Issei Kato/Reuters
Novo estádio Nacional de Tóquio está em fase final de obras Issei Kato/Reuters

Com Olimpíada 'espalhada' pelo Japão, organização se preocupa com a segurança

País intensifica preparativos enquanto teme possíveis problemas pelas competições serem pulverizadas por nove províncias

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Tóquio, O Estado de S. Paulo

29 de julho de 2019 | 04h30

Os japoneses economizaram R$ 6,9 bilhões ao decidir reaproveitar locais de prova antigos para a Olimpíada que começará a pouco menos de um ano. Tiraram de Tóquio um terço dos 43 pontos de disputa, espalhando-os por nove províncias, e farão poucas obras – são 25 locações já existentes, dez temporárias e apenas oito novas, cuja entrega está adiantada. A estratégia de pulverização das provas, entretanto, tornou mais desafiador para os japoneses garantir a segurança do Jogos Olímpicos de 2020.

"Quando nós nos candidatamos para sediar os Jogos, o plano inicial era de que todos esses locais ficassem dentro de Tóquio, mas havia a questão do 'elefante branco'. Como não queremos desperdiçar as construções depois dos jogos, decidimos aproveitar o máximo possível as instalações que já temos no país", diz Kentaro Kato, diretor de projetos de Relações com a Mídia. Em entrevista no quartel-general da Olimpíada em Tóquio, ele traçou ao Estado um paralelo com os Jogos do Rio, onde vivia em 2016.

"No Rio, foi feito um Parque Olímpico e dentro desse parque ficavam os locais para cada modalidade. Em Tóquio, não vamos criar um espaço único, mas sim utilizar várias instalações espalhadas no Japão. Por isso, temos um desafio de segurança", afirmou Kato. Em Jogos com competições concentradas em um Parque Olímpico, os espectadores se deslocam de uma prova para outra sem ter que passar por novas checagem. Os jornalistas, por sua vez, podem cobrir várias competições no mesmo dia em um curto espaço, sem reiteradas vistorias. No Japão, não será assim.

Em um país de clima ameno, a alta temperatura de julho é um complicador inusitado neste aspecto. Obrigar milhares de turistas a esperar na fila pela revista de segurança sob temperaturas acima dos 30ºC é um risco, agravado, no caso japonês, pela própria falta de espaço para aglomerações. Para ter uma ideia de como o calor é algo levado a sério pelos organizadores, provas como a maratona começarão às 6h. Em 1964, os Jogos foram em outubro para evitar as altas temperaturas.  

Uma solução para conseguir uma vistoria eficaz nos visitantes será acelerar o controle sobre jornalistas, atletas e integrantes da organização. "A inspeção de pertences para as pessoas que já têm a credencial deve ser um pouco menos rigorosa do que para os visitantes comuns", diz Kato. 

Outra forma de apressar a entrada de quem trabalhará na Olimpíada é a identificação facial, capaz de reconhecer feições em 0,3 segundo. Calcula-se que serão registradas 300 mil pessoas entre atletas, voluntários e equipes de imprensa.

Outro desafio é o tamanho das empresas de segurança japonesas. A organização de Tóquio 2020 calcula que serão necessários 14 mil agentes, mas não há uma companhia no país com tantos funcionários. Ao se contratar várias empresas, fica mais difícil uniformizar os padrões de disciplina.

Na época da aprovação da candidatura, os japoneses planejavam ter 37 locais de prova, 33 deles em Tóquio. No fim, serão 43 locais, 29 na capital. A aposta japonesa em reaproveitar estruturas antigas deixa os organizadores tranquilos em relação à entrega das obras novas. Dos oito locais de prova feitos especialmente para essa competição, cinco já estão prontos.

Entre as obras que faltam está a do novo Estádio Olímpico, construído na área do original demolido. O estádio já está com mais de 90% das obras acabadas. O local mais "atrasado" é o Centro Aquático de Tóquio, que está com 75% das construções terminadas.

'ATLETAS EM PRIMEIRO LUGAR'

Segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI), apesar de as provas serem espalhadas por 43 pontos de disputa, o fato de a Vila Olímpica de ser centralizada, na Baía de Tóquio, fará com que os atletas tenham acesso rápido e conveniente aos locais de competição.

Ainda de acordo com o COI, "a revisão do plano diretor do local foi realizada pela Tokyo 2020 e pelas Federações Internacionais no espírito de seu conceito de “atletas em primeiro lugar" e da Agenda Olímpica 2020, que incentiva as cidades-sede a usar locais existentes e temporários sempre que possível para reduzir custos.

De acordo com a entidade, "isso significa que continuará proporcionando aos atletas uma excelente experiência nos Jogos, ao mesmo tempo em que reduz os custos do local e envolverá muito mais a população na organização dos Jogos".

Por fim, em relação à segurança da Olimpíada, o COI afirma que está confiante "de que esse aspecto foi levado em consideração pela 'Tóquio- 2020' e pelas autoridades locais" na elaboração do projeto dos Jogos Olímpicos de 2020./COLABOROU PAULO FAVERO  

TRÊS PERGUNTAS PARA...Kentaro Kato, diretor de projetos de Relações com a Mídia dos Jogos de Tóquio

1. O que Tóquio está usando do que foi feito no Rio?

Para a Vila Olímpica, adotamos um sistema muito parecido com o do Rio de Janeiro. Faz parte do plano de urbanização do governo de Tóquio. Empresas privadas constroem os prédios residenciais. Durante os jogos, o Comitê Olímpico aluga o prédio para os atletas. Depois dos jogos, essas empresas vão vender os apartamentos normalmente. Então não vai ser uma construção em vão. Só um dos prédios vai ser construído e depois demolido. Pedimos para todas as regiões do Japão mandarem, de graça, madeiras de suas regiões, que vão ser utilizadas no prédio. Depois, essas madeiras vão ser mandadas de volta para suas regiões e serão usadas para instalações públicas, como centros culturais e bibliotecas. Tem o efeito de que nós não desperdiçamos a madeira e mesmo as regiões que não receberão jogos vão ter as suas madeiras utilizadas no local da Olimpíada. Nesta iniciativa, participam 63 municípios de todo o Japão.

2. O que não foi bem nos Jogos do Rio e serviu de alerta ao Japão?

Houve alguns problemas com voluntários. Muitos não apareciam, houve problema com o pagamento do transporte. Vamos ficar atentos nisso. 

3. É verdade que o uso de metais reciclados de celulares na medalhas provocou críticas?

No projeto de medalha, vamos utilizar mais ou menos 5000 medalhas, incluindo ouro, prata e bronze. Nossa intenção é confeccionar essas medalhas utilizando os metais que estavam em celulares, videogames e outros eletroeletrônicos, tirando os metais desses dispositivos usados. Começamos a recolher os dispositivos usados em abril de 2017. Em relação a esse projeto, houve pessoas a favor e também críticas ao projeto. Como temos um Comitê Olímpico com patrocinadores, a crítica era que se comprássemos dos produtores diretamente seria mais fácil e mais rápido. Porque as pessoas teriam que contribuir com isso? Realmente, comprar seria mais fácil e mais rápido, mas queríamos aproveitar essa oportunidade para utilizar nossas máquinas e os conceitos de reciclagem e sustentabilidade. 

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A um ano do início, Tóquio-2020 apresenta medalhas e começa contagem regressiva

Presidente do COI, Thomas Bach disse que 'nunca viu uma cidade tão bem preparada' para os Jogos

Redação, Estadão Conteúdo

24 de julho de 2019 | 09h50

A exatamente um ano do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, no Japão, os organizadores realizaram nesta quarta-feira uma cerimônia, que contou com as presenças do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe e do alemão Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), para apresentar as medalhas de ouro, prata e bronze que serão dadas aos atletas. Além disso, um relógio com a contagem regressiva de 366 dias foi acionado no centro da capital japonesa. Os valores dos ingressos já foram revelados.

"Estamos muito satisfeitos com a preparação dos Jogos. E a emoção está aumentando... Vocês viram o interesse sem precedentes na venda de ingressos" disse o chefe da Comissão de Coordenação do COI, o britânico John Coates. Já foram comercializados 3,22 milhões de bilhetes só na primeira fase das vendas domésticas no mês passado. E mais de 200 mil pessoas no Japão e no exterior se candidataram para ser voluntárias nos Jogos.

Com relação às medalhas, os organizadores destacaram o programa de reciclagem de lixos eletrônicos descartados pela população japonesa, que atingiu oito toneladas de material bruto. Tóquio planeja virar uma cidade sustentável modelo e usará as Olimpíadas para inaugurar o crescimento econômico e as iniciativas ecológicas na capital do país. Entre alguns dos objetivos é diminuir as emissões de gases de efeito estufa e o consumo de energia.

Concebidas pelo designer japonês Junichi Kawanishi, as medalhas foram escolhidas em julho do ano passado, depois de uma competição aberta para profissionais e estudantes de design. "Com seus anéis brilhantes, espero que as medalhas sejam vistas como um tributo aos esforços dos atletas, refletindo sua glória e simbolizando sua amizade", disse Kawanishi.

As medalhas de ouro são banhadas a prata pura com cerca de seis gramas de ouro. As de prata são prata pura, enquanto que as de bronze são feitas de uma forma resistente à corrosão contendo zinco. O lado da medalha com o símbolo dos Jogos de Tóquio-2020 terá também o nome do evento para o qual é apresentado.

No evento desta quarta-feira, Thomas Bach disse que "nunca viu uma cidade tão bem preparada" como Tóquio. O presidente do COI destacou "o compromisso e a cooperação" das autoridades japonesas para 2020, e estava confiante de que, graças a isso, o evento será "um sucesso para o Japão e também para toda a comunidade olímpica".

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, expressou o seu desejo de que as Olimpíadas sirvam para impulsionar a economia do país e, em particular, a reconstrução e recuperação de áreas castigadas pelo terremoto e tsunami de 2011.

As Olimpíadas de Tóquio serão realizadas entre os dias 24 de julho a 9 de agosto de 2020, enquanto que os Jogos Paralímpicos acontecerão entre 25 de agosto e 6 de setembro.

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