Wolfgang Rattay/Reuters - 22/2/2013
Wolfgang Rattay/Reuters - 22/2/2013

Ciclismo ainda vive 'cultura do doping', diz investigação

Acusação faz parte de um relatório da União Ciclística Internacional

JAMIL CHADE, Correspondente em Genebra

09 Março 2015 | 12h13

Os dirigentes do mundo do ciclismo abafaram casos de doping no esporte e protegeram o ex-ciclista Lance Armstrong por anos, chegando até mesmo a receber dinheiro do ex-campeão. Se não bastasse, a "cultura" do doping continua a imperar e, em certos eventos, até 90% dos atletas estariam dopados.

As acusações fazem parte de um relatório publicado pela União Ciclística Internacional (UCI), que, depois de um ano de investigação, admitiu que sua própria direção escondeu o tamanho do escândalo temendo que o esporte perdesse popularidade e patrocinadores.

O documento de mais de 200 páginas foi considerado uma bomba no mundo do esporte, revelando que se oficialmente entidades declararam há anos guerra contra o doping, a realidade é que dezenas de casos são camuflados. O documento também mostra a relação "incestuosa" entre atletas e dirigentes que os deveriam controlar.

No centro dos ataques estão os ex-presidentes da entidade, Hein Verbruggen e Pat McQuaid. Nenhum dos dois foi acusado de corrupção, mas de terem fechado os olhos diante dos problemas.

O informe que custou 3 milhões de euros foi liderado pelo ex-procurador suíço Dick Marty, que também investigou os abusos de direitos humanos na Guerra do Iraque. Outro nome envolvido na investigação foi Peter Nicholson, um jurista australiano que dedicou sua vida a investigar crimes de guerra. Hoje, o documento dos especialistas escancara a dimensão dos problemas que o esporte enfrenta.

Segundo o documento, as estratégias usadas por atletas para escapar dos controles incluía o consumo diário de micro-porções de produtos, o que evitaria que fossem pegos nos testes. O consumo seria realizado no início da noite, já que as regras estipulam que os testes, mesmo de surpresa, não podem acontecer durante a noite.

De acordo com a investigação, os dirigentes do ciclismo apenas começaram a testar atletas pelo uso da droga EPO em 2000, anos depois que ela já estava instalada no esporte e que gerava um aumento de desempenho de até 15%.

Outra denúncia se refere à manipulação de passaportes biológicos, que teriam a função de monitorar os níveis de sangue dos ciclistas. O informe ainda aponta que exceções médicas têm sido abusadas por parte de equipes.

Mas o maior ataque é mesmo contra UCI e contra dirigentes que "toleraram" e permitiram que ciclistas se dopassem.

ARMSTRONG

Um dos pontos mais reveladores foi a forma pela qual a UCI blindou Armstrong, vencedor em sete ocasiões da Volta da França. Em 1999, o americano foi pego em um teste de doping, mas a entidade permitiu que seus médicos apresentassem uma receita de remédio datada depois do flagra.

McQuaid ainda teria autorizado que Armstrong competisse em diversos eventos, mesmo sob suspeita. Segundo o resultado da investigação, a entidade o "protegeu", mesmo existindo "fortes motivos para suspeitar". "Sair em busca de que quem se dopava era visto como caça às bruxas e que seria negativo para a imagem do esporte", indicou o informe.

De acordo ainda com a investigação, a UCI via Armstrong como um "instrumento de marketing" para o esporte. Vitorioso e tendo superado um câncer, ele "ele era um pop star, que faria o ciclismo mais popular". "Lance Armstrong chegou no momento certo", declarou um dos entrevistados ao grupo de investigadores, se referindo ao fato de que o mundo do ciclismo tentava se recuperar do escândalo do doping em 1998.

A relação entre o atleta e a UCI era de tal proporção que, em 2006, os advogados de Armstrong ajudaram a entidade a redigir um relatório que transferia a culpa por doping do ciclista ao laboratório que conduziu os testes.

A UCI ainda pediu e recebeu duas contribuições financeiras de Armstrong e o ciclista ainda investiu no desenvolvimento de um instrumento para ajudar a entidade a realizar testes antidoping.

Verbruggen, um dos ex-presidente atacados pelo informe, respondeu às conclusões do relatório insistindo que ele foi absolvido de qualquer ato de corrupção. "É fácil reescrever a história 25 anos depois", atacou.

Já Armstrong indicou que espera que sua colaboração com os autores do informe reduza sua pena, que prevê uma proibição vitalícia a qualquer envolvimento no esporte.

O problema, segundo alguns dos especialistas consultados pelos grupo que elaborou o informe, é que o doping não está nem perto de acabar. O documento revela que, em alguns eventos, até 90% dos atletas de primeira linha poderiam ainda estar dopados.

O informe lista dezenas de produtos e métodos de doping que estariam sendo usados. Para deixar a situação ainda mais crítica, o preço dessas substâncias seria cada vez mais baixo, inclusive com um número cada vez maior de médicos envolvidos em esquemas de fornecimento.

"Está claro que a UCI sofreu de forma severa de falta de governança no passado", declarou Brian Cookson, presidente da entidade desde 2013 e que encomendou a investigação.

Entre as propostas de reforma, o grupo sugere que corridas tenham farmácias centralizadas, que o sindicato de ciclistas seja fortalecido e que haja uma proteção a quem queira fazer denúncias, além de testes antidoping no meio da noite.

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