Com um atípico dia de verão sem nuvens, Londres se prepara para a festa

Mesmo com opiniões divergentes, londrinos entram no clima dos jogos curtindo belo dia ao ar livre antes do buxixo

Adriana Carranca - Enviada especial , O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h04

LONDRES - "Este é um grande momento para o esporte britânico! Conseguimos terminar tudo dentro do orçamento previsto e do prazo esperado. Ok, temos algumas poucas obras de metrô atrasadas, mas e daí? Estou orgulhoso do meu país! Olhe para isso! A Olimpíada vai ser um evento magnífico!", diz o farmacêutico John Newboulb sob um calor raro de 32 graus, ontem, no último domingo antes do início dos Jogos Olímpicos e o primeiro dessa temporada realmente com clima de verão.

"Se estou animado? Sim, animado para que a Olimpíada termine logo! Está tudo parado, trânsito caótico, locais públicos fechados, obras que não terminam. Isso é um desastre!", resmunga o guia turístico Susan Jane, camisa suada, rosto vermelho de calor. Nem o sol forte conseguiu descongelar sua sisudez. "Ok, o sol apareceu hoje, mas o clima só começou a mudar agora!"

John e Susan têm a mesma idade, 68 anos, vivem na mesma cidade e falaram com o Estado distantes poucos metros um do outro. Eles exemplificam bem o clima que precede a Olimpíada de Londres. A poucos dias do início dos jogos, entre o orgulho de sediar um evento dessa magnitude e o stress de ter o cotidiano mudado por obras e um complexo esquema logístico para receber 10.500 atletas de 205 países, 23.800 jornalistas e milhares de visitantes, a Inglaterra vive um momento bipolar.

É verdade que nem tudo está pronto. Ontem, as faixas especiais para carros credenciados para os jogos, nas ruas de Londres, ainda estavam sendo pintadas. Caminhões e tratores circulavam pelo Parque Olímpico, palco principal dos jogos. Portão de entrada para o complexo esportivo, o vizinho shopping Westfields, inaugurado em setembro como parte das obras realizadas para o evento, ainda esconde com tapumes partes inacabadas da arquitetura externa. No Horse Guards Parade, trabalhadores corriam contra o tempo para terminar a arena para as competições de vôlei de praia. O Comitê Organizador dos Jogos de Londres promete que tudo estará finalizado até sexta-feira. E há obras de metrô atrasadas. Waterloo, uma das mais usadas estações para chegar ao centro de Londres e de onde partem os trens para Eton Riverside, que sediará a prova de remo nas proximidades do Castelo de Windsor, está funcionando normalmente, mas ainda em obras. A revitalização de Bond Street, antiga estação de metrô, ao lado de Picadilly Circus, não ficou pronta.

Realidade. Mas é também verdade que o principal está feito. A antes decadente região de Stratford, no extremo leste londrino, negligenciada desde os bombardeios da Segunda Guerra Mundial e, em seguida, da debandada da indústria para outras zonas longe da cidade, foi transformado em um moderno centro urbano, de prédios, hotéis e lojas, além do complexo esportivo, onde está o Estádio Olímpico, obra de 486 milhões de libras (quase 1,3 bilhão de reais) e 10 mil toneladas de aço e o Centro Aquático, de 269 milhões de libras e cadeiras para 17.500 espectadores.

Ficam também no Parque Olímpico as arenas de polo aquático, basquete, handebol, o centro de hóquei, além de quadras de tênis, um velódromo para ciclistas. Toda essa estrutura, exceto o Estádio Olímpico e o Parque Aquático, será reformada e reaproveitada para outras funções depois dos jogos, adequados ao projeto urbanístico que ficará como legado da Olimpíada na região.

A Vila Olímpica, hoje com capacidade para 17.320 pessoas, será transformada em residência para 6 mil habitantes e uma escola para 1.800 crianças. O Centro de Imprensa será transformado em escritórios.

Os ingleses reclamam do trânsito, do dinheiro gasto, das linhas de metrô e ônibus desviadas para atender ao público dos jogos - e, é claro, do tempo. É parte da cultura, assim como a pontualidade. Mas à medida em que as obras foram surgindo no horizonte londrino, e também o sol, o clima da Olimpíada começou a ganhar os ingleses. "Que venham os Jogos!", publicou o jornal britânico The Independent na capa do caderno especial de Olimpíada, ontem. "Sete anos se passaram. Tivemos alguns momentos difíceis. Mas agora, finalmente, a Grã-Bretanha está na reta final para o maior espetáculo da terra".

Até os mais críticos vão se rendendo. "Este tem sido um verão de oscilações de humor vertiginosas, de uma Grã-Bretanha bipolar. O céu da economia é tão sombrio como o clima, a desgraça dos bancos se aprofunda, a mídia ainda está de julgamento (pelo escândalo de grampos telefônicos envolvendo o tabloide britânico News of the World, o mais vendido do país)", escreveu o colunista Matthew d'Ancona no The Sunday Telegraph. "Mas, nesta sexta-feira, esse clima de miséria e apreensão será suspenso mais uma vez quando a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos estiver sendo transmitida em todo o mundo". Que venham os Jogos.

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