Clubes têm Natal tímido. Será mesmo?

Pinduca é jornalista esportivo. E possui algumas características indispensáveis a quem exerce a função de repórter. Trata-se de uma pessoa curiosa, inquieta, questionadora, que chega a beirar a petulância. Afinal, ninguém é perfeito.

WAGNER VILARON, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2010 | 00h00

E sempre quando o Natal se aproxima, uma angústia toma conta do repórter. Uma dúvida que o acompanha desde a infância e que, por mais que os fatos comprovem, nunca o deixou em paz. Coisa de quem, cético como é, não se cansava de repetir seu pensamento favorito: "Só acredito, ou desacredito, vendo." Oras, será que aquele senhor de barbas compridas e brancas, vestido de vermelho e com um saco nas costas realmente existe?

Ele não teve dúvidas, programou férias, economizou algum dinheiro e se mandou par a cidade de Rovaniemi, que fica na Lapônia, região norte da Finlândia, no Círculo Polar Ártico. Sim, teve de viajar como se fosse a passeio, pois se tentasse "vender" a história para sua chefia, temia se transformar em alvo de piadas.

E lá se foi nosso herói. Trocentas horas, três conexões e 500 quilômetros de carro por estradas cobertas de neve mais tarde, Pinduca finalmente chegou ao seu destino. Um frio ensurdecedor, como dizia um colega da crônica esportiva. Mas tudo bem, pois lá estava ele, bem em frente à casa mais cobiçada pelas crianças que ainda sonham.

Hesitante, Pinduca abriu a porta e entrou, temendo pelo rangido do assoalho de madeira. Mas a casa estava vazia. O repórter brasileiro estava louco para descobrir a cobiçada lista de presentes. Mas Papai Noel já havia saído com ela. A casa, portanto, estava vazia.

Uma porta chamou sua atenção. Nela estava escrito "Arquivo". Ao abri-la, deparou-se com um salão gigantesco. Vários armários separados por países. A ordem alfabética facilitou sua busca e rapidamente ele encontrou o Brasil. Dentro do armário estavam as listas de pedidos dos anos anteriores. Discretamente alocadas em um canto alto do armário estavam caixas que traziam estampados os distintivos dos principais clubes do futebol brasileiro. Dentro de cada uma delas, claro, os pedidos em comum que os torcedores faziam.

Pinduca ficou alucinado. Sabia que estava diante da grande reportagem de sua vida. Com cuidado, abriu cada uma das caixas. Na do Corinthians, encontrou milhares de pedidos, muitos em papel amarelado, com mais de 50 anos, que clamavam por um estádio. No do Palmeiras, os torcedores pediam pela volta de seus ídolos recentes Felipão, Valdivia e Kleber, enquanto os são-paulinos queriam títulos inéditos e o reconhecimento como a grande força do Campeonato Brasileiro. Os santistas, por sua vez, pediam encarecidamente pelo surgimento de mais uma safra de craques, que privilegiasse o meio-campo e o ataque.

Na hora Pinduca se lembrou dos lamentos que ouvia dos torcedores logo que a temporada terminou. Os corintianos lamentavam que o ano do centenário terminou sem conquista alguma, os palmeirenses criticavam o time pela derrota na Sul-Americana, os são-paulinos diziam que o time não era mais o mesmo e os santistas reclamavam da queda de rendimento do time no segundo semestre.

Nesse momento, Pinduca sente um toque em seu ombro. Era Papai Noel, que abriu um sorriso e disse: "Pois é, meu caro, o ser humano está sempre insatisfeito. Os corintianos ganharam um estádio no centenário, os palmeirenses tiveram seus ídolos recentes reunidos, os são-paulinos venceram três títulos nacionais seguidos e o Santos conta com os dois jogadores brasileiros mais badalados do momento. Mas a lista de pedidos deles ainda é grande. E sempre será."

Um barulho de despertador assusta Pinduca. E o susto logo se transforma em decepção quando ele percebe que aquilo era apenas um sonho. Porém, as palavras do velhinho permaneceram em sua mente e o transformaram em uma pessoa mais tolerante, mais otimista e feliz com suas conquistas. Feliz Natal!

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