Como é chato realizar sonhos

Tenho um amigo que adora carros. Aliás, a paixão pelos automóveis se transformou em uma verdadeira obsessão para ele. Sabe aquele cara que compra todas as revistas especializadas, lê semanalmente a tabela de preços publicada pelo Jornal do Carro e leva ao lava-rápido o próprio xampu automotivo (importado, claro!) para cuidar do possante? Pois é, o camarada é doido e sua grande curtição é sempre ter na garagem um modelo do ano. A turma até brinca que a referência utilizada por ele para trocar o carro é o momento em que aquele cheirinho de novo desaparece.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

No ano passado, meu amigo viveu um momento especial. Depois de dirigir tantos automóveis e se planejar durante anos, ele finalmente comprou o modelo de seus sonhos. Um superesportivo de cair o queixo, daqueles que custam mais do que o patrimônio que a maioria da população não consegue acumular em uma vida.

Um ano depois, encontrei esse compadre. E qual foi minha surpresa quando percebi que aquele magnífico modelo esportivo já não estava mais com ele. "Pô, esse carro não dá. Você não acreditaria no preço do IPVA e do seguro. E as revisões, que custam quase o preço de um carro popular zero quilômetro. Assim não dá, isso é um absurdo", esbravejou, indignado.

Enfim, relatei esta módica passagem apenas para ilustrar meu pensamento quando ouvi as reclamações dos santistas a respeito do desgaste físico e emocional de disputar duas competições ao mesmo tempo. Ora bolas, os grandes clubes dão à conquista de uma vaga na Libertadores praticamente a mesma importância de um título brasileiro, uma espécie de sonho para alguns deles. E traçam todo o planejamento para, oxalá, disputar a competição mais importante do continente na temporada seguinte. E o que fazem quando conquistam o objetivo? Lamentam, reclamam.

É óbvio que o calendário do futebol brasileiro pode ser melhorado e que longas viagens seguidas prejudicam os atletas. Mas daí criar toda essa celeuma, sinceramente, parece discurso de gente mais preocupada em justificar um eventual insucesso do que uma discussão embasada. Basta analisar alguns argumentos, como aquele de que os jogadores, hoje, correm muito mais do que 40 anos atrás. Isso é verdade, só que as pessoas que dizem isso fazem questão de omitir que, atualmente, a estrutura de treinamento, condicionamento e preparação de um atleta também é infinitamente superior.

Em vez de reclamarem de suas próprias conquistas, dirigentes, atletas e integrantes da comissão técnica deveriam se preocupar mais com a formação dos elencos. Aí, sim, está parte do segredo para suportar a (comum em todo o mundo) rotina de duas partidas por semana. No momento em que as receitas dos clubes brasileiros crescem, talvez seja o momento de a cartolagem mudar concepções. Hoje em dia, montar um bom time titular já não é garantia de objetivos alcançados.

TROCA DE PASSES

"Vocês da imprensa esportiva reclamam de tudo. Criticam jogadores e árbitros sem nunca terem sido profissionais e falam mal de dirigentes sem nunca terem administrado um clube. Chatos!"

XAVIER DE ALMEIDA

SÃO BERNARDO DO CAMPO-SP

Nota da coluna: Meu caro Xavier, concordo com você. Que tal montarmos um periódico no qual os jornalistas de economia tenham de ser ex-presidentes do BC e os de política tragam no currículo passagem pela presidência da República?

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