Com o auxílio da memória

Antero Greco escreveu a coluna "Contra o que está aí", publicada na última sexta. Quem não leu deve lê-la. Deve estar disponível na internet. Quando terminei o terrível desabafo sobre a situação do futebol no Brasil só me ocorreu uma pergunta: vamos sair disso um dia? Pensei um pouco e não encontrei ideia salvadora. É como se estivéssemos condenados para sempre à nossa miséria e impotência. Mas a memória, sempre ela, veio em meu auxílio.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h07

Em 1949, a Europa ainda estava às voltas com as ruínas produzidas pela guerra e, em contraste, a América do Sul começava um período de prosperidade e entusiasmo. E o futebol, também contaminado pelo clima do período, produziu um acontecimento notável. Aproveitando-se de uma greve momentânea de jogadores na Argentina, desconhecendo olimpicamente a vigência de contratos, laços com os clubes e obediência às normas de Fifa, o Millonarios de Bogotá fez ofertas mais do que tentadoras aos craques argentinos inativos.

Da noite para o dia formou-se uma equipe pirata, excomungada pela Fifa, mas brilhante. Chegaram ao Millonarios Nestor Rossi, Julio Cozzi, Adolfo Pedernera, Alfredo Di Stefano e outros grandes craques do período. Os outros clubes colombianos fizeram o mesmo e não se limitaram à Argentina. Até do Brasil foi gente como o grande Heleno de Freitas. É claro que havia riscos. É claro que havia muita ilegalidade na manobra. Mas quem se importava? O público queira ver craques, e lá estavam os renegados revolucionando o futebol. O Millonarios jogava sem treinador. Quem fazia esse papel era o craque Pedernera, que jogava e orientava. Não porque fosse um especialista em táticas, mas porque era um grande craque. O Campeonato Colombiano virou um show. Era uma partida memorável após outra.

Não contente em se exibir na Colômbia, o Millonarios começou a excursionar vitimando implacavelmente seus adversários pelo mundo. Apenas um exemplo: convidado pelo famoso Real Madrid, esse mesmo que hoje posa de Cristiano Ronaldo e companhia, para fazer um jogo importantíssimo que comemorava os 50 anos do clube espanhol, o Millonarios foi até lá e mesmo no estádio do Real goleou por 4 a 2. Perguntado sobre o esquema tático Pedernera respondeu rápido: "atacar".

Assim era esse time de sonhos, irregular e rebelado contra todas as forças que tolhiam o futebol da única coisa necessária para que viva: liberdade. O sonho durou 5 anos, breve como todos os sonhos. Mas ficou na história, como um sinal, um farol a iluminar a noite. Os tímidos e aproveitadores dirão que era um bando de loucos a serviço de outros loucos. Mas por cinco anos colocaram a América do Sul no topo do mundo.

Tudo mudou e hoje praticamente as coisas se inverteram. Nós estamos em ruínas aqui na América do Sul e eles, na Europa, ainda fortes e ricos. Creio, porém, que o episódio do Millonarios de Bogotá nos ensina alguma coisa. Primeiro que é preciso, como diz o Antero, reagir. Mais que reagir, rebelar-se. Mas rebelar-se mesmo. Contra a mesmice, o monótono, a ordem artificial das "secções'' de produção, o cinza das linhas de montagem. Futebol é arte popular e arte contém o inesperado e mesmo a desordem. A segunda coisa a observar é que essa supremacia europeia tão decantada principia a fazer água.

A começar pela Itália, até há pouco tão poderosa, hoje em franca decadência técnica e financeira, clubes e seleção. Seguida pela Inglaterra, salva pelos magnatas árabes, talvez apenas enquanto o preço do petróleo ainda permite, e mesmo a França que vive do PSG, igualmente árabe, ou a Ucrânia em chamas.

Portanto, um fato inquestionável é a mobilidade da história. Não vemos claramente esse mover-se, invisível na maior parte do tempo. Eppur si muove. Pode ser que as coisas já estejam mudando e nossa vez talvez ainda chegue de novo. Parece loucura, mas é o que me alimenta.

Mais conteúdo sobre:
Ugo Giorgetti O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.