Clássicos e clássicos

Existem clássicos e clássicos. Desde os mais amenos sob a ótica da carga de rivalidade, como o Botafogo x Fluminense que veremos hoje ou o San-São que será disputado amanhã, até os que são carregados de ressentimento, caso dos demais choques previstos nesta rodada do Brasileirão: Coxa x Furacão, Vasco x Flamengo, Gre-Nal, Galo x Raposa, Figueira x Avaí e Palmeiras x Corinthians.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Clássicos são o sal do futebol, o verdadeiro tempero do esporte - e que bom que eles tenham sido reservados para as últimas rodadas do turno e do returno.

A rivalidade entre clubes de uma mesma cidade é tão absurda que às vezes eu gosto de imaginar o que aconteceria com dois clubes que fossem obrigados, por alguma razão, a unir forças. Curiosamente, isso já aconteceu, no Paraná, onde os rivais Pinheiros e Colorado deixaram de existir individualmente para forjar uma nova entidade: o Paraná Clube.

Brincando com essas rivalidades, certa vez imaginei - e caí na besteira de publicar - a proposta de fusão de dois rivais. Escolhi Fluminense e Botafogo, os clubes mais antigos do Rio. Quase me mataram. Ninguém entendeu o texto como chiste. Por conta do Clássico Vovô, hoje, me animo a repetir a proposta, agora deixando bem claro, pelo amor de Deus, que não passa de brincadeira.

Perguntem aos botafoguenses por qual outro time carioca eles torceriam, caso não existisse o Alvinegro. Não vale responder o América, porque o Mequinha, como sabemos, é o segundo time de todo mundo no Rio. Sem o América no páreo, em quase todos os casos a resposta dos alvinegros seria: "pelo Fluminense". Da mesma forma, se confrontados com semelhante pergunta, a esmagadora maioria dos tricolores não hesitaria em apontar o Botafogo como sua opção. Há entre Flu e Bota o parentesco indiscutível da solidariedade das minorias. O parentesco de duas torcidas acostumadas em não ocupar os maiores espaços do noticiário, mesmo quando brilham. Tricolores e botafoguenses sabem que seus times não são os de maior torcida. E gostam disso. Sentem orgulho por não terem escolhido o caminho fácil e embarcado no trem da maioria.

Às vezes sofrem por isso, mas exibem suas cicatrizes como troféus de guerra, como declarações de caráter.

Agora imaginem se os dois se fundissem. O novo clube se chamaria Fluminense de Futebol e Regatas, nome abrangente, na geografia e nas modalidades praticadas. Como o primeiro uniforme do Tricolor não era tricolor, mas cinza e branco (parente próximo do alvinegro) a camisa adotada seria a do Glorioso. O alvinegro Fluminense de Futebol e Regatas teria no escudo a estrela solitária, mas incorporaria, acima do mesmo, as letras F.F.R. O panteão da glória já nasceria pronto: Didi, Ademir, Gérson, Carlos Alberto, Paulo César, Marinho, Rodrigues Neto, Renato Gaúcho, Túlio, Washington e Edmundo jogaram pelos dois clubes. Garrincha, Nilton Santos, Heleno, Rivellino, Castilho e Romário, que só atuaram por um dos lados, seriam integrantes de honra.

O novo clube seria o que historicamente mais cedeu jogadores à Seleção Brasileira, sua elegante sede social ficaria nas Laranjeiras, adotaria General Severiano como sede de esportes olímpicos, treinaria suas divisões de base no estádio Caio Martins, em Niterói - justificando assim o nome Fluminense, relativo ao Estado do Rio -, e jogaria no Engenhão. Além disso, já nasceria com os títulos brasileiros de 1968, 70, 84, 95 e 2010, seis Rio-SP, uma Taça Olímpica, uma Copa do Brasil, uma Conmebol, um Mundial Interclubes do Rio, em 1952, além de impressionantes 49 títulos estaduais. Ou seja: indiscutivelmente, uma potência do futebol.

Um exercício curioso, não? E possível de ser feito porque a rivalidade dos dois não chega à irracionalidade. Tentem fazer o mesmo para Palmeiras e Corinthians. Juro que tentei, mas não cheguei nem perto de algo razoável. Pensando bem, é melhor não forçar a amizade entre inimigos que só se reúnem no campo de jogo para lutar eternamente pela glória que jamais será de apenas um deles.

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