Coisas da vida

A gente vive a fazer associação de ideias, sem percebermos. Vou contar uma. Estava a caminhar ontem, antes do almoço, e ouvia música num desses aparelhinhos modernos com nome inglês que não passam de radinhos de pilha metidos a besta. Na Eldorado tocava antiga canção de Vinicius e Toquinho: "Tem dias que fico pensando na vida e sinceramente não vejo saída"... e por aí vai. Aquilo esteve a batucar na minha cabeça, sob um solzinho bacana. Chego em casa, ligo a tevê e vejo duas cenas curiosas: primeiro a cara de alegria do Dorival Júnior com o título do Inter na Recopa Sul-Americana. Depois, o jeito sem graça do Cristiano Ronaldo ao olhar o Messi receber de Michel Platini o prêmio de melhor jogador da Europa de 2010-11.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2011 | 00h00

Pimba! A aproximação veio na hora: música, futebol e vida se juntaram e desembocaram na constatação óbvia de que tem gente que está no lugar certo na hora certa, ou no lugar errado na hora errada. Dorival e Cristiano personificaram as duas situações que ocorrem a todo momento. Pode verificar que você conhece muitas histórias idênticas.

Dorival dançou miudinho no Atlético-MG até ser defenestrado, um tempo atrás, porque o time emperrou e não saía da parte de baixo do Brasileiro. Ou seja: saiu de BH com a equipe quase na mesma situação em que a encontrou no ano passado. Lembra? Em 2010, foi chamado para apagar incêndio, pois havia risco de rebaixamento. Deu uma revigorada no elenco, evitou o mal maior e se animou com projetos ambiciosos para a atual temporada. Nada deu certo.

Ficou alguns dias de molho e, como a toda hora cai técnico, logo apareceu convite para ajustar o Internacional. Não disputou nem meia dúzia de partidas e se deparou com o desafio de anular vantagem do Independiente na Recopa. Vitória por 3 a 1, com Leandro Damião inspiradíssimo, festa no Beira-Rio e caminho mais sereno para Dorival colocar a turma colorada no prumo no restante da Série A. Quer dizer: calhou de aceitar proposta na hora certa e assim ostenta seu primeiro troféu internacional.

E nem se pode dizer que o time mudou de maneira expressiva de quando estava sob o comando de Paulo Roberto Falcão. Talvez se mostre menos ansioso - ou há mais boa vontade da diretoria. A propósito: Falcão pegou o bonde andando na hora errada e ficou a pé. É o caso do sujeito na hora e no lugar errados. Assim como, me parece, sucede com o Cuca. A não ser que consiga reviravolta daquelas, tem tudo para quebrar a cara no Atlético-MG. Desde que chegou, foram cinco derrotas em cinco jogos. E domingo tem clássico com o Cruzeiro...

O Cristiano Ronaldo, então? Esse deve lamentar diversas vezes por dia a época em que nasceu. O português joga demais, não é fenômeno de marketing nem conversa fiada. É estiloso no visual e nas atitudes dentro de campo. Arrasou no Manchester United, é ponto de referência no Real Madrid. Merece prêmios, medalhas, distinções - o mais importante o de melhor do mundo em 2008.

De lá pra cá, o futebol dele só evoluiu, ficou vistoso e eficiente, para torná-lo sempre protagonista, como nenhum patrício seu jamais foi. Mas Cristiano não consegue emplacar prêmios, se tiver como concorrente Lionel Messi. O argentino leva todas e está com pinta de que não vai parar tão logo de colecionar comendas. Complicado, mesmo para quem é craque, dividir atenção com estrela de altíssima grandeza. Por mais que brilhe, será ofuscado pelo astro maior. Como acontecia na época de Pelé. Era um desperdício de gente boa a desfilar pelos gramados, virtuoses de primeira linha, que no entanto ficavam à sombra do solista, do Rei.

A vida tem dessas ironias. Fazer o quê? Como diz a música: "Sei lá, a vida é uma grande ilusão. Sei lá, sei lá, vida tem sempre razão".

Na trave! O Palmeiras correu, sufocou, venceu, mas... não levou. Os 3 a 1 sobre o Vasco foram insuficientes para garantir o time de Felipão na fase seguinte da Sul-Americana. O Palestra foi atrevido, prensou o rival com quatro jogadores mais adiantados - Valdivia, Luan, Maikon Leite, Kleber -, fez 2 a 0, sonhou pelo menos com a definição nos pênaltis, porém o golaço de Jumar derrubou as esperanças. Valeu só como consolo o gol de Marcos Assunção. O clube completa hoje 97 anos com mais uma frustração e só lhe resta o Brasileiro como alternativa para salvar 2011. Vai, Toquinho: "De nada adianta ficar-se de fora..."

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