Tobias Schwarz / AFP
Tobias Schwarz / AFP

Como os melhores corredores refazem os planos de suas corridas

"Lá fora, você tem de fazer tudo o que pode para manter a cabeça positiva, e eu fiquei positiva o tempo todo", disse Sara Hall depois de ficar em terceiro lugar na Maratona de Chicago. "Isso foi uma vitória por si só"

Talya Minsberg / New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 20h00

Vamos chamar de uma grande reelaboração. Depois de uma grande corrida, atletas profissionais e amadores muitas vezes enfrentam o mesmo desafio: como reagir quando uma prova não sai de acordo com o plano A, B ou C. É uma coisa que Ryan Hall conhece bem. Duas vezes atleta olímpico e o único americano a correr uma maratona em menos de 2 horas e 5 minutos, Hall teve de fortalecer seus músculos mentais como atleta e agora como treinador de corredores - inclusive de sua esposa, Sara Hall, a segunda maratonista mais rápida da história americana.

Depois de uma grande corrida, atletas profissionais e amadores muitas vezes enfrentam o mesmo desafio: como reagir quando a corrida não sai de acordo com o Plano A, B ou C.

É uma coisa que Ryan Hall conhece bem. Duas vezes atleta olímpico e o único americano a correr uma maratona em menos de 2 horas e 5 minutos, Hall teve que fortalecer seus músculos mentais como atleta e agora como treinador de corredores - inclusive de sua esposa, Sara Hall, a segunda maratonista mais rápida da história americana.

“Passei por esse processo ao longo da minha carreira e continuo a cultivá-lo como treinador”, disse Ryan Hall por telefone na semana passada. “Quando você faz uma corrida ruim, não quer falar sobre isso com seus amigos ou colegas de trabalho. Mas aprendi que, na verdade, cada uma dessas conversas é uma oportunidade de reelaborar essa narrativa na minha própria mente e com as outras pessoas”.

Isso pode levar algum tempo. Hall aponta sua décima maratona, nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, como uma das decepções mais difíceis de sua carreira. Ele entrou na corrida como candidato ao pódio e, no final, estava absolutamente derrotado. Hoje ele consegue ver essa experiência de uma forma positiva, disse ele, mas, depois da corrida, levou três anos para chegar lá. “É uma habilidade que você tem que aprender”, disse ele.

Para algumas pessoas, conversar sobre uma corrida decepcionante pode ser uma experiência de isolamento, disse Justin Ross, psicólogo clínico. Ele chama o processo de luto privado de direitos. “Usamos esse termo quando a perda de algo não é compreendida pelas outras pessoas e vemos isso acontecendo com muita frequência com corredores amadores”, disse Ross. “A maratona é tão importante para nós que, quando termina, as pessoas em geral, nossa família e amigos, elas não entendem. Por que é tão difícil assim?”.

Depois da Maratona de Chicago e da Maratona de Boston deste ano - ambas corridas em clima quente, o que desacelera os atletas - muitos corredores estavam ansiosos para reelaborar a forma como pensavam sobre suas corridas.

Sara Hall estava entre eles. Depois de não conseguir se classificar para as Olimpíadas de Tóquio nas eliminatórias dos Estados Unidos no ano passado, ela voltou a se concentrar em outro grande objetivo: estabelecer um novo recorde americano. Ela correu a Maratona de Londres - um evento exclusivo para a elite, realizado no ano passado em 4 de outubro, em vez de sua data usual, em abril - e marcou um recorde pessoal: 2:22:01, ficando em segundo lugar. Em 20 de dezembro, ela correu no Marathon Project em Chandler, Arizona, e a encerrou em 2:20:32, a segunda maratona mais rápida executada por uma mulher americana.

Ela estava a menos de um minuto do recorde americano - 2:19:36, estabelecido na Maratona de Londres por Deena Kastor, em 2004. E mirou a Maratona de Chicago de 2021 com o recorde em mente.

“É difícil não imaginar as coisas indo de uma certa maneira”, disse ela, dias depois de terminar em terceiro lugar em Chicago, com o tempo de 2:27:19. “Eu tinha imaginado um dia de clima ótimo, em que eu estaria na caçada pelo primeiro lugar, para estabelecer um recorde americano”.

Ao contrário dos atletas profissionais de muitos esportes, que têm a oportunidade de compensar um desempenho decepcionante quase semanalmente, muitos corredores competem em menos de meia dúzia de corridas por ano. Nas Olimpíadas de Tóquio, alguns atletas choraram abertamente quando ficaram desapontados com os resultados da corrida. Outros conseguiram reelaborar rapidamente suas narrativas no momento em que postaram nas redes sociais.

“A palavra ‘desapontado’ não parece forte o suficiente”, escreveu Scott Fauble no Instagram, na segunda-feira, após sua 16ª colocação na Maratona de Boston. “Acho que não preciso insistir neste fato, então vou me ater a alguns pontos positivos. As multidões eram incríveis - vocês me carregaram até a linha de chegada nos últimos 16 quilômetros. Meu corpo parece mais ou menos inteiro. Haverá mais corridas no futuro - mais chances de corresponder às minhas expectativas”.

“Esta corrida certamente não foi tudo que esperávamos”, postou Reed Fischer após seu nono lugar na Maratona de Chicago, “mas é um grande passo na direção certa e prova (pelo menos para mim) que eu pertenço a esta etapa e a este evento”.

Nesse processo, disse Ross, profissionais e amadores são capazes de normalizar o sentimento de duas coisas ao mesmo tempo: tristeza e gratidão.

“Acho que existe uma diferença realmente poderosa que precisamos fazer entre as metas de resultados e os padrões de desempenho”, disse Ross. As metas de resultados geralmente são metas de tempo ou colocação. Os padrões de desempenho podem ter muito mais a ver com a mentalidade.

“Quando não estamos num dia bom, ficamos perdidos e chateados porque conseguimos reconhecer que a meta de resultado está fora de alcance. Daí a importância de criar padrões de desempenho. A questão não é o resultado. É a maneira como você enfrenta as coisas”.

É um conceito que Sara Hall levou a sério nos dias seguintes à Maratona de Chicago. Ela tentou focar no processo, buscar pequenas vitórias e identificar o próximo objetivo.

“Lá fora, você tem que fazer tudo o que pode para manter a cabeça positiva, e eu fiquei positiva o tempo todo”, disse ela. “Foi uma vitória por si só. Disse a mim mesma que ainda estava na corrida. Eu me concentrei na qualidade do meu ritmo e em como estava grata por participar da corrida”.

Não será nenhuma surpresa vê-la correndo bem novamente. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.