COLUNA-O que importa é torcer

A cada edição de JogosPan-Americanos ou Olímpicos o congraçamento entre atletas dediferentes países, culturas, credos e etnias é o que realmentevale por detrás do brilho das medalhas. É emocionante ver umaprova que reúna jovens tão diferentes perseguindo um mesmoobjetivo. E se isso acontece dentro dos campos e quadras omesmo se aplica à turma que garante o show na arquibancada. É incrível como a simples disposição para torcer igualaquem quer que seja e produz uma massa para lá de divertida. A democracia da torcida garante a boa convivência entre osque são conhecedores daquela modalidade esportiva, os queapenas sabem a regra do jogo e aqueles que nem desconfiam o quese passa. O público que vem lotando o pavilhão do judô não poderiaser diferente. O esporte que tradicionalmente rende medalhas aoBrasil é acompanhado nesse Pan por praticantes do esporte,aficionados e torcedores que precisam apenas de um reles motivopara cantarem que são brasileiros com orgulho e amor. Achando graça, os vizinhos da animada senhora queincentivava o atleta brasileiro na luta pelo bronze nacategoria até 100 quilos nem pensaram em lhe contar que o nomedo judoca era Luciano e não Cristiano como ela gritava a plenospulmões. Tampouco se aborrecia o professor de judô que dividia afila com um casal que se esforçava para entender o placar quetraduzia o andamento da luta. "Você reparou se são sempre asmesmas letras que aparecem?", perguntava a esposa, referindo-seao I, W, Y e K, iniciais de Ippon, Waza-Ari, Yuko e Koka,golpes que pontuam no judô. A doce ignorância de parte da platéia é bem vista pelosatletas. "O que importa é que me sinto apoiada e incentivada.Além disso, o importante é atrair cada vez mais gente para ojudô", disse Edinanci Silva, que sagrou-se bicampeãpan-americana na categoria até 78 quilos. O também medalhistade ouro Tiago Camilo não parecia se importar com a recentíssimaintimidade estabelecida com a torcida, seja ela expert em judôou não. Muito menos João Gabriel Schlitter, prata em luta polêmicacontra Cuba. Com a medalha conquistada na véspera eleengrossava a torcida pelos brasileiros na arquibancada e sedivertia com quem se aproximava para dizer que forainjustiçado, da mesma forma com aqueles que exultavam aoconseguir uma foto a seu lado. O sorriso provavelmente ainda estaria lá se tivesse ouvidoo comentário de dois jovens ao conferirem o resultado da câmeradigital: "Legal, mas quem é ele?", perguntava um. "Não é dolevantamento de peso. Mas será que ele ganhou medalha?",indagava o outro. Tanto faz, o que importa é torcer. Entender émero detalhe.

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