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China dá estádios em troca das riquezas da África

Chineses erguem arenas em vários países, como o Gabão, e garantem petróleo e minérios

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2011 | 03h03

GENEBRA - O futebol na China é um verdadeiro fracasso. Mas, no desembarque do país no continente africano, ele se transformou em uma das maiores armas de Pequim. Na quinta-feira, a seleção brasileira inaugura o novo estádio de Libreville, no Gabão, e deve receber para isso US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,73 milhão) em cachê. Mas, na realidade, estará sendo usada para selar a aliança entre o país africano e a China, que está bancando a festa. O Estado apurou que os chineses já ergueram 52 estádios de futebol nos países africanos e o do Gabão é o mais novo deles. Outras nove arenas serão abertas até o fim de 2012.

Os investimentos chineses em estádios africanos não ocorrem por acaso. O avanço da China está transformando o mapa do continente, trazendo novos investimentos e deslocando parceiros tradicionais, como a França e Reino Unido. Mas esse desembarque começa a ser criticado, inclusive pela população local, que alerta que Pequim está apenas repetindo o padrão de colonialismo dos europeus, levando minérios, petróleo e recursos naturais da África para alimentar sua expansão.

Para amenizar essa tensão, nada melhor que mostrar aos africanos que a China está disposta a garantir benefícios à população local. Nessa estratégia, o futebol e a criação de empregos tem papel central. Os asiáticos, portanto, usam a popularidade da seleção brasileira e o futebol para bancar uma melhor imagem de sua expansão pelo continente africano.

Presente. Em entrevista ao Estado, o diretor administrativo da Federação de Futebol do Gabão, Nzogo Gabin, confirmou que o estádio de Libreville é um "presente''' dos chineses e que o jogo de inauguração faz parte dessa aproximação entre as duas nações."O Brasil é o grande convidado do evento que marca a amizade entre nossos países'', disse Gabin.

Com 40 mil lugares, a arena será chamada de "Estádio da Amizade Gabão-China'' e vai ser também o palco da final da Copa das Nações Africanas de 2012."Todos os torcedores poderão ver o jogo sentados e as arquibancadas serão cobertas'', comemora o cartola africano.

O novo estádio foi construído por uma empresa de cimentos da China e financiado exclusivamente por Pequim, na tentativa de se firmar como o maior parceiro do Gabão, país repleto de petróleo em sua costa. Segundo Gabin, os chineses trouxeram até mesmo parte dos pedreiros, além de engenheiros e técnicos.

No Gabão, a desconfiança com os chineses fez surgir até mesmo o rumor de que os operários trazidos para o país eram prisioneiros. Mas a Shangai Construction Group, que opera o estádio, fez questão de abrir quase mil vagas de trabalho para operários locais, na esperança de mostrar à população que a chegada da China à África não traz apenas o melhor futebol do mundo, mas também empregos.

Essa não é a primeira vez que a seleção brasileira é usada para aproximar os chineses dos africanos. Em Maputo, Moçambique, os asiáticos construíram um estádio em 2010 com o discurso de que tinham a esperança que a cidade fosse usada pela CBF como base do Brasil antes da Copa da África do Sul.

Quinhentos chineses foram levados para a cidade para ajudar os moçambicanos nas obras e garantir que a arena estivesse pronta à tempo de receber Kaká e cia. O time brasileiro nunca foi ao estádio e a CBF admite que jamais pensou nessa hipótese. Mas a obra faraônica em Maputo permaneceu como símbolo da relação entre Moçambique e a China.

Diplomacia. A seleção brasileira não é a única isca dos chineses e a ofensiva do país no Gabão é apenas uma parte da política de Pequim para o continente africano. Já em 2008, em Gana, a Copa da África também foi disputada em estádios construídos pelos chineses e empresas do país asiático se lançaram na construção de dezenas de arenas pelo continente, sempre a um preço baixo e com obras entregues antes mesmo do prazo.

No Congo-Brazzaville, a inauguração do estádio "chinês'' em 2007 contou com a presença do primeiro-ministro local.

O presidente da Confederação Africana de Futebol, Issa Hayatou, insiste que sua entidade "não olha para quem constrói os estádios''. "O que nos importa é que eles estejam dentro das regras. Quem decide como vai construir um estádio são os governos'', disse o cartola.

O local das arenas, porém, tem relação direta com as diretrizes da política externa chinesa. Esse foi o caso de Angola, com a Copa da África em 2010. Em poucos meses, os chineses ergueram os estádios de Luanda, Benguela, Cabinda e Lubango. No mesmo ano, assinaram contratos milionários de exploração de petróleo que colocaram Angola como um dos principais fornecedores do combustível para a China.

O mesmo padrão foi visto na Argélia, onde a China tem amplos interesses no setor de petróleo e gás. A China Railway Construction Engineering Group opera um estádio para 40 mil pessoas no país.

Outro exemplo foi o contrato assinado para a construção das arenas em Camarões. A capital não contava com um estádio e uma das melhores seleções africanas passava vexame a cada jogo. O China Eximbank negociou em 2006 investimentos e dois estádios começaram a se construídos no país, um deles com a capacidade para 60 mil pessoas e dentro das recomendações para ser uma arena de Copa do Mundo. No mesmo ano, a nação da Ásia fechou acordo para explorar as reservas de petróleo nas regiões de Zina e Makary, em Camarões.

Estádios surgiram ainda em Dar el Salaam (Tanzânia), Conakry (Guiné), além de outros seis no Mali. A maioria deles é feita partir de um só modelo arquitetônico. O caso mais escancarado é de Gana. Dois estádios, a 500 quilômetros um do outro, são idênticos, ambos feitos pela Shanghai Co. No total, a empresa gastou US$ 80 milhões (cerca de R$ 139 milhões) para ambas as arenas, uma fração do que os estádios no Brasil para a Copa de 2014 estão orçados. 

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