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Coisa de boleiros

Jogadores derrubam técnicos? Essa é uma pergunta feita e nunca respondida com precisão. As suspeitas são que, sim, jogadores derrubam treinadores, mas ninguém tem muita certeza disso. Os jogadores pelo menos evitam o tema cuidadosamente, principalmente em dias politicamente corretos como hoje. Raros são os que admitem que, sim, talvez, como não, em algumas circunstâncias, quem sabe, etc, etc. Tudo muito vago. Eu, do meu lado, fico com a dúvida. Uma coisa, porém, tenho certeza: jogadores escolhem técnico. Se não demitem tenho certeza que admitem. Isso é mais fácil de constatar. Dão o recado com uma clareza absurda, de uma forma que ninguém pode deixar de ver. Se depois a diretoria do clube os atende é uma outra história.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

15 Março 2015 | 02h03

Muita coisa está envolvida numa contratação de treinador. A opinião dos boleiros é uma delas. Resta saber se é a mais importante. E isso depende muito da força como o recado é dado. Vamos tomar o que houve durante o jogo Santos x Palmeiras. No banco do Santos estavam Marcelo Fernandes e Serginho Chulapa, treinadores tratados como interinos, meros funcionários do clube à espera de que um treinador fosse contratado. E durante toda a semana noticiou-se que Dorival Junior, e também Vagner Mancini, estavam, um deles, a ponto de fechar negócio com o clube. No campo os jogadores deram seu veredito.

No começo da partida comecei a me perguntar o que fazia o Santos jogar da maneira como estava jogando. O Santos é um time técnico, leve e rápido. Mostravam isso tudo, é verdade, pois faz parte da personalidade dos jogadores. Mas havia algo mais. O time jogava duro, batia e corria como se disputasse um título. Era apenas um jogo desse Campeonato Paulista um pouco desacreditado, um jogo que, no fundo, não valia nada. Mas valia. Um recado estava sendo dado. Não aos jogadores do Palmeiras que, um pouco espantados, perdiam todas as divididas, todas as bolas pelo alto e também na velocidade. Não ao Arouca, que pode ter pensado que a dureza era contra ele em particular, pela maneira como deixou o clube. Não era nem mesmo para os torcedores que, esses sim, pegavam no pé do Arouca demonstrando que também demoravam para entender. E eu também demorei.

O recado na verdade era para Modesto Roma, que estava em seu lugar nos camarotes. Claramente era uma coisa pensada e ordenada. Não eram os garotos os que mais corriam. Eram exatamente os veteranos, o que demonstrava uma grande convicção e certeza sobre o que queriam. Atletas já no poente da carreira corriam como possessos. Nunca pensei que Ricardo Oliveira, jogador sempre as voltas com contusões, estivesse tão disposto, em forma. Corria como um garoto. Renato a mesma coisa e Elano, quando entrou, acompanhou os demais. No banco um Chulapa impassível, sem qualquer expressão no rosto, acompanhava tudo na experiência de seus muitos anos. O terceiro artilheiro na história do Santos, na era pós Pelé, não demonstrava, mas devia estar muito satisfeito, porque entendia tudo. Estava, junto com Marcelo Fernandes, sendo aprovado pelos seus atletas. Pelos seus pares, aliás, boleiros como eles.

E assim o Santos fez uma partida exemplar. O Palmeiras não ganhou, mas quem teria ganho daquele time naquelas circunstâncias, quando estavam falando diretamente o que queriam falar ao presidente do clube? E por falar em presidente, vendo o que via de seu lugar no estádio, pensando ainda que os atletas lhe ofereciam de quebra uma solução financeiramente perfeita, o recado foi aceito sem hesitações. Os dois são os novos treinadores do Santos.

Vamos ver no que vai dar. Mas fica a atitude. De minha parte me alegro quando acontecem coisas desse tipo, quando boleiros dão esses recados silenciosos, mas positivos e firmes. Afinal, não estão derrubando ninguém, ao contrário, estão erguendo.

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