Chega de bizarrice

Eram incríveis os anos 80 e o início dos 90 na Itália, e um toque sutil da paisagem das grandes cidades explicava o que se passava no futebol mundial daquele período: o número impressionante de pessoas carregando um jornal cor-de-rosa nas manhãs de segunda-feira. A Gazzetta dello Sport ainda é o principal veículo de informação esportivo dos italianos, mas longe daquela época.

Paulo Vinícius Coelho, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h02

Impressionante também é, hoje em dia, passear pelas ruas e praças de Barcelona e Madri. Se a economia espanhola está em amplo processo de deterioração, é de se perguntar o que se faria sem vender a quantidade de bibelôs, bonecos, estampas, echarpes e camisetas com as marcas de Barcelona e Real Madrid.

A paisagem da Plaza Del Sol, na capital da Espanha, é diferente de Londres, outro pólo do futebol europeu e mundial. Londres tem gente do mundo inteiro. Talvez por isso os badulaques de Chelsea, Arsenal, Tottenham, Liverpool e Manchester United se espalhem mais, e não fiquem tão visíveis como os artigos de Barça e Real que são comprados por turistas apaixonados por futebol que visitam a Espanha.

Talvez esse encanto do mundo com o futebol da Espanha explique o inexplicável: por que toda a seleção mundial anunciada pela Fifa segunda-feira atua em clubes espanhóis?

Entender que os três melhores jogadores do planeta sejam de clubes da Espanha, tudo certo. Mas se a lista dos dez melhores tem Pirlo e Van Persie, por que os onze eleitos são Casillas, Daniel Alves, Piqué, Sergio Ramos e Marcelo; Xabi Alonso, Xavi e Iniesta; Messi, Falcão Garcia e Cristiano Ronaldo?

Onde estão Pirlo, o sétimo mais bem votado? E Ibrahimovic? Van Persie e seus números de gols inacreditáveis em 2012? Por que esses três não estão na seleção?

A impressão é de que o mundo só olha para a Espanha, como só se olhava para a Itália no tempo dos jornais cor-de-rosa. Naquela época, para ser eleito era necessário jogar em Inter, Milan ou Juventus.

Lotthar Matthaeus (Inter), Marco Van Basten (Milan) e Roberto Baggio (Juventus) ganharam antes de Romário, do Barcelona, levar o prêmio em 1994. Mas abaixo dos "italianos" dos primeiros anos 90 havia franceses como Papin, segundo colocado em 1991, ou "espanhóis", como Stoichkov, vice-campeão em 1992.

A necessidade de reforma do prêmio, porém, revela-se mesmo é nos votos aos amigos.

É difícil mudar critérios e impossível fazer os olhos dos apaixonados por futebol não se dirigirem mais para a Europa do que para outros continentes. É preciso, então, uma aula de interpretação das regras, para evitar votos bizarros como o de Casillas, que escolheu seu amigo Sergio Ramos como melhor jogador do planeta. Menos!

Votos bizarros não tiram a graça, mas retiram um pouco da seriedade que um prêmio desse tipo merece ter. Parabéns Messi, merecido ganhador da Bola de Ouro de 2012. Parabéns também a Cristiano Ronaldo, Iniesta, Xavi e aos que olham o futebol nos quatro cantos do mundo, vantagem que os sul-americanos têm hoje sobre os europeus - olhar para a sua liga e para as outras também.

Parabéns aos ganhadores! Mas que a Fifa pense na orientação aos votantes para evitar no ano que vem bizarrices como a cometida por Casillas em 2012.

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