão por aperto. Agiu muito bem Aranha ao denunciar o comportamento antissocial daquele grupo atrás do gol.

Indignas foram algumas reações subsequentes. Como vivemos num mundo em que todos nos vigiam e vasculham nossa vida, num piscar de olhos encontraram indicações da moça nas redes sociais. Daí, veio a enxurrada de críticas - poucas sensatas e muitas descabidas, ameaçadoras, machistas, tão preconceituosas quanto a atitude dela no campo. Há desequilibrados que se escoram sob fachada moralista.

Vá lá que estádios sejam locais em que se extravasam sentimentos, nem sempre os mais nobres. Não seria hipócrita, muito menos tolo, de me mostrar chocado com a quantidade de palavrões que se ouve por segundo e por centímetro quadrado de arquibancada ocupada. Aqui, nos EUA, na Itália, na China, em competições esportivas ouvem-se nomes cabeludos pra chuchu. Atire a primeira pedra quem nunca, jamais, never, soltou nome feio, num jogo de futebol? Ou numa brincadeira de solteiros e casados após o churrasco?

Mesmo assim há limite. Chamar um negro de macaco no mínimo, no mínimo, é falta de educação, de consciência cívica, de respeito. Não sou advogado nem juiz para determinar se isso é injúria, se racismo, e qual tipo adequado de reprimenda. Só não pode passar batido, como é costume por aqui.

Alguém pode alegar que, então, deveriam ser punidos os que xingam a mãe do juiz ou colocam em dúvida a masculinidade do jogador. Conversa pra mais de metro, admito. Mas, no caso de negros, entra uma agravante histórica e impiedosa: a herança da escravidão. Foram séculos de humilhação, com desdobramentos até hoje. É duro.

A gente imaginava que a praga racista se circunscrevesse a estádios europeus. Mas, talvez por vermos tanto esses casos lá de fora, os adotamos aqui, como ponderou o historiador Joel Rufino dos Santos em conversa com o repórter Roberto Salim. Faz sentido a observação. Esse tipo de xingamento virou moda nestas bandas de uns tempos para cá.

Uma idiotice sem tamanho. Somos um país de forte miscigenação étnica, cultural, religiosa. Todos os times e respectivas torcidas têm negros, brancos, mulatos. Não há papo de "raça pura" por aqui. Ou seja, copiamos o que gringos fazem de feio por lá, num gesto de macaquice.

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