Charlotte Adsbol/ HH Elite Handebol Horsens
Charlotte Adsbol/ HH Elite Handebol Horsens

Chana continua jogando handebol em alto nível aos 43 anos e dá aulas em pequena cidade da Dinamarca

Ex-goleira da seleção brasileira defende o HH Elite Handebol Horsens e já vê filha de quatro anos dar os primeiros passos na quadra

Roberto Salim, especial para o Estadão

17 de maio de 2022 | 15h00

Muitos cientistas do esporte garantem que é praticamente impossível continuar no alto rendimento após os 40 anos. Mas existem exceções, como é o caso da goleira Chana, que aos 43 anos está em ação nas quadras: defendendo como nunca, se esforçando como sempre nos treinos, fechando o gol em seu time na Dinamarca, o HH Elite Handebol Horsens.

A atleta de handebol, que só deixou de ser convocada para a seleção brasileira após a Olimpíada de Londres porque os dirigentes não engoliam sua liderança, continuou sua carreira, prosseguiu sendo reconhecida mundo afora e foi campeã da Superliga Europeia em 2021 defendendo o CSKA de Moscou. Ela foi eleita para o time das melhores jogadoras da competição. Marcou época no Brasil, em Jogos Olímpicos.

Agora, Chana é ídolo do time e professora de handebol na pequena cidade de Horsens, a 264 quilômetros da capital Copenhague. "O handebol é muito forte na Dinamarca e o nosso time voltou à liga principal do país, que conta com doze equipes. Nesta temporada, cumprimos o objetivo, que era a disputa do quinto ou sexto lugares", contou com entusiasmo a goleira, que prevê a luta por um lugar no pódio dinamarquês já em 2023, para aumentar, inclusive, a média do público no ginásio da cidade, que recebe cerca de 2.200 torcedores por partida.

"Eu amo jogar", confessou Chana, verdadeira muralha sob as traves das quadras de handebol da Dinamarca. "Sabe, eu melhorei depois da gravidez. Senti minhas energias voltando. E assim, com a Júlia recém nascida, foi mais fácil aceitar os convites e voltar a me apresentar na Europa." Depois do nascimento da filha, Chana jogou cinco meses na Noruega e mais dois anos em Moscou. "Jogando hoje, sinto uma satisfação diferente na quadra. Antes havia uma pressão maior, que eu mesmo me colocava. Atualmente, vivo uma outra situação. Parece que a bola me procura."

Com atuações muito boas desde que chegou ao país, em julho do ano passado, Chana ganhou o reconhecimento da torcida local e de muitos dos 60 mil moradores da cidade, que é a oitava da Dinamarca e muito conhecida por suas atividades esportivas, de entretenimento e culturais. "Claro que com 43 anos não está fácil. O corpo fica dolorido após as partidas. Sinto que a parte física está me cobrando. Mas o técnico me conhece bem, não me escala o jogo inteiro. Entro nos momentos certos, nos confrontos decisivos. E tudo está indo bem. Uma vez guerreira, sempre guerreira. Em jogo que vale, estou indo bem."

Por essa ascensão da equipe, Chana é reconhecida nas ruas da cidade dinamarquesa, com seu cabelo curtinho em tom rosa, suas defesas e os ensinamentos na escola onde dá aulas de handebol para as jovens estudantes. "Eu e o meu marido já recebemos convites para dar cursos anuais de futebol e handebol para os jovens do país inteiro nas épocas de férias, em acampamentos que ocorrem cerca de quatro vezes por ano", contou. O casal tem o reconhecimento local. E, por ora, não pensa em voltar ao Brasil.

Ela também explica a opção pelos cabelos rosas, e não é para ficar mais jovial. "Quando eu tive a Júlia, passei dois anos amamentando e o cabelo caiu muito. Então, passei a cortar bem curtinho. E mudar o tom. Já foi loiro, clarinho, todo branco, azul, lilás e agora é rosa. Adoro ir ao salão e é mais fácil me arrumar com esse penteado."

Depois de deixar o Brasil, Chana se sente à vontade na cidade dinamarquesa de parques e lagos. Mas um outro fator pesa e a ajuda aos 43 anos e longe de casa: a pequena Júlia, que, aos 4 anos, já declarou em bom dinamarquês que quer ser igualzinha à mãe. "Ela é muito ativa e vai ficar alta", contou Chana, casada com o jogador de futebol Jairo, que dá aula em escolas do país. Chana mede 1,83m e vê a pequena Júlia se desenvolver rapidamente. Ela assiste orgulhosa aos primeiros passos da menina na iniciação do esporte que a consagrou.

"A Júlia começou no handebol aos 3 anos, mas é mais uma atividade motora. Ela é muito ativa. Tem coordenação e leva jeito para o esporte", admitiu Chana, que trabalha com jovens estudantes da BGI Skole. "É a turma de 17 a 19 anos, que pode escolher uma modalidade esportiva para praticar na escola."

Toda essa atividade não tira a força da superatleta, que resiste aos treinamentos e vive intensamente essa vida dedicada ao esporte. Chana aceitou o desafio de seguir a carreira no HH Elite Handebol Horsens, porque o convite partiu de seu treinador Jan Leslei dos tempos em que jogava na Rússia. "O Jan é dinamarquês e foi convidado para trabalhar em Horsens, desenvolver um trabalho na cidade e me convidou para jogar, treinar as goleiras do time de base, e também as goleiras que jogam comigo, além de dar aulas na escola. E meu marido também pôde trazer seus conhecimentos futebolísticos para os alunos. Então, aceitamos".

Nos momentos de folga, aproveitando os dias de sol, Chana não esquece as origens catarinenses nem sua querida Capinzal - onde é tão respeitada como em Horsens - e curte o contato com a natureza. Em dias ensolarados, apesar da temperatura de 15 graus, ela e Júlia podem ser encontradas nos parques na cidade. "Tem os lagos, muito verde e gostamos de andar de bicicleta."

Nas férias de junho, Chana voltará à sua terra para matar a saudade, rever os amigos, a família e dar um curso de treinamento motivacional. "É uma nova atividade a que quero me dedicar também", revela a atleta, que sempre foi líder do grupo brasileiro de handebol. Ela disputou quatro Pan-americanos, sete Mundiais e quatro Olimpíadas, a última das quais em Londres, quando o Brasil perdeu um jogo incrível para a Noruega. "Às vezes sonho com aquela partida."

O Brasil vencia o primeiro tempo de forma arrasadora. Como de costume, Chana não foi para o vestiário no intervalo. Continuou em processo de aquecimento na quadra olímpica. Estava fazendo uma partida estupenda. E assim foi até o fim do jogo, mas as norueguesas tinham um time superior e conseguiram reagir. Foi um baque para a seleção do Brasil. E logo viria outro choque na carreira de Chana, porque suas denúncias e declarações não agradavam aos dirigentes da época. Como em quadra, fora dela também a goleira não negava empenho, verdade e transparência. A punição dos cartolas foi deixá-la fora das convocações.

"Eu sofri demais naquela época. Sofria por não estar mais no grupo. Mas com o tempo, desencanei, apesar de amar a seleção". Hoje, Chana continua em ação, continua sendo uma das melhores do mundo. Ela é uma lenda. Chana Masson, com suas atuações, já virou motivo de estudo na tese de doutorado da técnica Marisa Lofredo. E vai continuar fazendo história enquanto seu corpo aguentar: no segundo semestre voltará à Dinamarca, para continuar ensinando sua arte na escola e defendendo o HH Elite Handebol Horsens.

Quando parar, poderá cuidar de treinar novas goleiras, fazer suas palestras motivacionais e acompanhar de perto o desenvolvimento da pequena Júlia, que diz a todo mundo que quer ser igual à sua mãe. Chana só não sabe se a menina será também uma goleira. Também não sabe até quando terá forças para continuar atuando profissionalmente. "Mais um ano com certeza dá para jogar."

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