Divulgação/Conselho de Críquete do Afeganistão
Divulgação/Conselho de Críquete do Afeganistão

Com medo do Taleban, seleção feminina de críquete do Afeganistão se esconde em Cabul

Uma das integrantes da equipe ouviu do grupo extremista que poderia morrer se tentasse praticar o esporte novamente

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 16h13

Há pouco mais de duas semanas, o grupo armado Taleban assumiu o controle do Afeganistão. Desde então, a situação no país se complicou não apenas pela mudança no poder, mas também por conta dos ataques do Estado Islâmico-K e a retirada das tropas americanas do território asiático. Apesar das declarações pacíficas de seus líderes, o Taleban não mudou desde seu primeiro mandato, entre 1996 e 2001. As mulheres continuam sendo desrespeitadas e privadas de seus direitos, o que inclui praticar esportes.

Um exemplo disso é a seleção afegã feminina de críquete, que precisou se esconder dos extremistas na capital Cabul. Em entrevista à BBC, uma das integrantes, usando o pseudônimo Asel, afirmou que “toda mulher jogando críquete ou outros esportes não está segura nesse momento”. Sem esperanças, a atleta disse que pouco saiu de casa desde a chegada do Taleban. 

Asel explicou como uma de suas companheiras de equipe foi abordada na cidade. “No vilarejo onde elas jogam críquete, algumas pessoas que as conhecem estão trabalhando com o Taleban. Quando o Taleban veio aqui e tomou Cabul, eles as ameaçaram, dizendo que “podemos vir e matá-lo se tentar jogar críquete novamente”.

Uma outra jogadora, chamada de Taqwa, conseguiu fugir do país após a tomada de Cabul. Antes de escapar, ela precisou mudar de casa constantemente para não ser detectada. Seu pai foi contatado pelo Taleban, mas disse que não estava em contato com a filha. Taqwa relatou que, por uma semana, não comeu e nem dormiu. “Eu não quero pensar no que poderia ter acontecido”, disse. 

Muitas das jogadoras de críquete sacrificam suas vidas e seus estudos pelo esporte. Em nome de representar o Afeganistão, algumas decidiram até não se casar, segundo a atleta. Para outra entrevistada, sob o pseudônimo de Hareer, jogar críquete significa “se sentir como uma mulher forte”. “Eu consigo me imaginar como uma mulher que pode fazer tudo, que pode transformar seus sonhos em realidade”, afirmou.

Infelizmente, ao contrário do que se pensava há um ano, sobra pouca esperança para essas atletas afegãs. Além da segurança comprometida, elas se sentem abandonadas pelas autoridades esportivas. 

No Afeganistão, o críquete se tornou popular durante os anos 2000 graças ao crescimento meteórico da seleção masculina. Enquanto alguns jogadores se tornaram famosos, a seleção feminina enfrentou resistência desde o começo, em 2010. Em mais de uma oportunidade, elas foram proibidas pelo Conselho de Críquete do Afeganistão de participar em torneios internacionais.

A alegação era de que o órgão havia recebido ameaças do Taleban. Apesar das dificuldades que enfrentam, Asel garante que ela e as companheiras não vão desistir de seus sonhos. “A situação é ruim para nós. Mas há esperança enquanto respirarmos. Se formos tiradas do país e levadas para outro lugar, começaremos de novo”, disse.

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