Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters

Cesare Prandelli: o homem que está mudando a Azzurra

Com jogadores técnicos em lugar de marcadores, ele está construindo uma equipe ousada para 2014

Entrevista com

Luís Augusto Monaco, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h08

SÃO PAULO - Em uma entrevista recente, o técnico Cesare Prandelli deu a seguinte declaração: "Na Juventus, Platini era um dos jogadores que mais recuperavam bolas." O que ele quis dizer, e que é a base do estilo que está tentando implantar na seleção italiana, é que não é preciso ser um jogador de marcação para roubar bolas. Um craque, se for inteligente e jogar para o time, pode fazer isso muito bem.

Prandelli está conduzindo uma revolução na Azzurra, trocando a força física e os cuidados defensivos pela leveza e a disposição para tomar a iniciativa. Ele teve a saudável ousadia de escalar no amistoso contra a França, disputado dia 14, em Parma, um meio de campo sem nenhum "brucutu": Verratti, Montolivo e Marchisio, três jogadores técnicos. Prestes a embarcar para São Paulo a fim de acompanhar o sorteio da Copa das Confederações (chega quinta-feira), ele falou com exclusividade ao Estado.

Depois de pouco mais de dois anos de trabalho, como o senhor avalia o estágio da Itália?

Estou muito satisfeito, acho que caminhamos bem, mas ainda temos uma boa margem para melhorar. Estamos em meio a um processo de renovação, o que não é uma tarefa simples, sem poder deixar de lado os resultados porque primeiro disputamos as Eliminatórias para a Eurocopa e agora estamos empenhados em conseguir a classificação para o Mundial aí no Brasil.

A Itália tem a tradição de ser muito forte na defesa, muito disciplinada taticamente e pouco criativa. O senhor está mudando isso, apostando em jogadores mais hábeis e num time mais solto. Por que resolveu investir nessa mudança?

Tudo é uma questão de como cada um vê o futebol. Gosto de times que fiquem com a bola e construam o jogo. Claro que não dá só para atacar, é preciso ter equilíbrio. Mas minha prioridade é preparar a equipe para ter a bola o máximo possível.

A Itália foi elogiada na Eurocopa, principalmente pelas atuações que teve contra Inglaterra e Alemanha, mas na final sofreu uma derrota dolorosa para a Espanha por 4 a 0. Mesmo assim a imprensa e os torcedores mostram-se orgulhosos da equipe... Em primeiro lugar, gostaria de dizer que alguns fatores foram decisivos para essa derrota dolorosa a que você se referiu. Tomamos um gol muito cedo, outro no fim do primeiro tempo, e no segundo, quando estávamos reagindo, perdemos Thiago Motta machucado e tivemos de ficar com dez jogadores porque eu já tinha feito as três substituições. E jogar com um a menos contra a Espanha é complicado. Mas as pessoas na Itália entenderam que estamos no caminho certo.

O senhor tem alguma equipe que sirva de modelo para o que pretende implantar na Itália?

Existem vários times que jogam assim, e jogam bem. Tudo depende dos jogadores que o treinador tem à disposição e das características deles. A vantagem de ser técnico de seleção é poder contar com o jogador que você quiser para adaptar ao seu sistema.

O senhor tem um esquema tático preferido?

No último amistoso que fizemos, contra a França, em Parma, jogamos pela primeira vez no 4-3-3. Na Eurocopa, usamos o 4-1-3-2. Devemos saber jogar em vários esquemas, porque às vezes as circunstâncias da partida ou as características do adversário exigem alguma mudança.

O Barcelona joga sem um centroavante autêntico, a Espanha vira e mexe usa essa fórmula e o Brasil com Mano Menezes vinha testando esse sistema nos últimos jogos. O senhor acha que a ausência de um "nove" nos times pode se tornar uma tendência?

Se há uma boa movimentação e você conta com meio-campistas que sabem fazer gol, é um esquema que pode funcionar bem, e aí estão o Barcelona e a Espanha para nos ensinar. No caso do Brasil, com a tradição de meias técnicos e goleadores que vocês têm, também pode dar certo.

Por que a maioria dos times valoriza mais os contra-ataques e as bolas paradas do que a posse de bola e a qualidade técnica dos meio-campistas?

Não sei. Os contra-ataques são importantes em alguns jogos, as bolas paradas merecem atenção e treinamento, mas para mim futebol é ter a bola e jogar. Ter pouca posse de bola significa mais desgaste. Eu quero que o meu time jogue e o adversário fique cansado, e para isso é preciso tocar a bola.

Na renovação da seleção o senhor tem dado espaço a jogadores da equipe Sub-21 como El Shaarawy, Verratti, Florenzi, Destro e Insigne. Em junho haverá a Copa das Confederações e a fase final da Eurocopa Sub-21. Esses garotos vão disputar qual dessas competições?

Essa é uma questão que vamos resolver em fevereiro. O título europeu Sub-21 é muito importante para a Itália, mas dar a esses garotos a experiência de disputar uma competição forte como a Copa das Confederações no país do próximo Mundial também seria muito bom, não só para eles como para a formação do time também. Não vai ser fácil tomar essa decisão.

O calendário é um problema para as seleções, já que as grandes competições são disputadas sempre quando termina a temporada dos clubes europeus?

O calendário é um problema para as seleções e também para os clubes, porque há muitos jogos. É preciso uma reforma que respeite os interesses de todos, porque os jogadores chegam esgotados para as competições de seleções. O Campeonato Italiano é tão duro que não consigo ter ideia do time que terei na Copa das Confederações. Um jogador pode ter de ficar fora da lista por não estar em boa condição física.

O que o senhor acha do Neymar?

É um ótimo jogador, dotado de um talento fantástico. Não tenho dúvida de que ele está pronto para triunfar na Europa.

E o Messi? Em que lugar o senhor o coloca na lista dos grandes craques da história? Ele já pode ser comparado a Pelé e Maradona ou já os superou?

A história é fascinante porque propõe esse tipo de discussão sempre que surge um grande craque. Hoje não tenho dúvida de que Messi é o melhor do mundo. Escolher o melhor de todos é uma tarefa quase impossível. Vamos esperar o Messi encerrar a carreira para fazer um julgamento, mas quando parar com certeza ele terá o direito de sentar-se à mesa com monstros como Pelé, Maradona, Platini e Zico.

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