Ale Cabral / CPB
Ale Cabral / CPB

Chuva de medalhas nos Jogos de Tóquio: o que faz do Brasil uma potência paralímpica?

Criação do CPB, lei de incentivo ao esporte e investimento na renovação de atletas explicam os bons resultados

Caio Possati, Especial para o Estadão

28 de agosto de 2021 | 05h00

Bastaram as competições de atletismo começarem a ser disputadas na Paralimpíada de Tóquio-2020 para o Brasil dar um salto no ranking de medalhas. Com cinco ouros, uma prata e sete bronzes conquistados em uma única noite, o País subiu para a 6ª colocação no quadro de medalhas. Das cinco vezes em que um atleta brasileiro foi ao lugar mais alto do pódio, quatro eram do atletismo: Silvânia Costa (Salto em distância), Yeltsin Jacques (prova de 5000m), Petrúcio Ferreira (prova de 100m rasos), e Wallace Santos (arremesso de peso).

O primeiro a conquistar o ouro foi Yeltsin Jacques na corrida 5000m da classe T11 (para atletas com deficiência visual). Em seguida, Silvânia Costa, que defendia o título de campeã olímpica conquistado na Rio-2016 no salto em distância, também pela classe T11, conseguiu o segundo ouro consecutivo ao saltar 5 metros que lhe garantiram o lugar mais alto do pódio. Mas a brasileira não teve vida fácil. Ela só atingiu a marca que lhe garantiu o bicampeonato olímpico na quinta tentativa.

Pela classe F55 das disputas de campo (para atletas que têm lesão na coluna e compete com o uso de cadeira de rodas), Wallace Santos conquistou a medalha de ouro no arremesso de peso. Mas, diferente de Silvânia, Santos teve uma disputa mais tranquila a seu favor. O brasileiro dominou a prova com os três melhores arremessos. O quinto e último foi o melhor: 12,63m. A marca garantiu a Wallace Santos, além do título olímpico, o recorde mundial. 

Na prova mais nobre, e uma das mais aguardadas do atletismo, Petrúcio Ferreira não decepcionou. Considerado o paralímpico mais rápido do planeta, e detentor do recorde mundial (10s42), o brasileiro venceu os 100m rasos na classe T47 (para quem tem braço amputado), com o melhor tempo da história da Paralimpíada (10s42) e o seu melhor nesse tipo de prova. Assim como Silvânia, Petrúcio se tornou bicampeão olímpico.

Com seis ouros conquistados até agora em Tóquio, o Brasil está próximo de alcançar a marca de 100 medalhas douradas na história dos Jogos Paralímpicos. Até o Japão, em 12 edições que o País disputou, foram ao todo 87 medalhas de ouro conquistadas. E para o Brasil não faturar as outras sete que restam para chegar a marca de uma centena, seria necessário ter uma participação pior do que a de 2004, em Atenas, quando 14 medalhas de ouro foram conquistadas.

Desde os jogos paralímpicos da Grécia, os atletas brasileiros se destacam, e a partir de 2008, em Pequim, o Brasil sempre se manteve entre as dez melhores nações no ranking de medalhas. Definitivamente, o País é uma potência paralímpica. Em Tóquio, a expectativa do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) é que o Brasil consiga a melhor colocação na história dos jogos, com a possibilidade de superar até as 72 medalhas conquistadas no Rio de Janeiro.

Surgimento de uma Potência Paralímpica

Apesar da evolução dos resultados ficar mais evidente a partir de Atenas, o Brasil já se mostrava um país competitivo nas disputas paralímpicas com boa participação nos jogos da década de 80. No entanto, foi a partir dos anos 90 que o País passou a promover ações que fortaleceram o movimento paralímpico.  

Um momento determinante foi a criação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), em 1995. Um ano depois, nos Jogos Paralímpicos de Atlanta (1996), os primeiros em que o País esteve representado pela entidade, o Brasil ganhou 21 medalhas ao todo (2 de ouro, 6 de prata e 13 de bronze), 14 a mais em relação às sete conquistadas em Barcelona, quatro anos antes. 

Um dos principais marcos que representou a virada no movimento paralímpico brasileiro foi a promulgação da Lei Agnelo/Piva, sancionada em 2001, que determinou uma fonte financeira permanente de recursos para o esporte no país. Em linhas gerais, a lei determina que 2,7% do arrecadado das Loterias Caixa, com o desconto das premiações, sejam destinados ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que recebe 62,96%, e ao Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que adquire 37,04% do total da cota.

A ampliação dos investimentos  deu ao Brasil uma virada de qualidade em termos de rendimento de maneira perceptiva. Depois de ficar em 24º no quadro de medalhas em Sidney, na Austrália, os atletas brasileiros levaram o país à 14ª colocação no ranking em 2004, nos Jogos Paralímpicos de Atenas, conquistando 14 ouros, 12 pratas e 7 bronzes — 11 medalhas a mais dos que na edição anterior, quando o Brasil ganhou 22 (6 ouros, 10 pratas e 6 bronzes).

O recurso anual repassado pela Caixa tem sido fundamental não apenas para a manutenção do Brasil como um país de destaque nos jogos, como também no crescimento do rendimento esportivo. Nos Jogos Paralímpicos de Pequim, na China, o Brasil, pela primeira vez, conseguiu terminar entre os dez melhores países da competição, com um total de 47 medalhas (16 de Ouro, 14 de Prata e 17 de Bronze).

Depois dos jogos de 2008, o País não saiu mais do top 10 do ranking de medalhas. Em Londres, ficou em 7º, e nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, terminou na 8ª colocação. Apesar  de conquistar mais medalhas ao todo (72) no Brasil do que na Inglaterra (43), o País ganhou menos ouros quando disputou os jogos em casa.

Legado Rio-2016

Os jogos paralímpicos no Rio de Janeiro também contribuíram para a permanência do Brasil como potência paralímpica. Não apenas porque o evento estimulou a construção do Centro de Treinamento, localizado em São Paulo, como também “pelo investimento que foi feito naquele ciclo e que permitiu possibilidades a atletas como Silvania, Petrúcio e Yeltsin disputarem os jogos”, afirmou o professor da Universidade de São Paulo, Ciro Winckler, que foi Coordenador de Atletismo e de Alta Performance no CPB por mais 10 anos,

De olho nas futuras gerações

Além da criação do CPB, da Lei Agnelo/Paiva e a construção do Centro de Treinamento, entram também na equação do sucesso brasileiro os investimentos de patrocinadores e o repasse de bolsas do Governo Federal. 

O Comitê Paralímpico também realiza trabalhos que permitem uma constante renovação de atletas. Uma das estratégias para chegar a esse objetivo é a organização de Paralimpíadas Escolares e Universitárias que estimulem a iniciação dos jovens no esporte adaptado e no esporte adaptado de alto rendimento. 

De acordo com CPB, a entidade também se aproxima de escolas e universidades para fomentar o conhecimento por meio do estímulo à produção de pesquisas científicas sobre a ciência do esporte adaptado. O professor Ciro Winckler lembra que essa aproximação com setores da educação faz parte da natureza do CPB desde a sua criação. “O movimento de criação do CPB esteve inserido em ações dentro das universidades já que o foco desse movimento sempre esteve na capacitação de profissionais e no suporte aos atletas baseado na ciência, que se mantém até hoje. Nessa esteira o CPB tem o foco de capacitar mais de 100 mil professores de EF pelo Brasil”, afirmou.

 

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