China promete mudar até o clima

Meteorologistas garantem que já dominam técnica capaz de impedir que chova durante a abertura dos Jogos

Barbara Demick, O Estadao de S.Paulo

03 de fevereiro de 2008 | 00h00

É mais uma tentativa do homem para triunfar sobre a natureza. Determinados a não permitirem que nada estrague a festa deles, os organizadores da Olimpíada de Pequim garantiram nessa semana que assumiram o controle sobre o mais imprevisível dos elementos - o clima. Mesmo com todos os riscos de tal afirmativa, asseguram que dominaram o processo.Os meteorologistas vêm aperfeiçoando o que chamam de técnicas de "modificações climáticas" para garantir que não chova sobre o estádio onde será realizada a cerimônia de abertura dos Jogos, no dia 8 de agosto. "Nossa equipe está treinada. Nossos preparativos estão concluídos", garantiu Wang Jianjie, a porta-voz do departamento de meteorologia de Pequim, em entrevista coletiva no quartel-general do Comitê Organizador dos Jogos.Os chineses estão entre os líderes mundiais em manipulação das condições atmosféricas, mas têm mais experiência em fazer chover do que impedir que chova. As técnicas são virtualmente as mesmas. Os meteorologistas detonam dentro das nuvens cápsulas explosivas que liberam partículas de iodeto de prata, um componente usado em fotografia, que desintegra as gotículas d?água em fragmentos menores que têm menos probabilidade de cair. Uma outra técnica de pulverização das nuvens é induzir a chuva antes do evento, o que tem o benefício adicional de lavar a poeira e fuligem de Pequim.A manipulação seria feita em apenas uma pequena área, deixando um ponto seco em torno do Estádio Olímpico. O estádio de US$ 400 milhões (R$ 700 milhões), apelidado de "Ninho de Passarinho" por causa do seu desenho de vigas de aço entrelaçadas, é descoberto. "Esse é um processo muito complexo em termos da escolha do local e do momento", disse Wang Yubin, engenheiro do departamento de meteorologia. "Provavelmente, teremos de decidir momentos antes do evento".Jeff Ruffalo, um consultor de relações públicas dos Jogos de Pequim, acredita que, nos últimos anos, esta é primeira vez que uma Olimpíada de verão não será realizada em cidades de clima mais seco.O verão é estação chuvosa na Ásia. Originalmente, a Olimpíada de Pequim deveria ser aberta em 25 de julho, mas os meteorologistas insistiram para que a data fosse postergada o máximo possível, sem deixar de ter em mente de que são jogos de verão. Ainda assim, a probabilidade de chuva em Pequim em 8 de agosto é de quase 50%.Treinando com a Olimpíada em mente desde 2006, os meteorologistas vêm praticando suas técnicas de "abrandamento da chuva". Eles já fizeram alguns ensaios, na conferência de cúpula China-África e num festival Panda na Província Sichuan, entre outros. Os chineses vêm intervindo nas condições climáticas desde o fim da década de 1950, tentando levar chuvas para as terras desérticas nas províncias do norte.EXÉRCITOO departamento de modificação do clima foi criado na década de 1980 e acredita-se que seja o maior do mundo. Tem um exército de reserva de 37 mil pessoas, a maioria delas guerreiros de fim de semana, que são chamados ao dever durante secas incomuns. Como seu próprio braço nas Forças Armadas, tem 30 aeronaves, 4 mil lançadores de foguete e 7 mil canhões antiaéreos, segundo Wang Guohe, diretor de modificação do clima da Academia Chinesa de Meteorologia."Nosso programa é o maior do mundo com o maior número de pessoas envolvidas e mais equipamentos, mas não é realmente o mais avançado", disse Wang. Essa honra é dos russos que, segundo ele, usaram uma técnica sofisticada de pulverização de nuvens em 1986 ,para impedir que a chuva radioativa proveniente do acidente com o reator nuclear de Chernobyl caísse sobre Moscou.Embora muitos cientistas contestem a eficácia da modificação do clima, Wang diz que tem tido muitos sucesso na China, mas numa escala limitada. "Se for o caso de pequena precipitação atmosférica, podemos eliminá-la", explicou Wang. "Mas, se for chuvarada, não há nada que o homem possa fazer a respeito".

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