Centro estuda cérebro dos atletas

Clínica nos EUA busca evitar que lesões na cabeça dos esportistas o levem a doenças crônicas em sua aposentadoria

WILSON BALDINI JR., O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2012 | 03h05

Por ano, o esporte causa a seus praticantes em todo o mundo cerca de 3,8 milhões de traumatismos na cabeça. Preocupado com o futuro dos atletas, o Cleveland Clinic Lou Ruvo Center pesquisa há dez meses, em Las Vegas, uma de suas sedes, o "cérebro" de 148 lutadores de boxe, MMA, jogadores de futebol americano que estão em ação ou se aposentaram. A expectativa é atingir 500 em pouco tempo. "Nosso objetivo é saber se as lesões sofridas por um atleta poderão prejudicar sua vida quando ele parar a prática esportiva", disse Charles Bernick, responsável pelo trabalho de pesquisa. "O problema é convencer os mais jovens a se submeter aos exames (ressonância magnética)."

Um dos ex-boxeadores analisados é Leon Spinks, campeão olímpico em 1976 e campeão mundial dos pesos pesados em 1978, ao derrotar de forma surpreendente o lendário Muhammad Ali. Aos 58 anos, Spinks, que já trabalhou de porteiro no YMCA, caixa do McDonald's e monitor de ônibus escolar, apresenta problemas motores e de memória. Na semana passada, Spinks foi submetido a ressonância e passa por sessões de fisioterapia. "Estou animada. Eu tenho grandes esperanças de que este tratamento vai melhorar a qualidade de vida de Leon", disse Brenda, mulher do ex-pugilista.

"O estudo servirá para medir as mudanças no volume do cérebro, fluxo do sangue e cicatrizes. Desta forma, os médicos poderão encontrar mudanças sutis no cérebro que se relacionam com dificuldades de raciocínio", afirmou Bernick. A análise também visa a determinar as alterações que podem prever o desenvolvimento futuro da depressão, demência e outros efeitos debilitantes. "Sabemos que essas doenças levam anos para se desenvolver. Por isso, quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o tratamento. É a primeira vez que os atletas estão sendo monitorados em tempo real. Esperamos, dessa forma, detectar o mais rápido possível se alguém está desenvolvendo problemas cerebrais crônicos."

O estudo, que é financiado pelo bilionário Kirk Krekorian, do setor hoteleiro, demonstrou que 20% dos lutadores podem desenvolver doenças neurológicas. Principalmente aqueles que prolongam as carreiras, com o físico debilitado. Leon Spinks lutou até os 42 anos, mas perdeu nove de suas 17 últimas lutas.

O centro trabalha em conjunto com a Comissão Atlética de Nevada, a Top Rank Promotions, a Golden Boy Promotions e Ultimate Fighting Championships. Atualmente, para se lutar em Las Vegas é preciso apresentar o laudo do exame feito pelo centro. "É importantíssimo. Estamos incentivando todos os nossos lutadores a participarem deste projeto", afirmou o empresário Bob Arum, dono da Top Rank Promotions, que cuida da carreira de centenas de boxeadores, incluindo do supercampeão filipino Manny Pacquiao.

Hoje, no Hotel MGM, em Las Vegas, uma festa vai reunir centenas de personalidades para festejar os 70 anos de Muhammad Ali. O dinheiro arrecadado da venda das entradas, que custam US$ 1,5 mil, será convertida para o centro. "Tenho certeza de que terei uma vida melhor", disse Spinks.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.