Com investimento e talentos, flechadas do Brasil chegam mais perto do alvo

Antes coadjuvante dos mais apagados nas competições de tiro com arco, país agora mostra o brilho de atletas como o adolescente Marcus D'Almeida

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - É comum ouvir de um atleta do tiro com arco, antes de uma competição, a seguinte frase: “Este é um esporte em que tudo pode acontecer”. Poucos poderiam esperar, no entanto, que tanta coisa poderia acontecer numa modalidade em que o Brasil não tem nenhuma tradição, como foi registrado no Mundial de Antalya, na Turquia, em outubro do ano passado. O resultado mais surpreendente do Brasil foi obtido por Marcus Vinícius D’Almeida. Então com apenas 15 anos de idade, o mais jovem entre os 145 arqueiros inscritos, ele terminou a fase de classificação na 32ª colocação. Derrotou o polonês Rafal Dobrowolski, o mesmo que o derrotara em sua primeira competição internacional, dois meses antes. Depois, superou um arqueiro de Bangladesh, Md Ruhan Shana, no desempate, a flecha da morte.

D’Almeida se classificou para enfrentar o 1º colocado na fase classificatória, o sul-coreano Oh Jin-Hyek, atual campeão olímpico. Nas três primeiras flechas, houve empate. Nas três fases seguintes, no entanto, o asiático foi superior. No final, o fluminense de Maricá terminou na 17ª posição. O garoto, que tem sangue frio, usa a idade a seu favor. Cada atleta tem dois minutos para atirar três flechas no alvo. Ele atira rapidamente e com precisão as suas e deixa o adversário pressionado a acertar para não passar pelo constrangimento de ser batido por um adolescente. O adolescente amadureceu rapidamente. No Mundial cadete, na China, poucos meses antes, chegou a atirar no alvo errado. Depois se recuperou e terminou com a oitava colocação.

Técnico da seleção brasileira, o ex-arqueiro inglês Richard Priestman, que conseguiu dois bronzes por equipes nos Jogos de Seul e Barcelona, acha que o jovem pupilo pode ir longe. “Ele tem um potencial fantástico, e vivenciou uma inacreditável experiência no Mundial. Trata-se de um competidor nato, é muito forte mentalmente. Acho que pode ser um dos melhores, senão o melhor do mundo de sua geração”.

Com boa estrutura de treinos montada pela Confederação Brasileira no Círculo Militar de Campinas, Priestman acha que não falta nada para o Brasil alcançar nível suficiente para brigar por medalhas em 2016. Ou melhor, quase nada. “Falta tempo. Talvez em 2020 o Brasil esteja no nível ideal”, aponta o técnico. “Marcus ainda não tem o corpo de um homem formado. A força é importante. Quanto mais forte ele puxar a corda, mais rapidamente vai a flecha, e menos sujeita ao vento estará”.


Marcus, que conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos na última sexta-feira, não é o único bom nome do Brasil, que tem apenas 2 mil praticantes, espalhados por 80 clubes.

Sarah Nikitin, arqueira do Palmeiras, conseguiu a oitava colocação no Mundial da Turquia. “A Sarah é uma fantástica atiradora em treinos, mas nunca havia conseguido repetir essa performance numa competição. Na Turquia, conseguiu”, empolga-se Priestman com a paulistana, que começou a atirar inspirada no personagem Legolas, da trilogia Senhor dos Aneis, da qual é fã.

DIÁLOGO TRUNCADO

O inglês sucede o sul-coreano Lim Hee-Sik no comando da seleção brasileira. Iniciador do trabalho que agora rende frutos, o asiático tinha sérios problemas de comunicação.

“Ele não falava português, obviamente, e seu inglês era pra lá de Deus me livre. Além do mais, na cabeça dele não entrava que um atleta pudesse se alimentar mal. Nós damos uns vales-alimentação para os atletas e eles só queriam comer pizza e hambúrguer. Com o tempo, melhoraram bastante. Mas esse é um exemplo de comportamento que o deixava louco da vida”, diz o presidente da CBTarco, Vicente Blumenschein.

Com um investimento que não chega a ser nababesco, de R$ 2 milhões, o Brasil nota o que outros países que não estão entre os mais desenvolvidos já comprovaram: não é necessário muito dinheiro para progredir na modalidade. A Índia, por exemplo, iniciou um programa com arcos de bambu, e hoje já é respeitada no mundo do tiro com arco, bem como o Chile, que já fez uma campeã mundial, Denisse Van Lamoen. Um arco de competição, com um jogo de 11 flechas, custa cerca de US$ 1,5 mil.

Tudo o que sabemos sobre:
tiro com arcoRio 2016

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.