Chefe antiterror ordenou ação contra Jean Charles

Comandante da operação que terminou com a morte do brasileiro em 2005 é o líder do grupo antiterrorismo dos Jogos

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL/ LONDRES, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2012 | 03h06

Comandante da operação que resultou na morte por engano do brasileiro Jean Charles de Menezes, em Londres, em julho de 2005, Cressida Dick, de 49 anos, é a oficial chefe do grupo especial antiterrorismo dos Jogos Olímpicos de 2012. Jean Charles foi assassinado com sete tiros por policiais britânicos após ser confundido com um terrorista etíope quando entrava em um vagão do metrô na estação Stockwell, no mais vergonhoso episódio da Scotland Yard, a Polícia Metropolitana de Londres.

Cressida é a mulher com a posição mais alta na hierarquia da corporação. O cargo que ocupa, como comissária assistente, é o terceiro na hierarquia do comando da Scotland Yard, sendo o vice-comissário o segundo posto e o comissário o comandante-geral da corporação. À frente da Direção de Operações Especiais, ela é responsável pelo serviço de inteligência contraterrorismo e pela proteção dos membros da Família Real, ministros britânicos e chefes de Estado, a segurança especial do Palácio de Westminster e dos aeroportos, como o Aeroporto Internacional de Heathrow, e pela coordenação das operações antiterrorismo na cidade.

"Cressida cometeu um erro absurdo, mas isso nunca foi considerado pela polícia ou o governo britânico, como se a morte do Jean não fosse um erro importante'', disse ao Estado em Londres a prima do eletricista, Vivian Menezes. Foi Jean Charles quem a trouxe para Londres, quando voltava de férias no Brasil, três meses antes de ser morto. Ele tinha 27 anos.

No domingo, aniversário de sete anos da tragédia, familiares deixaram flores e velas no memorial em sua homenagem na estação de Stockewell. "Ainda hoje a família não aceita o que aconteceu, mas temos de conviver com isso. Não há mais nada a fazer. É claro que a oficial não foi a única responsável, mas ela estava no comando, a última palavra para atirar em Jean foi dela.''

A Scotland Yard declinou um pedido de entrevista. Ao Estado, o oficial de imprensa da corporação disse apenas que este é um assunto passado. "A Justiça já decidiu sobre o caso e não queremos mais voltar no assunto. Cressida Dick está habilitada para exercer a função a que foi selecionada'', disse Simon Fisher.

Policiais à paisana confundiram Jean Charles com o terrorista etíope Hussain Osman, um dos autores de um ataque fracassado no dia anterior na capital britânica. A partir daí, uma série de erros envolvendo outros oficiais ocorreu, impedindo a identificação correta de Jean Charles. No comando da operação, Cressida Dick deu de sua sala a ordem para deter o suspeito. "É difícil imaginar uma pessoa menos adequada para uma posição tão importante, e é impossível pensar que será capaz de realizar esse papel com aprovação pública. Que dirá com dignidade'', escreveu o comentarista político Graeme Archer no Daily Telegraph, sobre a nomeação da oficial para o cargo, em julho do ano passado. "Nada de fundamental foi feito para mudar a impressão de que as pessoas que dirigiam a Metropolitan Police têm leis para si mesmos. É uma força policial que não tem vergonha (de seus erros).''

A Scotland Yard foi multada por falha na proteção de civis, mas a Justiça considerou não haver suficiente evidência para condenar pessoalmente os oficiais envolvidos no caso. O crime ocorreu duas semanas depois dos atentados coordenados em três linhas de metrô e um ônibus, que deixaram 52 mortos e quase 700 feridos, em 7 de julho de 2005 em Londres e a polícia britânica estava sob forte pressão.

Informações dadas pelo comando na época, como a de que Jean Charles resistiu à prisão ou que teria pulado a barreira de entrada do metrô e corrido até o trem usando uma jaqueta com volume maior do que o tamanho de seu corpo, foram comprovadas como sendo infundadas pela investigação, o que levou ao pedido de demissão do então chefe da Scotland Yard, Ian Blair.

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