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Antero Greco
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Chega de confinamento

O futebol no Brasil tem caretices do tempo em que o Charles Miller voltou da Inglaterra com uma bola de capotão debaixo do braço e chamou os amigos para conhecerem a brincadeira dos bretões. Mas, vez ou outra, uma novidade coloca a cabeça pra fora da caixa quadrada em que é mantido o esporte nacional. A boa notícia veio com a decisão de Muricy Ramalho de dispensar os jogadores do São Paulo da concentração na fase de pré-temporada. A cartolagem deu aval.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h02

A programação é simples e prática: a rapaziada apresenta-se logo cedo no centro de treinamentos, cumpre o roteiro do dia, faz as refeições em conjunto - desjejum, almoço e jantar - e, em seguida sinal verde para todos dormirem em casa. Com o compromisso de se apresentarem no dia seguinte na mesma hora. Assim, cada um pode repousar ao lado de parentes, e que todos durmam sossegados, com anjos, arcanjos e querubins. Bom sono e pontualidade britânica no batente.

A medida não é inédita pelos lados tricolores. Em 2014, o técnico havia liberado a trupe do confinamento, antes de algumas partidas. O resultado da experiência satisfez. A tendência indica a ampliação da fórmula daqui em diante. Pelo visto não está longe o momento de abolição integral de uma das regras mais entediantes para boleiros.

Concentração é atraso de vida e tema que motiva discussões há décadas. Em muitas ocasiões houve movimentos por aqui derrubar norma que ninguém sabe direito de onde surgiu. Numa bela ocasião, algum iluminado ponderou que seria imprescindível para o bem-estar dos atletas que abandonassem seus lares, dois, três, quatro dias - ou até uma semana - antes de uma partida, para que não se desgastassem. Deveriam, a propósito, concentrar-se só no duelo seguinte e abstrair o resto.

Pode ser que, em algum estágio do relacionamento entre clubes e jogadores, tal artifício funcionasse. O nível de consciência profissional nem sempre foi o mesmo, e tinha gente que precisava de uma rédea para não sair da linha. Daí o internato temporário. Hoje, ainda existem cabeçudos e espertinhos - e jamais sumirão. Mas nem se pode comparar o comprometimento. A concorrência é forte, e vacilos custam vaga no time titular e o emprego.

Concentração serve para enriquecer o folclore do futebol. Meia hora de conversa com algum veterano da bola basta para virem à tona muitas histórias de puladas de cerca nos dias de recolhimento e abstinência.. Criatividade inesgotável foi colocada em prática para driblar a vigilância de treinadores, auxiliares, seguranças. Já teve jogador que saiu do quarto pela janela por meio de terezas (lençóis amarrados, como se vê nos filmes), ou disfarçado de empregado de hotel. Não faltou quem tenha engraxado a mão de porteiros ou expulsou companheiro de quarto para um idílio romântico com uma fã fervorosa. (Boleiros 1, do querido Ugo Giorgetti, tem episódio antológico disso.)

Quantos moços não vararam a noite, em priscas eras, a jogar baralho ou dominó e a tomar birinaites para espantar o tédio? Hoje, tablets, celulares, internet preenchem o vazio das horas mortas. Mais fácil, até, perder o sono com distrações. Nem adianta ameaçar com proibições; isso é de primarismo enternecedor.

O jogador deve assumir o compromisso com a carreira e ter noção clara de que responderá pelas ações. Pisou na bola? Azar dele. O tempo faz a seleção com naturalidade, como ocorreu com o Atlético Mineiro no ano passado. Sem concentração, dirigentes e técnicos se desgastam menos com os subalternos e param de bancar babás de marmanjos. Há economia, também. E que se deixe aberta a opção de retiro para o atleta que, por alguma razão, assim o desejar. É muito mais saudável.

Sinceridade. O técnico Cuca e Vágner Love, ambos do Shandong, time que fez amistoso ontem com o Palmeiras, admitiram que Diego Tardelli perderá visibilidade, em termos de seleção, com a ida para a China. A compensação está na grana.

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