Chuva incessante

E o grande assunto da semana não é a disputa pela ponta da tabela do campeonato, que o Atlético Mineiro lentamente vai deixando aberta; nem a contusão da mão de Ronaldo nem a evasão de jogadores importantes do Parque São Jorge; nem mesmo a estreia de Muricy, nem a bronca de Luxemburgo, nem a ciranda interminável dos técnicos; não é também nenhum dos amistosos internacionais dos times europeus em suas pré-temporadas; não é a convocação de Diego Tardelli no lugar de Alexandre Pato; não é a emocionante briga pelo acesso dos times que se digladiam na Série B, nem a recuperação de Felipe Massa. O assunto da semana é essa chuva que não passa, que não cessa, que não acaba. Chuva essa que assiste ao retardamento da volta às aulas e deixa as crianças de pijama até a hora do almoço brincando no meio da sala. Que deixa o corrimão de pedra úmido, que embaça o espelho com vapor frio da água que desaba. Que cai no meio da noite ensurdecedora, a cântaros, aos berros, despejando do negrume do céu infinito toneladas de granizo. Chuva que deixa os campos de várzea enlameados e cheios de barro, enquanto as mães dos meninos que sonham em passar na peneira, protegidas por sombrinhas coloridas, guardam na arquibancada o lanche embrulhado que alimentará seus heróis ensopados e famintos; que empoça nos terraços, que enxágua as calçadas, que limpa as estátuas do cheiro fétido de mijo, que dá trabalho ao limpador de para-brisa e tira trabalho dos vendedores de inutilidades. A mesma chuva que faz a bola ficar arisca e tão escorregadia que escapa das luvas emborrachadas dos goleiros iludidos; que deixa o campo verde, brilhante, como marfim clorofilado de um pátio liso; que faz as chuteiras riscarem o chão como se fossem patinetes. Chuva que cai vertical, pingando barras curtas que se destacam na contraluz acesa dos frios holofotes; que embrulha os homens encolhidos com o plástico das capas finas e baratas; que murcha a pipoca e o amendoim (será que ainda tem gente que come amendoim?); chuva que esfria o corpo que a aguardente esquenta quando entra; chuva que pinga e faz a gente ter vontade de beber muita cachaça, muita pinga; chuva que limpa o céu da porcaria lançada aos ares pelos carros que desfilam nas avenidas congestionadas, aos milhares. Chuva boa para a roça, pra lavoura, ruim para a lavadeira e pra patroa, pois a roupa não seca e o varal mais parece amendoeira coalhada de frutas de pano, algodão tergal e fio sintético, cores desbotadas por zil moléculas de um átomo de hidrogênio e dois de oxigênio; que faz o gênio da lâmpada acender mais cedo e que o mau gênio do temperamento tenha acessos antes mesmo do fim do primeiro tempo. Tem gente que gosta, tem gente que detesta; tem gente que suporta, tem gente que despreza; gente que teme, que respeita, que reza, que se deita, que blasfema, que se nega a entender que o mundo está ao contrário ? quase todo mundo já reparou. Coisa linda também é o espetáculo que essa chuva proporciona, a paisagem vai mudando de acordo com o que o céu vai traçando, pois as nuvens quando esguicham se transformam e a gente só pode aceitar: contra o que o céu manda ninguém nada pode. É tão lindo assistir ao teatro de um jogo de futebol em campo molhado, lá de cima a gente vê a bola voando na velocidade do horizonte baixo. Até mesmo a bola, que parece pegar um fogo cego e imprevisível, morre mais lenta no filó das redes encharcadas com o peso das águas mortas; chuva é toda poesia, enquanto o sol é boa prosa. Assim, com este mês de julho que se vai, que a chuva leve embora a sujeira do que lavou sem piedade.

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