Começa a lenda

Ronaldo parou e refletiu. Olhou para sua história e deve ter concluído que já havia passado a hora de desistir. O adeus do Fenômeno encerra um capítulo especial do futebol, de um atacante genial quando ainda havia resistência física e, principalmente, velocidade, numa combinação de força e técnica.

Paulo Calçace, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

O jogador reciclado pelo Corinthians, de carisma mundial e indestrutível, conseguiu, mais uma vez, dar a volta por cima. O cenário parecia o mais improvável: uma instituição ainda marcada pelo rebaixamento à Segunda Divisão. Nas últimas semanas, estava cada vez mais difícil analisar o momento e o comportamento de Ronaldo.

Acima do peso e sem mobilidade, a equipe deixou de funcionar em torno dele para suportá-lo em campo. Era o sinal de que necessário abraçar a história e não perdê-la de vista em mais uma tentativa de dar a volta por cima. Um jogador como Ronaldo, cercado por inúmeras limitações físicas, deve saber parar. Chegou a hora.

A relação do Corinthians com parte de sua torcida não é a melhor forma de levar um jogador a vestir a camisa do clube. A reação após a inesperada desclassificação da Taça Libertadores, contra o Tolima, também não foi das mais calmas. Mas Ronaldo não vai encerrar a carreira por isso. É pouco para quem sofreu tanto.

O Corinthians perde um notável parceiro comercial. Dentro de campo já não havia mais sentido. Ronaldo foi grande e continuará sendo, sem trocadilhos. Teremos hoje um dia histórico para o futebol.

O caso é diferente da saída de Roberto Carlos, onde ficou claro que o lateral soube se aproveitar do momento instável e inseguro para aceitar uma ótima proposta e se mandar. Dinheiro que poucos jogadores no topo do futebol recebem atualmente. O silêncio do amigo Ronaldo no Twitter ajuda a explicar.

Sub-20. Não se pode afirmar que ali estava o futuro do futebol brasileiro, mas com certeza o futuro passou por Arequipa, na fase final do Sul-Americano Sub-20, conquistado pela seleção de Ney Franco. De nível técnico irregular, o torneio mostrou que Neymar, titular da seleção principal, é realidade, é do tipo com autonomia sobre o que vem por aí. Depende exclusivamente dele.

A última partida foi espetacular, assim como Lucas, por quem o São Paulo aguarda com entusiasmo. O Brasil garantiu a vaga para os Jogos de Londres com um demolidor 6 a 0 sobre o Uruguai. A goleada refresca a importância do futebol brasileiro na formação de jogadores e como lidamos com o futuro. Infelizmente ainda não conhecemos a nossa verdadeira dimensão no difícil trabalho de produzir jogadores.

O talento brasileiro parece ser infindável, mas é preciso reformular algumas coisas. Ney Franco assumiu o controle da base pouco tempo antes de convocar o grupo. Mais uma vez a escolha dos nomes foi baseada nos jogadores que se destacam nas equipes principais de seus clubes. Enxergamos apenas a superfície. Há um mundo submerso para ser filtrado nessa categoria. Quantos bons ou ótimos jogadores não deixaram de ser observados pelo fato de ainda não terem chegado aos profissionais? Funcionou na emergência, como sempre, mas o sistema vai mudar, promete o treinador.

A joia santista atuou com maturidade, mesmo diante do rodízio de faltas e da crescente irritação dos adversários, vítimas das jogadas geniais de sempre. O torneio pode ter sido útil para Neymar compreender o que terá pela frente com o Santos na Libertadores a partir de amanhã. O menino mostrou maturidade.

Só para registrar, a competição foi mais uma das loucuras da Confederação Sul-Americana. Os finalistas disputaram 9 partidas em 30 dias, num formato maior do que a Copa do Mundo, mesmo com 22 equipes a menos.

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