'Champions'

Sabem onde eu vou assistir à grande final da Europa Champions League, neste sábado? Num cinema de São Paulo, com transmissão em 3D. Além do cinema em que acompanharei com emoção os dribles de Messi e as finalizações de Rooney, vários outros, espalhados pelo País (serão 9 em 8 cidades), também transmitirão o confronto entre Barcelona e Manchester United. Isso sem falar nos milhares de bares que reunirão uma multidão de torcedores que nenhum jogo do Campeonato Brasileiro - sem mata-mata nem finalíssima - sonharia em reunir. Fora o grupo mais fanático, que se deslocará a lugares públicos para ver o jogo, milhões de outros brasileiros estarão sentadinhos em suas casas, acompanhando a decisão, que será transmitida por TV aberta.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

É inevitável: o futebol europeu, com seus craques galácticos, estádios de sonho e transmissão impecável, veio para ficar. Cada vez mais, jovens torcedores adoram envergar com orgulho as camisetas dos seus clubes favoritos na Europa. Hoje é mais fácil achar uma camisa do Chelsea para comprar em São Paulo do que uma do Vasco ou do Botafogo.

No Rio, é muito mais provável que encontremos a rubro-negra do Milan do que a tricolor do São Paulo. Sinal dos tempos. Prova cabal de que o marketing bem feito dos clubes europeus é capaz de mudar o comportamento de milhões e milhões de torcedores mundo afora.

Recordo-me de quando o basquete da NBA começou a ser transmitido para o Brasil. "Ninguém vai querer ver isso!" - espumavam os puristas. Hoje, nossas lojas de material esportivo vendem as camisetas de todos os times da Liga Norte-Americana.

Em uma ou duas décadas, nossos jovens estarão muito mais ligados no que fazem os clubes europeus do que em clubes de outros Estados. Nos meus tempos de garoto, torcedor do Fluminense, acompanhava com atenção, na revista Placar ou na Manchete Esportiva, as notícias dos clubes rivais do Rio e dos grandes clubes de outros Estados. Dos clubes estrangeiros de vez em quando chegava uma notícia pitoresca. E era só.

Um dia, com narração de Sílvio Luiz e comentários de Silvio Lancellotti, a TV Bandeirantes começou a passar os jogos do calcio italiano. Nosso universo esportivo jamais voltaria a ser o mesmo.

Acompanhávamos as jogadas de Zico na Udinese, as arrancadas de Cerezo na Sampdoria, os gols de Careca pelo Napoli - isso sem falar em Maradona e em uma legião de craques estrangeiros que também jogavam na Itália. A semente da invasão europeia estava plantada.

Proponho a seguinte experiência ao amigo leitor que tiver um filho adolescente: pergunte a ele pela escalação do Barça ou do ManU. Se ele gosta de futebol, é bem provável que consiga recordar meia dúzia de jogadores de cada time. Se for viciado em jogar Fifa 11 no videogame, é capaz de se lembrar de todos os titulares e ainda alguns reservas. Pois bem. Agora peça a ele para listar três - apenas três - jogadores de Vasco e Coritiba, finalistas da Copa do Brasil. Salvo se for vascaíno ou coxa-branca, duvido que ele consiga citar dois.

Um amigo meu não tem mais dúvidas: para os jogadores que atuam no futebol europeu, como Messi, já é muito mais importante vencer uma Champions League do que uma Copa do Mundo. Para esse meu amigo, o amor do jogador pelo clube que o projetou como astro global e paga seus salários milionários é maior do que pelas cores da pátria.

O amigo ainda jura que um autêntico torcedor do Barça, entre ver seu clube ganhar a Champions e ver seu país ganhar a Copa, não titubeia: prefere a Champions. Essas opiniões talvez sejam exageradas, ainda. Mas reparem: eu disse ainda. Não duvido de que, em uma ou duas décadas, a final do torneio mais importante da Europa esteja rivalizando em audiência com a final da Copa. Sob a ótica do preço dos ingressos no câmbio paralelo, a Champions já pulou na frente: mil e quinhentos euros é o preço do assento mais barato. O jeito é ver no cinema. Ou no sofá.

Bom jogo a todos! E que vença o melhor, ou seja, o Barça.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.