Chefe da comissão cumpre seu papel e cai

Aristeu Tavares bate de frente com cúpula da CBF ao revelar investigação sobre manipulação de resultados

SÍLVIO BARSETTI , RIO, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2013 | 02h08

Um dos motivos da saída de Aristeu Tavares da presidência da comissão nacional de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na terça-feira, pode ter sido o empenho do oficial reformado da Polícia Militar do Rio em levar a cabo denúncias de manipulação de resultados em jogos de competições oficiais no Brasil - uma extensão de uma rede de fraudes cujo centro fica na Europa. Foi o que revelou ao Estado dois dirigentes que conhecem em detalhes o estilo de trabalho da cúpula da CBF.

Aristeu foi afastado pelo vice-presidente da entidade, Marco Polo Del Nero, sensível à irritação de Marin com uma entrevista de Aristeu ao jornal O Popular, de Goiânia, na qual afirmou que árbitros sob suspeição continuam apitando jogos nacionais e que "a presidência da CBF foi diretamente alertada" por ele sobre a gravidade do problema.

Ao saber das declarações de Aristeu, na semana passada, Marin chegou a comentar entre seus pares que "ele (Aristeu) jogou uma ogiva na 'minha' mesa". O presidente da CBF conversou então com Del Nero e os dois decidiram exonerar o ex-bandeirinha, que atuou na Copa de 2006, na Alemanha. Na terça-feira, chamado à presença de Del Nero, na sede da CBF, no Rio, Aristeu ouviu o comunicado do vice, mas, a fim de atenuar a repercussão do caso, aceitou convite para trabalhar como diretor-adjunto da Escola Nacional de Arbitragem, ligada à CBF.

"Quero ter mais tempo com a família, cuidar de mim também. Estou me sentindo até aliviado", disse Aristeu, ontem de manhã. Ele, no entanto, caiu em contradição ao negar que a CBF já tivesse encaminhado alguma denúncia de manipulação de resultado de jogos para investigação do Ministério Público Federal. Ao O Popular, que dispôs o áudio da entrevista em seu site, Aristeu tinha sido claro dias antes: "Já existem denúncias que a CBF encaminhou para o MPF. Somos fiscais da moralidade da arbitragem nacional e é nossa obrigação acompanhar isso."

Aristeu já sofria desgaste na entidade desde o final de 2012. Ele teria contrariado a direção da CBF em algumas escalas de árbitros em partidas do Campeonato Brasileiro do ano passado.

"Aquele cargo é político. Não existe esquema de dinheiro. O que há, em várias situações, é a orientação do presidente da comissão para que o árbitro 'tenha cuidado' com o time X no jogo Y. Isso vem de cima. Se o recado é entendido e o time X sai vitorioso, o árbitro ganha prestígio, passa a ser 'confiável' e é escalado para outras missões. Assim, vai se credenciando a integrar o quadro da Fifa", disse ao Estado uma fonte com trânsito livre nos bastidores da CBF e que garantiu a idoneidade de Aristeu durante os seis meses em que esteve no cargo. "O Aristeu não atendeu a nenhum dos recados ou não os entendeu. Agiu corretamente, com honestidade", prosseguiu.

Aliado de Marin, o presidente da Federação de Futebol do Rio Grande do Norte, José Vanildo da Silva, afirmou que, "pela gravidade das declarações de Aristeu, a CBF tomou a medida correta". Para ele, a entidade tem a obrigação de apurar com rigor as denúncias. "Num período que precede uma Copa, têm de ser esclarecidas."

A assessoria da CBF informou que Aristeu não foi demitido e que não existe denúncia, em curso, de manipulação de resultado de jogos no Brasil.

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