Patrick T. Fallon/AFP
Patrick T. Fallon/AFP

'Cidade do surfe' na Califórnia tem economia e estilo de vida afetados por derramamento de óleo

Vazamento em oleoduto pode despejar até 500 mil litros de petróleo no mar de Huntington Beach, um dos principais destinos para os amantes das ondas. Moradores comentam mudança na rotina e torcem pelo fim do desastre e a volta dos surfistas

Paula Ramon, AFP

08 de outubro de 2021 | 10h00

A popular Huntington Beach, na Califórnia, é conhecida como "a cidade do surfe", mas um derramamento de petróleo polui suas águas e afeta não apenas a vida marinha, mas também a economia local e o modo de vida das pessoas. "É muito raro não ver surfistas aqui por quilômetros", diz Shawna Sakal, gerente de uma loja de surfe a poucos metros do cais deste movimentado destino turístico. "Sempre tem gente surfando o ano todo".

As autoridades calculam que um vazamento em um oleoduto operado pela empresa Amplify Energy na região pode derramar cerca de 500 mil litros de petróleo no mar, na pior das hipóteses. As investigações analisam se uma âncora de návio atingiu o oleoduto que foi deslocado cerca de 32 metros, causando o derramamento. 

Los Angeles e Long Beach estão entre os portos mais movimentados do mundo. Dezenas de navios de carga tiveram de estacionar em alto-mar à espera de poder atracar, devido aos atrasos causados pela pandemia. Os navios, visíveis da praia, recebem coordenadas para fundear em locais que não envolvam riscos.

Após a detecção do vazamento no fim de semana, foi decretado o fechamento do litoral, um dos melhores para o surfe dos Estados Unidos. Turistas e surfistas foram substituídos na areia por equipes de limpeza em trajes especiais, modificando o tradicional cartão-postal local. Sakal aponta para a praia, agora totalmente deserta e sem pranchas. As ondas estão lá, mais densas, mas não tem ninguém mais surfando. Ele diz que a cidade e a praia nunca estiveram tão vazias.  "Nem durante a pandemia, quando tentaram parar os surfistas, sem sucesso".

"Esse acidente gerou uma situação horrível e me incomoda", afirma Zack Lyons, que diz ter aprendido a surfar "antes mesmos de andar". Sem poder entrar no mar, o jovem alto, louro e bronzeado compensa trabalhando mais horas em uma das muitas lojas de esportes da região. "A vida agora é ganhar mais dinheiro e surfar menos", ri ironicamente. 

Seu amigo, Jake McNerney, de 18 anos, estava acostumado a ver as condições do vento e das ondas ao abrir os olhos pela manhã. "Nem precisamos trocar mensagens, sempre nos vemos na praia", afirma. Tudo isso deu um tempo nesse momento, e ainda sem perspectiva para retomar a vida como ela era antes.

Fechado

O fechamento das praias não afeta apenas os surfistas. Na quarta-feira, dia de sol, com céu azul, poucas pessoas caminhavam no cais que se estende por vários metros da areia. As lojas e restaurantes perto da praia estavam quase vazios. Escolas de surfe também estão fechadas. Toda uma economia local está sendo afetada. 

"Provavelmente perdemos 50% das vendas até agora", diz Shawna Sakal, cujo pai vende pranchas há cinco décadas. "Outubro é o melhor mês para surfistas e locais. O clima é muito agradável, muitas pessoas vão à praia nos fins de semana, mas agora não podem por causa desse derramamento", afirma. 

Connor Waldrin trabalha em uma loja de aluguel de equipamentos de surfe, onde costuma receber entre cinco e dez clientes por dia durante a semana. "E agora, nada", lamenta.  As escolas, que consideram o esporte uma parte importante do currículo, também tiveram de adaptar suas rotinas.

"Tínhamos acabado de começar nossa temporada de competições", contou Lisa Battig, da escola Fountain Valley, localizada a poucos minutos da praia. "Faremos treinamentos alternativos e encontraremos uma forma de surfar fora da área impactada", explicou. As competições da semana foram canceladas.

Ao longo da costa, mais de dez embarcações tentam retirar o óleo da água. Até quarta-feira foram coletados quase 23 mil litros e cerca de 13 aves foram resgatadas cobertas de petróleo. Sakal, que não surfa, mas costuma caminhar na praia todos os dias antes do trabalho, não acha que poderá voltar tão cedo à rotina. "Esperamos que reabram rápido, mas não há como saber."

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