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Campeonato Mundial de Padel/Divulgação
Campeonato Mundial de Padel/Divulgação

Com uma quadra no quintal e um acordo rápido com a TV, o padel ganha transmissão ao vivo

Modalidade parecida com o tênis ganha espaço enquanto os demais esportes estão paralisados pela pandemia

Christopher Clarey, The New York Times

08 de abril de 2020 | 15h20

Os esportes transmitidos na TV praticamente desapareceram na era do novo coronavírus, mas uma exceção improvável surgiu recentemente no canal ESPN3: o "Campeonato Mundial de Padel 2020". Trata-se de um nome bastante grandioso para um torneio improvisado transmitido ao vivo de uma quadra de quintal em Wilton, Connecticut. Participam dele quatro homens que disputam um esporte pouco conhecido em casa, sem nenhuma premiação em dinheiro envolvida.

"Para o padel, é o palco de mais destaque em que já estivemos", disse Mark Parsons, que acabou ficando com o título, mas não pôde levar o troféu para casa. “O sujeito que trouxe o troféu era o único que podia tocá-lo", disse Parsons. "Tentamos ao máximo respeitar o distanciamento social."

Com os esportes profissionais e universitários fechados em praticamente todo o mundo, criou-se para as modalidades menos conhecidas uma breve janela na qual estas podem receber mais atenção durante a pandemia.

Burke Magnus, vice-presidente executivo de aquisições de conteúdo e programação da ESPN, disse em comunicado que uma das metas da emissora era entreter os fãs por meio de"eventos temáticos e desafiadores que vão oferecer diversão em um momento em que praticamente não há esportes ao vivo para assistirmos".

O padel - disputado em ambiente externo, mesmo em temperaturas abaixo de zero, em uma versão reduzida de uma quadra de tênis fechada por uma cerca que mais lembra uma jaula - foi uma novidade de uma era estranha e sensível das disputas ao vivo. Os esportes de equipe e de contato não funcionam bem agora. Jogadores de basquete, pilotos de corrida e ciclistas estão disputando no videogame, e a ESPN reprisou recentemente "The Ocho", programa anual de esportes inusitados como salto de rochas e arremesso de machado.

Há sem dúvida mais tentativas de organizar eventos esportivos ao vivo. O campeonato de basquete em trios Big 3, do qual participam alguns ex-astros da NBA, pensou em manter certos jogadores em quarentena em uma casa, transmitindo seu cotidiano e as partidas que jogarem. Fala-se em uma partida amistosa de golfe envolvendo Tiger Woods e Phil Mickelson, bem como amistosos de tênis realizados em casa.

Magnus disse na segunda feira que a ESPN também buscava se posicionar para transmitir jogos de campeonatos internacionais caso estas retomem as atividades antes que as americanas.

“Há sem dúvida uma demanda por partidas ao vivo", disse ele. "Talvez o momento represente uma oportunidade única de apresentar o torcedor a outras modalidades ou campeonatos menos conhecidos no mercado americano."

O padel nunca foi mostrado ao grande público, mas, na semana passada, o esporte era o único programa ao vivo na ESPN3 disputado fisicamente em um campo ou quadra.

Bob Considine, dono do site paddlepro.com, ajudou a organizar o campeonato de padel de uma hora para a outra, e disse ter se preocupado em manter o respeito diante do momento e dos temores dos fãs.

“A ideia não era contrariar a sociedade", disse ele. "Fiquei muito nervoso na semana que antecedeu o evento, pensando se estava fazendo a coisa certa ou não."

Apesar de confinados juntos em quadra, os participantes se esforçaram ao máximo para manter a distância. Para não ficarem a menos de um metro e meio uns dos outros, as partidas foram individuais, deixando de lado as duplas, formato mais comum do padel.

Cada participante usava uma luva na mão que não segurava a raquete, e cada saque era feito com bola própria. Na hora de trocar de lado, cada um passou pelo fundo da quadra, sem nunca jogar a bola com a mão para o adversário, preferindo em vez disso rebater com a raquete.

Fora da quadra, sentaram-se longe uns dos outros, e não houve público. Os únicos a assistir as partidas além dos jogadores foram os quatro membros de uma equipe mínima de TV. Em vez de trazer um caminhão de produção televisiva, eles usaram a conexão de internet da própria casa, resultando em uma transmissão de qualidade inconsistente. Também tiveram que improvisar quando uma câmera presa a uma das cercas se soltou.

Considine subiu em uma escada e segurou a câmera com as próprias mãos durante a final. "Fiquei lá em cima por quase uma hora", disse Considine. "Foi um pouco assustador, para dizer a verdade - 5 metros de altura, com eles distribuindo raquetadas para todo lado."

Para reduzir ainda mais o número de envolvidos, os jogadores também atuaram como comentaristas, acompanhando o narrador Brad Easterbrook em debates a respeito da próxima partida depois de terminarem um jogo.

As entrevistas após as partidas foram realizadas a uma distância considerável. "Eu faria qualquer coisa para ter de volta o mundo normal", disse Harry Cicma, cuja empresa independente de produção organizou o evento e fez o acordo com a ESPN. "Mas tinha gente entrando em contato comigo, pessoas tristes e deprimidas com a falta dos esportes ao vivo, e fiquei pensando em maneiras de fazer o esporte funcionar com segurança. Para o futebol, o beisebol e o basquete, precisamos de um espaço público. Mas o padel pode ser jogado no quintal de casa, um contra um, de maneira segura, e temos os melhores jogadores do mundo na região de Nova York."

De acordo com Considine, há apenas “100 mil ou 150 mil” jogadores de padel no mundo, quase todos nos Estados Unidos. Seu núcleo é a região suburbana de Nova York; o jogo foi inventado em Scarsdale em 1928. O melhor jogador do mundo, Johan du Randt, veio de carro de sua casa em Boston para participar do torneio.

O canadense Parsons, de 40 anos, é o terceiro no ranking mundial, e disse viver a "menos de sete minutos de carro" de onde o evento foi organizado. Como muitos dos melhores jogadores de padel, ele já foi jogador profissional de tênis. Foi integrante da equipe canadense que disputou a Copa Davis.

O torneio não pôde contar com muitos outros dos melhores jogadores, entre eles o americano Jared Palmer, de 48 anos, que ficou em primeiro no tênis de duplas e venceu o título de Wimbledon de 2001 com Donald Johnson.

Ainda que os participantes tivessem jogado pouco nas três semanas anteriores e raramente disputem partidas simples, Parsons espanou a ferrugem para vencer du Randt, sua antiga dupla, na final.

Quando a disputa acabou e eles se encontraram na rede, não houve aperto de mão. Em vez disso, eles tocaram as raquetes e rapidamente se afastaram. “Foi estranho não abraçar ou cumprimentar Johan", disse Parsons. "Jogamos juntos por muito tempo, mas, com sorte, logo as coisas poderão voltar ao que eram antes." / Tradução de Augusto Calil

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