EFE
Estádio na Arábia Saudita EFE

Com eventos esportivos, Arábia Saudita busca nova imagem para atrair investidores

País se 'abre' para receber atrações nas mais diversas modalidades e mostra para o mundo sua capacidade no Esporte

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 04h30

Antes conhecido por ser um país fechado, a Arábia Saudita recepcionou a seleção brasileira por três vezes nos últimos 15 meses. Sediou a Supercopa da Itália no ano passado, viu Anthony Joshua recuperar os cinturões dos pesos pesados no mês passado, presenciou Felipe Massa disputando três corridas da Fórmula E nos últimos dois anos e, desde domingo, recebe o famoso Rally Dakar. Entre esta quarta e domingo, será a vez de Lionel Messi e dos craques do Real Madrid competirem em solo saudita, pela Supercopa da Espanha.

Os primeiros a entrar em campo serão os jogadores do Real nesta quarta, contra o Valencia, pela semifinal da competição espanhola, com transmissão da ESPN. Na quinta, Messi e companhia vão duelar com o Atlético de Madrid. Os vencedores se enfrentarão na final da Supercopa, no domingo, no estádio King Abdullah Sports City, na cidade de Jidá.

A transferência da competição da Espanha para solo saudita é mais uma investida do país árabe em busca de abertura no mercado global, principalmente esportivo. O empenho em sediar grandes eventos da área faz parte do plano “Visão 2030”, que prevê mudanças consistentes na economia, a longo prazo, para tornar o país menos dependente do petróleo. O objetivo é diversificar a atividade econômica e fortalecer a iniciativa privada.

“O país começou a aparecer mais aberto ao mundo e passou a gerar o interesse das pessoas em fazer negócios e fomentar a economia local”, explica Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM, em entrevista ao Estado. A Arábia Saudita é a maior economia do Oriente Médio e tem a maior população do Golfo Pérsico.

As mudanças são consequência da ascensão de Mohamed bin Salman ao poder. O príncipe herdeiro se tornou o homem forte da monarquia em 2017, deixando clara sua intenção de modernizar instituições e ampliar a economia saudita. “O príncipe herdeiro é um apaixonado por esporte e entende que o esporte pode fomentar não só o protagonismo do país na região como também pode ter um efeito a longo prazo, principalmente do ponto de vista dos negócios”, diz Martinho.

Desde que Bin Salman assumiu o comando, a Arábia Saudita recebeu três amistosos da seleção brasileira em seu território, sendo dois deles contra a Argentina. Somente no mês passado, sediou o duelo entre Lazio e Juventus, de Cristiano Ronaldo, pela Supercopa da Itália, e a aguardada luta entre Anthony Joshua e Andy Ruiz Jr., em Riad.

A primeira luta pelo título dos pesos pesados a ser realizada no Oriente Médio custou ao país nada menos que US$ 50 milhões (cerca de R$ 200 milhões). Não por acaso o chamado “confronto das dunas” foi o evento de maior audiência da DAZN em 2019. Joshua venceu e recuperou os cinturões da Associação Mundial, da Federação Internacional e da Organização Mundial de Boxe. 

A investida alcança também modalidades menos populares. No ano passado, os sauditas sediaram uma etapa do circuito europeu de golfe. Em fevereiro, será a vez do turfe, com a primeira edição da Saudi Cup, competição com maior premiação do planeta na modalidade.

“Eles viram que funciona investir no esporte e decidiram dobrar a aposta. Poderiam construir uma filial do [museu] Louvre ou a maior montanha-russa do mundo. Mas viram o resultado causado pelo esporte, que coloca o país no mapa, cria a simpatia, dá a sensação de abertura e gera notícia no mundo todo”, afirma Martinho. 

O esforço se justifica porque a Arábia Saudita ainda enfrenta resistência do público global, principalmente em razão do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, colunista do jornal norte-americano “Washington Post” e conhecido crítico do governo saudita. Segundo as autoridades locais, ele foi esquartejado no consulado da Arábia Saudita na Turquia, em 2018. Acusado de ter ordenado o crime, Mohamed bin Salman negou envolvimento.

RESISTÊNCIA

O episódio afetou a imagem do país mundialmente. Os tenistas Rafael Nadal e Novak Djokovic chegaram a receber críticas públicas até da Anistia Internacional quando anunciaram exibição no país, em dezembro de 2018. O jogo acabou sendo cancelado porque o espanhol alegou problemas físicos.

No ano passado, a direção da Fórmula 1 foi alvo de críticas após o jornal britânico “The Times” afirmar que a categoria cogitava contar com uma etapa em solo saudita a partir de 2021. A F-1 desmentiu a intenção de mandar uma corrida no país no futuro próximo.

Mas a estratégia de reconstrução parece surtir efeito. Apenas um ano depois das críticas aos tenistas, a Riad sediou torneio de exibição em dezembro. Seis integrantes do Top 20 do ranking da ATP estiveram presentes, sendo dois deles do Top 10.

“Muitos só ouviram falar de Riad para notícias negativas, muitas vezes relacionadas a terrorismo. Aos poucos eles começaram a construir uma imagem diferente, mudando a opinião pública mundial sobre o país”, diz Martinho.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Paquetá vê potencial para futebol saudita se destacar no futuro

Treinador brasileiro, que já dirigiu a seleção da Arábia Saudita, destaca a boa qualidade técnica dos jogadores no país

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 04h30

A abertura da Arábia Saudita para os grandes eventos esportivos pode ter efeitos positivos sobre o futebol local. Esta é a opinião do técnico brasileiro Marcos Paquetá, que trabalhou no país entre 2004 e 2007. Lá treinou o Al Hilal, derrotado pelo Flamengo na semifinal do último Mundial de Clubes, e a própria seleção saudita.

“Acho que o campeonato local pode começar a ter repercussão internacional. Tem muito jogador bom, de outros países, da França, Itália, muitos com mercado bom. Creio que o investimento está sendo forte”, disse Paquetá, ao Estado.

“As comissões técnicas têm hoje muitos profissionais por equipe. O saudita sempre teve boa qualidade técnica, são os melhores jogadores do Golfo Pérsico. Acho que a ideia agora é chamar a atenção. Estão fazendo um trabalho interessante”, completou o experiente treinador, de 61 anos.

A mudança no futebol local é reflexo da abertura que vem acontecendo no país nos últimos dois anos, permitindo a realização de eventos esportivos de diversas modalidades, como futebol, boxe, golfe, tênis e até turfe. “São mudanças profundas no esporte, na educação, na sociedade e turismo.”

A novidade mais chamativa dos últimos anos aconteceu em janeiro de 2018, quando as mulheres enfim puderam comparecer aos jogos de futebol. “Elas gostam muito de futebol. Você vai a locais públicos e as crianças e as mulheres pediam autógrafo aos jogadores”, lembra Paquetá.

“Eles estão vivendo um momento de transição. Estão tentando abrir o país de uma maneira gradual e que acho interessante. Tenho amigos lá e eles me relatam que hoje existe uma abertura maior, uma aceitação melhor [quanto ao diferente], não em todos os lugares, mas em boa parte do país”, diz Paquetá, que comanda atualmente o Muharraq Club, do Bahrein, país vizinho da Arábia Saudita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.