Bill Harber/AP
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Cérebro de Vincent Jackson, da NFL, será doado para estudo de Encefalopatia Traumática Crônica

Jogador da Liga de Futebol dos Estados Unidos, de 38 anos, foi encontrado morto em um quarto de hotel na Flórida

Ken Belson, The New York Times

22 de fevereiro de 2021 | 08h00

A família de Vincent Jackson, jogador de futebol americano aposentado que ganhou o Pro Bowl da NFL três vezes e foi encontrado morto em um quarto de hotel na Flórida no último dia 15, doou o cérebro dele para pesquisadores da Universidade de Boston determinarem se ele sofria de Encefalopatia Traumática Crônica, ou ETC, a doença cerebral degenerativa associada a repetidos traumas encefálicos.

“Vincent, sendo quem foi, teria desejado ajudar o maior número possível de pessoas”, afirmou  Allison Gorrell, porta-voz da família Jackson, em entrevista pelo telefone, na quarta-feira, 17. “Isso é algo que a família quis fazer para obter respostas para algumas de suas dúvidas.”

Muitas questões a respeito da morte de Jackson, incluindo a causa, permanecem sem resposta. Enquanto as conclusões de uma autópsia ainda podem levar semanas, o xerife do Condado de Hillsborough, Chad Chronister, afirmou em entrevista a uma rádio que Jackson, 38 anos, sofria de problemas de saúde associados ao alcoolismo, o que, segundo o chefe de polícia, foi citado no relatório de autópsia ainda não divulgado. Ele também afirmou que a família Jackson disse acreditar que as concussões podem ter influenciado o comportamento dele.

Allison afirmou que o xerife não fala em nome da família. A ETC só é possível de ser diagnosticada postumamente, e pesquisadores da Universidade de Boston, que mantém o maior banco de cérebros dedicado à pesquisa da doença, afirmou que essa análise pode levar meses. A gravidade da ETC em um jogador de futebol americano está relacionada ao número de anos que jogou e à quantidade de pancadas que recebeu, descobriram os pesquisadores.

O banco de cérebros recebeu um número crescente de doações de órgãos de jogadores que tinham 34 anos ou menos quando morreram. Mais da metade desses atletas tinha ETC.

Casado e pai de quatro filhos, Jackson era muito admirado dentro e fora da NFL por seu trabalho comunitário e sua perspicácia nos negócios. Veterano de 12 anos na NFL, Jackson jogou no San Diego Chargers e no Tampa Bay Buccaneers e foi eleito em Tampa Bay quatro vezes para concorrer ao Prêmio Walter Payton de Homem do Ano da NFL, que reconhece o serviço comunitário, durante quatro das cinco temporadas que passou no time. Jackson atuou como representante sindical da Associação de Jogadores da NFL e foi um dos requerentes no processo do sindicato contra os donos das equipes da liga durante o locaute de 2011.

Depois de se aposentar da NFL, em 2018, aos 35 anos, Jackson continuou a ajudar famílias de militares por meio da Jackson in Action 83 Foundation. Ele não jogava desde a temporada de 2016. Seu pai serviu no exército dos EUA, e a mulher dele, Lindsey, escreveu uma série de livros infantis a respeito da infância em famílias de militares. Jackson ganhou da Comissão Esportiva de Tampa Bay o prêmio o Distinguished Community Advocate em 2018. Ele era citado por ter feito uma transição tranquila da NFL para o ramo do desenvolvimento de empreendimentos imobiliários.

De acordo com o escritório do xerife do Condado de Hillsborough, Jackson foi encontrado no hotel Homewood Suites, em Brandon, Flórida, a poucos quilômetros de Tampa, onde, segundo os funcionários do estabelecimento, ele estava hospedado desde 11 de janeiro. A família de Jackson deu queixa de seu desaparecimento em 10 de fevereiro. Dois dias depois, as autoridades o encontraram no hotel e, “depois de constatar que Jackson estava bem”, encerraram a investigação de desaparecimento. A equipe de limpeza encontrou Jackson morto na manhã da segunda feira, dia 15.

Jackson foi um aluno exemplar no ensino médio e estudou administração de empresas na Universidade Northern Colorado, onde se formou como o recebedor de melhor carreira do time de futebol americano da instituição. Ele também foi titular do time de basquete da universidade, por duas temporadas, sendo o cestinha do time nos dois anos em que jogou.

Os Chargers recrutaram Jackson na segunda rodada de seleção de 2005 e, após um ano repleto de contusões como novato, ele se tornou rapidamente um jogador fundamental para o ataque do time, com foco nos passes rápidos. Ele foi indicado para o Pro Bowl em 2009, em 2011 e novamente em 2012, em sua primeira temporada com os Buccaneers. Jackson ainda detém o recorde dos Buccaneers de jardas por passes recebidos em um jogo: 216.

Durante sua carreira na NFL, ele marcou 57 touchdowns com passes recebidos na zona de pontuação teve seis temporadas com mais de mil jardas por passes recebidos. De acordo com o site NFL.com, Jackson foi preso duas vezes, em 2006 e 2009, por dirigir alcoolizado. Depois da segunda prisão, foi sentenciado a quatro dias na cadeia e cinco anos em liberdade condicional, e foi suspenso da liga por três jogos.

James Lofton, recebedor no Hall da Fama, treinou Jackson em San Diego e lembrou dele como um jogador excepcionalmente inteligente e motivado. Lofton relatou também uma ocasião em que Jackson ligou para ele às 4h15 para se desculpar por sua prisão em 2006.

“Somos parte da sociedade, e os mesmos problemas que afligem as pessoas nos afligem também”, afirmou Lofton a respeito dos jogadores da NFL. “Ele não parecia uma pessoa destinada a encontrar um fim trágico.”

Greg Camarillo, um ex-recebedor da NFL, dividiu alojamento com Jackson na temporada de treinos dos Chargers em 2005 e agora trabalha no departamento esportivo da Universidade de San Diego no setor de suporte ao aluno. Camarillo afirmou estar abalado com a morte de Jackson e publicou várias mensagens no Twitter na segunda feira a respeito dos problemas que os jogadores profissionais de futebol americano enfrentam na aposentadoria.

De acordo com Camarillo, muitos jogadores têm dificuldade de lidar com a vida depois que deixam a NFL, porque perdem sua identidade e ac ham desafiador descobrir um novo caminho sem ela.

“Isso poderia acontecer comigo ou com qualquer ex-jogador”, afirmou Camarillo em uma entrevista pelo telefone, na quinta feira. “Vince não era muito diferente de qualquer outro, incluindo a mim.” /Tradução de Augusto Calil

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