Divulgaçãp/ Mercedes
Divulgaçãp/ Mercedes

Com a pausa nos esportes, empresas do ramo se dedicam a suprimentos médicos

Como a Mercedes, outras equipes de F-1 estão fazendo hora extra para acelerar a produção dos tão necessários respiradores

David Waldstein, The New York Times

09 de abril de 2020 | 09h00

No mês passado, em um pub de Londres, pouco antes de o governo britânico ordenar aos cidadãos que ficassem em casa, um pequeno grupo compartilhava alguns drinques. Entre eles estavam Rebecca Shipley, professora de engenharia da saúde da University College London, o colega Tim Baker, também da UCL, ex-engenheiro automobilístico, e alguns médicos da unidade de terapia intensiva.

Na pauta da noite, estava um debate a respeito de métodos para lidar com a enxurrada de pacientes infectados pela covid-19. Os médicos disseram que os artigos mais essenciais necessários eram os respiradores mecânicos e máquinas de pressão positiva contínua para as vias aéreas, ou CPAPs.

Instantaneamente, Baker sabia a quem recorrer. Em uma vida anterior ele projetou motores para a equipe de corrida Jordan Racing (atual Racing Point), na disputa pelo campeonato de Fórmula 1. Ele sabia que equipes de F-1 treinavam para reduzir os tempos de volta em milésimos de segundo, capazes de produzir máquinas de altíssima qualidade em um período surpreendentemente curto.

No dia seguinte, 25 de março, Baker se reuniu com dois engenheiros da Mercedes-AMG Petronas, principal equipe da F-1, com sede nas Midlands britânicas. Eles almoçaram e então trabalharam a noite toda projetando dispositivos CPAP que pudessem ser produzidos rapidamente.

Em questão de 100 horas após a reunião inicial no pub eles tinham em mãos um protótipo, e em 10 dias obtiveram a primeira aprovação das autoridades britânicas para iniciar a produção.

“Estamos chegando à marca de 200 peças já em circulação", disse Baker em entrevista pelo telefone concedida de Londres, “e temos luz verde para produzir 300 por dia durante uma semana, e em seguida mil unidades por dia".

Como a Mercedes, outras equipes de F-1 estão fazendo hora extra para acelerar a produção dos tão necessários respiradores, e em todo o segmento esportivo muitas fabricantes estão adaptando seus processos de manufatura e emprestando seu equipamento e experiência em uma iniciativa cada vez mais ampla de combate à covid-19.

“A cultura da nossa empresa gira em torno de uma mentalidade atlética", disse Ed Kinnaly, diretor executivo da Bauer, que fabrica equipamento de hóquei e está fazendo máscaras de proteção para funcionários médicos. “Para os nossos funcionários, o desafio de vencer esse vírus é como o de bater um concorrente.”

A Bauer e as outras empresas do grupo, Cascade e Maverik, têm sede em Liverpool, Nova York e Blainville, Quebec. Suas fábricas costumam se dedicar à produção dos capacetes, máscaras e patins usados no hóquei e no lacrosse. Mas, agora, produzem máscaras plásticas maiores, semelhantes às de soldadores, para o uso de funcionários dos hospitais como proteção extra para conter o contágio.

Kinnaly disse que um de seus engenheiros o procurou no mês passado com a ideia. Um modelo foi criado, o maquinário foi ajustado e, em pouco tempo, teve início a produção. A empresa começou fazendo cerca de 3 mil unidades por semana em cada instalação e, conforme os funcionários se familiarizam com o processo, Kinnaly espera levar a produção à marca de 70 mil por semana até o fim de abril.

Eles não estão sozinhos. Em Lawrence, Massachusetts, a empresa de calçados atléticos New Balance está produzindo máscaras de tecido para os médicos, enfermeiros e funcionários de hospitais. Perto de Oxford, Inglaterra, a equipe de corrida ROKiT Williams Racing reuniu suas forças às de outras equipes de F-1 na produção de respiradores, e em Easton, Pensilvânia, a Fanatics, que costuma produzir uniformes de beisebol, está usando esse tecido - com o mesmo padrão listrado - para produzir máscaras e jalecos. Na semana passada, os New England Patriots enviaram um de seus jatos à China para trazer de volta 1,2 milhão das tão necessárias máscaras de proteção N95, enquanto muitas outras equipes e empresas de equipamento esportivo fazem sua contribuição à iniciativa.

E o segmento esportivo não é o único. Várias outras indústrias, incluindo grifes da moda como Prada, Gucci e Eddie Bauer, e perfumarias como Dior e Givenchy, adaptaram a produção de suas fábricas para oferecer suprimentos médicos e desinfetante para as mãos para ajudar no combate ao coronavírus.

Enquanto boa parte do mundo esportivo se concentrou na produção do equipamento de proteção para os funcionários da medicina, a iniciativa da F-1, apelidada Project Pitlane, busca ajudar os pacientes. Nos casos mais graves, a covid-19 pode causar dificuldade aguda na respiração, mas os CPAPs podem ajudar as pessoas sem recorrer aos respiradores, que são escassos.

De acordo com Rebecca Shipley, da engenharia da medicina da UCL, dados obtidos da Itália e da China indicam que os pacientes que usam o CPAP pouco depois da infecção têm de 50% a 60% menos chances de precisarem do respirador, mais invasivo, para o qual é necessária sedação.

Os aparelhos CPAP bombeiam um fluxo constante de oxigênio pela máscara para impedir o estreitamento das vias aéreas do paciente. Os engenheiros da Mercedes e da UCL ainda estão aperfeiçoando a pressão do ar para minimizar a perda de oxigênio nos novos CPAPs. Mas esse é exatamente o tipo de desafio de engenharia que as equipes de F-1 enfrentam com destreza, frequentemente implementando modificações em curtos períodos para que os carros usem a tecnologia mais avançada desenvolvida nos centros de pesquisa.

“Sou muito grata a eles", disse Rebecca Shipley a respeito dos engenheiros da Mercedes. “Têm sido fenomenais, não apenas no seu compromisso com a causa, mas na velocidade e na qualidade do trabalho que fizeram para nós.”

Enquanto a Mercedes se concentra nos CPAPs, engenheiros das outras equipes britânicas, como Haas, McLaren, Racing Point, Red Bull, Renault e Williams, seguem trabalhando nos ventiladores mecânicos, trocando informações e colaborando como nunca antes.

“Nas duas semanas mais recentes, devo ter falado mais vezes com meus correspondentes nas equipes rivais do que nos 12 meses mais recentes", disse James Colgate, diretor de operações da Williams. “Todos se uniram no apoio ao projeto.” / Tradução de Augusto Calil

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