Chega de cara feia

O que não falta por aí, nestes dias, é palestrino de cara amarrada. Muita gente bonita está com olheiras profundas de quem não dorme há uma semana. Fora o mau humor, que nem mesmo o Dunga mostrava em entrevistas tensas de quando dava as cartas na seleção. Moços cordiais e bem nutridos viraram molambos, bombas-relógio ambulantes, prontos para explodir ao menor atrito. Um aspecto de velório, credo! Também pudera, o time deles está numa secura pior do que o ar de São Paulo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h03

Entendo a apreensão, sou solidário com a dor palmeirense, tão respeitável quanto a de qualquer clube, de qualquer divisão e de qualquer lugar do mundo, que lide com a ameaça de rebaixamento. A tormenta verde sofre a agravante de ter aumentado após a derrota no domingo. A 15.ª, e logo para o rival mais temível, aquele para o qual não se deseja perder nem no par ou ímpar, nem no jogo de bafo. É provação tremenda.

Nessa hora, me vem em mente o Toninho Cazzeguai com seu método prático de encarar problemas. O maior filósofo dos bares do Bom Retiro de épocas passadas daria um chacoalhão num palmeirista jururu e mandaria, num vozeirão mais atordoante do que Carrera, Domingo, Pavarotti (boa alma) e Bocelli juntos: "Mas que cáspita de cara é essa?! Morreu alguém da família? Tá faltando pão em casa? Não tem pro leite das crianças? Não?! Então, já deu! Chorar por time de futebol só vale por um dia ou dois. Daí pra frente é falta do que fazer!"

Simples, direto e claro. Assim era o Cazzeguai, que decretaria basta à cara feia da turma (pelo menos até sábado). Além disso, curtia Corinthians e Palmeiras com afeição idêntica. Sujeito tão especial que simpatizava por rivais irreconciliáveis. Pois, em sua enorme sensibilidade e amor pela vida, fruía o prazer do futebol e apreendia o significado de equipes populares e com mesma raiz.

Palmeiras e Corinthians são irmãos que não se dão, todos sabem, e já faz quase 100 anos, mas indissociáveis na essência. Se um deixasse de existir, não haveria sentido para o outro. Para onde dirigir as gozações? Que graça teriam as conquistas, se não tivesse como se gabar na frente do desafeto? Inimaginável situação do gênero. O fim do mundo!

Como não se trata de hecatombe os gracejos; eles não representam ofensa à honra, à tradição, às cores de nenhuma agremiação. Vamos parar com bobagem! O futebol é sedutor pelos dribles, pelos gols, pela emoção, pelos frangos, pelos erros de arbitragem, pela polêmica e... pela provocação. Zoar o adversário é vital no joguinho de bola. No dia em que não se fizerem mais brincadeiras, ou em que não se soltar um palavrão em campo, acabou o futebol. Caput, finito! Podem enterrá-lo e procurar outra diversão. Não dá pé.

Boa estratégia para o fã do Palmeiras, neste momento, é embarcar na onda dos "inimigos", encampar a zombaria e rir também. Vai perceber que, dessa maneira, esvazia o poder das cutucadas alheias e alivia a própria tensão. Ao mesmo tempo, deve apoiar o time, abraçá-lo onde estiver. Só não vale perder a cabeça, muito menos ameaçar jogador ou dirigente nem apelar pra quebradeira. Isso não é amor, mas ignorância, das bravas.

E esperar, pois o mundo dá voltas...

Selecionáveis. 1 - O Brasil de novo em ação: hoje à noite veremos outro capítulo da banalização do maior clássico do futebol mundial, no caça-níquel com a Argentina. 2 - Mano diz que seleção é onde Neymar descansa mais. 3 - Não é que arranjaram mesmo amistoso contra o Iraque?! Parei.

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