Como andam suas contas?

Qual é a diferença entre R$ 420 milhões, R$ 400 mil e R$ 400? Nenhuma, quando essas cifras são apenas lidas nas páginas dos jornais. Mesmo quando são ditas, faladas em conversas comuns, não representam mais o que são.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2011 | 00h00

Dinheiro sempre expressou alguma coisa no mundo real, sempre traduziu imediatamente a quantidade e a qualidade dos bens que representa. Aparentemente, não expressa mais. Tratamos de cifras verdadeiramente astronômicas sem um piscar de olhos, aprendemos a aceitar com naturalidade algo que não devia ser natural.

No futebol, essa aceitação pacifica de cifras alucinantes já se tornou lugar-comum. Discutem-se salários de tirar o fôlego sem uma palavra de espanto, sem que assombrem mais ninguém.

O engraçado é que às vezes vejo pessoas que ganham pouco, que têm vida difícil, que pagam penosamente suas contas, falando e discutindo cifras 200, 500 vezes maiores do que jamais verão em suas contas bancárias. Pode ser que seja por isso que falem de forma tão descontraída: não conseguem vincular a cifra com os bens que ela pode comprar.

Não sei por que ultimamente esses números tem me chamado a atenção. Não vou nem falar na bagatela dos R$ 420 milhões que vão ser colocados no estádio do Corinthians pela Prefeitura de S. Paulo. Eu, da minha parte, ainda me espanto é com a quantia, talvez mais do que com qualquer outra coisa. Aliás, me pergunto por que R$ 420 milhões para o estádio? Por que não R$ 450 milhões? ou R$ 500 milhões? Ou ainda meros R$ 235 mil? Quem sabe na verdade quanto custa um estádio? Alguém divulgou o orçamento detalhado de alguma obra, onde constassem todas as despesas, o valor de cada item, inclusive os lucros? Nunca vi um documento desses. Vejo apenas um número atirado sem qualquer explicação, contando com o fato de que números perderam sentido.

O mesmo Corinthians oferece R$ 89 milhões por Tevez. Sim, R$ 89 milhões. Mais uma vez: R$ 89 milhões! Não vou discutir se o Corinthians precisa de Tevez, mas a quantia. Aliás, não vou discutir, peço que um eventual leitor dessa coluna apenas pense em R$ 89 milhões. Não muito, um átimo, alguns instantes.

Uma vez que a quantia adquira em nossa mente a monstruosa proporção que realmente tem, a próxima pergunta é: de onde vem tanto dinheiro? Esse é outro mistério que, cansados de tentar desvendar, acabamos aceitando como dado, como se fosse alguma coisa com a qual ninguém tivesse nada com isso.

Como um clube como o Flamengo, tradicionalmente envolvido em crises financeiras, passa subitamente a contratar jogadores com salários fora de qualquer normalidade, e ainda, a se crer nas notícias da imprensa, se dá ao luxo de apresentar proposta de R$ 500 mil por mês, como essa feita a Kleber?

E daí passamos ao próprio Kleber. Ouço discussões se é justo que ganhe menos que Lincoln, como se estivesse em discussão os salários de algum assalariado de empresas comuns. O fato de Kleber já ganhar quase R$ 300 mil e, principalmente, o que esses R$ 300 mil representam em poder de compra, jamais entra na discussão.

As cifras desse salário são incrivelmente rebaixadas para o nível de uma conversa de bar, onde se comenta a situação de um colega de escritório, um igual. Também não há nenhuma pergunta sobre quanto então seria o salário do Lincoln.

Repito, gostaria de saber de onde vem tanto dinheiro. Não estou sendo moralizante nem julgo Kleber, Lincoln, Flamengo, Corinthians, etc. O que me intriga é a aceitação sem refletir o que significa um número, uma quantia, uma quantidade. Me dizem que isso vem de fora, que é imposição dos salários que lá são pagos. É possível, e talvez seja essa falta de respeitar dinheiro uma das causas da crise em que está afundada a Europa inteira.

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