Coisas que não mudam

Vivemos tempos de enormes, constantes e profundas mudanças, apregoam gurus da mídia, ainda que desconfie que as coisas são assim desde o surgimento do primeiro deles, possivelmente um sujeito peludo que fazia inscrições nas paredes das cavernas. A despeito de que o politicamente correto hoje em dia - e provavelmente na era da pedra lascada - seja fazer comentários inteligentes sobre o quanto o mundo tem mudado, me atrevo a dizer que as coisas parecem mover-se cada vez mais devagar. Ao menos algumas delas, como a política e o futebol.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Se os amigos leitores não concordam com isso, recomendo fazer o seguinte programa hoje à noite: assistam ao horário eleitoral gratuito e, em seguida, qualquer noticiário político e esportivo na TV. Garanto que a nostalgia tomará conta de vossas almas, a ponto de acharem que enfrentaram algum tipo de viagem no tempo e despertaram 30 anos atrás. Quem não tiver paciência para ser cobaia desse experimento, basta acompanhar o resumo que faço aqui. No horário eleitoral, temos as mesmas caras de sempre (apenas um tanto embalsamadas e esticadas por intervenções cirúrgicas e uso indiscriminado de botox) aparecem fazendo promessas de mudar todo o que aí está, sem explicar como. As mesmas caras, os mesmos jingles toscos, o mesmo gestual engessado e pretensioso. E também o palhaço da vez, o ex-atleta, o ex-ator, o ex-delinquente, as ex-celebridades, os filhos das ex-celebridades, os imitadores de políticos defuntos que gritavam o próprio nome, e por aí vai.

O programa do partido da situação diz que vivemos um sonho, o da oposição anuncia o pesadelo, os partidos operários pregam a revolução, agora pela voz de alguns chiques e famosos. Nem se dão ao trabalho de fazer uma versão remix das marchinhas. No noticiário da TV, um político vai em cana por desvio de verbas, sigilos são quebrados, alianças com inimigos do passado são fechadas e um pobre coitado entrevistado na rua reclama da vida. Nada mudou. Nadinha. E aí chegamos ao mundo do esporte, que confirma o que vemos na política.

O noticiário esportivo é bem melhor do que o horário eleitoral, mas novidade mesmo, necas. O campeão do primeiro turno só será conhecido daqui a mais de um mês, porque alguns jogos foram adiados. Algo de novo nisso? Os times que lideram quase não usam jogadores das divisões de base, preferindo apostar em medalhões. Surpresa? A média de técnicos demitidos é de 1,5 por rodada. Isso mudou nas últimas décadas? Jogadores andam falando mais do que devem e se sentindo donos do mundo. Técnicos estão falando idem e se sentindo idem. Os dirigentes quase não falam nada, mas é melhor assim. Novidade? O líder está em crise, o último colocado está em crise, times do meio da tabela estão em crise, o campeão da década está em crise, o atual campeão está em crise - e foi campeão, no ano passado, em meio a enorme crise. Crise ampla, geral e irrestrita. Alguma vez já foi diferente? Pois é.

Como dizia o velho slogan, que de tão velho poderia funcionar hoje em dia, "o tempo passa, o tempo voa... e tudo continua numa boa". No caso do futebol e da política, tudo continua numa péssima. Deve ser por isso que a cada eleição cresce o número de ex-jogadores que decidem se candidatar. Política e futebol têm afinidade, a mesma dificuldade de inovar. Com raras exceções, os jogadores candidatos são aqueles que, dentro de campo, até eram talentosos, mas jamais grandes exemplos de comportamento. Na política, juram que será diferente, que vão promover profundas mudanças. Será? Não há registros da prática do futebol na pedra lascada, nos tempos do cronista que fazia inscrições nas paredes das cavernas. Mas, se havia, pouco deve ter mudado desde então. Os velhinhos da International Board é que estão certos: para que mudar as regras do jogo, se o mundo do futebol odeia mudanças?

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