Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 05h00

Valeska Basílio tem 10 anos e está no 4.º ano do ensino fundamental. A família – mãe, padrasto e mais três irmãs, todas com a letra “v” – mora no condomínio Atibaia, no Jardim São Roberto, em Sapopemba, um local que vive sob risco de desapropriação desde 2013. O empreendimento foi invadido por cerca de 300 famílias que não têm onde morar. Ela não estava em casa no último confronto pela reintegração de posse. Ainda bem. Foi feio. Os moradores contam que vários móveis foram jogados no lixo. A polícia informa que cumpria medida judicial. Dias depois, as famílias voltaram. A situação difícil da menina de 10 anos encontrou no esporte um caminho para o presente e uma perspectiva para o futuro.

Ela é uma das alunas de ginástica do CEU Rosa da China em um projeto que facilita o acesso de jovens talentos aos clubes que praticam o esporte de alto rendimento no Brasil. Valeska quer ser ginasta. “Meu sonho é ser atleta e ganhar uma medalha”, conta.

A frase não é um devaneio como os desenhos de unicórnios que as meninas como Valeska desenham nos cadernos. É uma possibilidade. E bem real. Criado em 2012, o projeto chamado CEU Olímpico procura talentos esportivos na periferia da cidade a partir de uma parceria entre a secretaria municipal de Educação e alguns dos principais clubes poliesportivos de São Paulo. Os alunos que se destacam são encaminhados para os centros do esporte de alto rendimento, como Esperia, Círculo Militar e o Esporte Clube Pinheiros, uma das potências esportivas de São Paulo que negocia sua inclusão na iniciativa.

Ambicioso, o projeto abrange 20 unidades do CEU em São Paulo com potencial de atendimento de 830 crianças. Os professores de Educação Física encaminham os destaques da turma para os clubes filiados. Em linhas gerais, o objetivo é garimpar talentos infantis e mirins nas mais variadas modalidades, minimizando deficiência histórica do esporte amador no Brasil: a formação de atletas das categorias de base.

O Estado acompanhou as aulas de ginástica em Sapopemba, bairro presente na lista dos piores de São Paulo de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida comparativa de riqueza, alfabetização, educação, expectativa de vida, natalidade e alguns outros fatores. Um grupo de cerca de 25 alunas acompanha com entusiasmo e atenção a voz firme da professora Vanessa Gianolli.

O ginásio tem infraestrutura perfeita: quase dá para perceber o reflexo das meninas no piso de madeira, de tão brilhante que é. No espelho de verdade, o reflexo é das atletas em formação que dificilmente fariam manobras com fitas e elásticos se não fosse aqui. Treinam como nos principais centros de formação esportiva da cidade. Os pais participam de tudo, ajudam a levar os atletas nas competições e até costuram os uniformes da apresentação. Não existem fornecedores de material esportivo. São eles próprios e os professores que fazem as roupas para o dia das competições oficiais. 

Aos 9 anos, Grace Kelly não perde uma aula de ginástica, são quatro por semana. Após dois anos de aulas, seu sonho de virar atleta se tornou o projeto de toda a família. Sua mãe é costureira e o pai trabalha com mármore. “Nós damos a maior força. Ela já é uma atleta”, diz dona Cleide. Em dezembro, quatro serão selecionadas para testes no Esperia, zona norte de São Paulo, e no Serc (Sociedade Esportiva, Recreativa e Cultural) Santa Maria, em São Caetano do Sul – referência na ginástica.

Os atletas mirins podem participar de quase todas as modalidades: ginástica artística, rítmica, natação, judô, basquete, handebol, voleibol e futsal, entre outras. “Um dos objetivos é plantar a semente do esporte de alto rendimento em todas as regiões da cidade. Queremos motivar, iniciar e encantar. Se não forem atletas, serão cidadãos”, diz Maria Alice Zimmermann, diretora de Esportes, Corpo e Movimento da secretaria Municipal de Educação.

No CEU Heliópolis, o programa atrai cerca de 70 alunos no voleibol e levou mais 45 ao futsal. Nos anos anteriores, basquete e rúgbi estavam em foco. “No primeiro ano, corríamos atrás dos alunos, mas hoje os alunos procuram a atividade”, diz Cleber Motizuki, analista de Esportes do CEU Heliópolis.

Gustavo Nunes da Silva já conseguiu ir além. Depois de se destacar nas aulas de rúgbi na maior comunidade de São Paulo, ele foi convidado para ser atleta do Pasteur, um dos principais clubes brasileiros da modalidade. Hoje, ele defende a categoria até 17 anos, mas continua ajudando nas aulas do CEU Heliópolis, onde mora. Dá os primeiros passos para ser atleta.

 

 

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 05h00

Os clubes poliesportivos representam um elo fundamental do projeto. São eles que garantem o contato dos futuros atletas com o esporte de alto rendimento. O primeiro parceiro da prefeitura paulistana na iniciativa foi o Clube Esperia, um dos mais tradicionais de São Paulo e responsável pela formação de competidores consagrados como o navegador Amyr Klink e o ex-tenista Fernando Meligeni.

Atualmente, os alunos do CEU treinam no Esperia várias modalidades, mas principalmente no atletismo. Além disso, o clube recebe diversas competições estudantis durante o ano. “Um dos nossos objetivos é promover a formação das categorias de base, garantindo o aumento do número de praticantes em praticamente todas as modalidades esportivas”, diz Ari Mello, gerente de Esportes.

Além do Esperia, também estão envolvidos na descoberta de novos talentos o Instituto Elisangela M. Adriano (Iema), entidade forte nas categorias de base do atletismo, e o Círculo Militar. O Esporte Clube Pinheiros deve retomar a parceria com a Prefeitura em breve. Durante o ciclo olímpico para os Jogos do Rio, vários professores acompanharam a preparação de atletas do clube.

O projeto também prevê a capacitação de professores de educação física para que eles descubram os talentos esportivos. De modo que eles são treinados para atuar como os “olheiros” dos clubes de futebol. A capacitação dos professores conta com o apoio do Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo (NAR), centro de pesquisa mantido pelo Instituto Península para desenvolver o esporte olímpico.

“Os cursos têm um semestre de duração com aulas práticas e teóricas para até 50 profissionais”, explica Irineu Loturco, diretor técnico do NAR.

Para o professor Cleber Motizuki, o treinamento permite preparar melhor os alunos da comunidade para que eles possam entrar em um clube ou até mesmo conseguir bolsa de estudos por meio do esporte. Já a professora Vanessa Gianolli Ferreira, que ensina ginástica rítmica, comenta que o relacionamento com os clubes facilita a indicação de novos talentos e atualiza a formação técnica dos próprios professores.

 

 

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Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2018 | 05h00

Os batentes da porta da casa de Célia Menezes estão cheios de marcas de dedos. Elas foram feitas pelos filhos Ricardo e Henrique que ficam treinando a altura para bloqueio e saque nos jogos de vôlei. Essa é apenas uma das consequências de se ter atletas mirins de alto rendimento em formação dentro de casa.

Destaque das aulas de vôlei do projeto CEU Olímpico em Heliópolis, Ricardo Menezes foi selecionado para treinar no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), um dos principais espaços públicos voltados para o esporte de alto rendimento no País. Quinze competidores formados no COTP disputaram os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Entre eles, o oposto Wallace, medalha de ouro no vôlei masculino. No futebol feminino, que terminou em quarto lugar na Olimpíada, praticamente meio time treinou naqueles campos.

O centro teve ainda representante nos Jogos no atletismo, com Leticia Cherpe; boxe, com Joedison Teixeira de Jesus, Juan Nogueira e Andreia Bandeira; judô, com Maria Portela; e na luta olímpica, com Aline Silva e Eduard Soghomonyan.

Ricardo já é um competidor da federação paulista de vôlei na categoria sub-13. Aos 11 anos, ele se divide entre os treinos no Ibirapuera (segundas e quartas) e na maior comunidade de São Paulo (terças e quintas). E ainda tem as aulas do 6.º ano do Ensino Fundamental. O almoço é a marmita que a mãe prepara para ele comer no próprio local de treinamento. “Acho ótimo ter um atleta em casa. O CEU oferece a oportunidade de brincar e interagir com amigos e ainda engaja os melhores no esporte”, analisa Célia Menezes, que trabalhou no mercado financeiro e agora é professora.

Gustavo Nunes Silva também está se destacando depois de ter passado pelo projeto de novos talentos nos CEUs. Mas sua modalidade é o rúgbi. Após participar das oficinas oferecidas nos intervalos das aulas, ele se encantou pela modalidade. Hoje, treina no Pasteur – referências do País na modalidade, principalmente nas categorias de base. Ele joga no M17, uma espécie de categoria juvenil.

“Ele sempre nos ajudou nas aulas e é um exemplo para os alunos mais novos. Demos o suporte necessário de base para ele e logo o garoto foi para o Pasteur treinar e jogar. Gustavo adquiriu maturidade no esporte muito rapidamente, teve um grande desenvolvimento na autonomia e tomada de decisão. Ele continua no nosso projeto treinando”, informa Cleber Motizuki, analista de Esportes do CEU Heliópolis.

 

 

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