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Antero Greco
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Com licença, São Tomé

Um grupo de jornalistas experientes que atuam na crônica esportiva foi recebido no meio da semana por Dilma Rousseff. No encontro, a chefe de Estado teceu considerações a respeito da Copa e do futuro do futebol nacional que estimulam reflexões. Como não estive lá - e seria presunção de minha parte esperar convocação -, baseio comentários desta crônica naquilo que os colegas publicaram em blogs e sites. Talvez por isso cometa falhas de apreciação, e as credito a algum argumento mais detalhado da presidente que desconheça.

Antero Greco,

18 de maio de 2014 | 02h02

Um aspecto me chamou a atenção no que li. Dilma afirmou que o momento é propício para mudanças, supostamente na estrutura administrativa do jogo de bola no país. Portanto, um dos legados (olha a palavrinha mágica de novo em cena!) positivos do Mundial seria a colaboração do governo em ações que incentivem ideias novas, arejadas, que venham a transformar nosso esporte mais popular em atividade rentável, bem gerida, transparente, profissional, etc, etc.

Movimento assim representaria o pontapé inicial para uma revolução, daquelas de balançar o coreto, a primeira desde que Charles Muller desembarcou por aqui com bolas de capotão embaixo do sovaco, ainda no tempo em que São Paulo era pouco mais que uma vila suburbana. Taí algo que pago pra ver. Mexer na pirâmide do futebol brasileiro é tarefa quase tão difícil quanto apear o PMDB do poder. Cadê coragem, cacife e paciência para tanto?

Governos de variados matizes entraram e saíram, sem que dessem a mínima para o cartola que estivesse no comando da CBD (depois, CBF). Ao contrário, até pediam ajudinha, como na época em que o Brasileirão inchava à medida que o partido oficial caía nas pesquisas eleitorais. O pessoal veterano lembra do mote: "Onde a Arena vai mal, um time no Nacional". E bola pro mato que o jogo é de campeonato.

A saída clássica das autoridades, toda vez que se veem em sinuca de bico para comentar desmandos da cartolagem, é a de que "não se pode mexer em entidades privadas". Não pode vírgula. O futebol é patrimônio cultural do Brasil, os clubes têm função social. E, se isso não bastasse, recebem benefícios fiscais, têm fontes de rendas e recolhem (ou deveriam) impostos. Aliás, o que não falta é canetada para anistiar calotes gigantescos das agremiações.

Empresas estatais também investem nota alta no futebol, e não entram nessa por benemerência. Supõe-se que a intenção seja divulgar produtos, serviços e obter lucro. Não podem desperdiçar recursos em atividades amadoras, no sentido pejorativo do termo.

O vespeiro para atiçar é bravo, futebol e política se enroscam, não faltam rapapés de um lado para o outro. Como imaginar o governo a mexer em configuração viciada, que vai da escolha de presidentes de clubes, passa pela unção dos chefes de federações e desemboca na definição do mandachuva da CBF?

Como supor que entidades de classe, como o Bom Senso F.C., possam peitar os coronéis da bola? Se não se resolveu sequer a história da mancada da Lusa na última rodada da Série A de 2013 - com cheiro de queimado no ar -, como esperar guinada no modus operandi do futebol? Iguais promessas de reforma partidária...

Digamos que haja boa intenção, vá lá. Mas fico prevenido, pois parece mais conversa para agradar a opinião pública, desconfiada com o clima para a Copa, do que disposição para agir. São Tomé é atual.

Inauguração. O Itaquerão finalmente entra em operação oficial, com o jogo de hoje do Corinthians. Muito bem, muito bom. Uma dúvida, apenas: quando e quantas vezes serão testadas as arquibancadas provisórias, erguidas só pra Copa? Ou serão liberadas só na estreia e seja o que Deus quiser, amém Jesus?!

E não nos avisaram?! O técnico Mano Menezes disse que o Brasil poderia ser campeão do mundo "também" com ele. Ué, já ganhamos o hexa e ninguém nos comunicou?!

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