Brian Nevins/Red Bull/The New York Times
Brian Nevins/Red Bull/The New York Times

Como Zeb Powell, um jovem nascido no sul dos EUA, se tornou 'o rosto negro do snowboard'

Aos 21 anos, atleta da Carolina do Norte é um dos talentos da modalidade que mais cresce e ganha reconhecimento

Michael Venutolo-Mantovani, The New York Times

28 de abril de 2021 | 15h01

Num esporte cujos atletas mais famosos são com frequência brancos, normalmente vindos das mais impressionantes cadeias montanhosas do mundo, Zeb Powell, um jovem negro nascido no sul dos Estados Unidos, é um dos talentos do snowboard que cresce mais rapidamente e ganha mais reconhecimento. Esse é um status que Powell, de 21 anos, espera usar para inspirar uma nova geração de snowboarders que ainda não se consideram profissionais do esporte.

“Até agora, sou tipo o rosto do snowboard negro e acho isso uma loucura”, afirmou Powell, que nasceu na Carolina do Norte, em sua casa em Vermont, onde passou grande parte do inverno se recuperando de uma ruptura de menisco. A lesão o impediu de participar este ano dos X Games, competição na qual conquistou uma medalha de ouro em 2020, na sua temporada de estreia.

Powell disse que ficou decepcionado por ficar fora da competição, mas conhece há muito tempo o poder de sua atuação tanto nas pistas de snowboard quanto nas telas. À medida que sua influência on-line aumenta - mesmo nos meses entre a primavera e o fim do outono - sua habilidade de se comunicar com jovens atletas que não se consideram snowboarders profissionais também aumenta.

Ele pode ligar sua rápida ascensão a uma única manobra que realizou na competição de Knuckle Huck, nos X Games de 2020. Nas disputas de snowboard Knuckle Huck, os competidores realizam criativas manobras a partir de um cocuruto de uma rampa construída artificialmente.

Na primeira participação daquela noite, Powell realizou uma manobra de backflip que causou frenesi entre comentaristas, fãs e praticantes de snowboard em todo o mundo. Era uma manobra em parte inventada por Powell. No instante em que atingiu o cume da rampa, pouco antes do salto, ele deslizou de costas na neve e se lançou em backflip total, agarrado à prancha em posição de supino. Além de levar para casa uma medalha de ouro, ele também dobrou seu número de seguidores nas redes sociais da noite para o dia.

A medalha e os novos seguidores foram duas vitórias para Powell. Apesar de gostar de competir, ele sempre viu essas competições como uma atividade necessária para construir e aumentar sua visibilidade enquanto atleta. Ele é parte de uma geração de atletas que consideram a função de influenciador digital tão gratificante quanto competir - e certas vezes até tão lucrativa quanto.

“Depois dos X Games, várias pessoas começaram a me procurar para dizer que sirvo de inspiração para elas”, afirmou Powell. “Eu não estava buscando isso, mas agora que está acontecendo, penso no que posso fazer com isso.”

Com o joelho em processo de cura, Powell continua se exercitando nos vídeos e expandindo seu alcance por meio das redes sociais, além de ser o rosto negro do snowboard e servir de exemplo para jovens negros praticantes do esporte. Isso o mantém ocupado durante o afastamento das pistas e a pandemia.

Nessas férias, Powell trabalhará como treinador no High Cascade Snowboard Camp, em Mount Hood, Oregon. Ele espera passar mais tempo ensinando a prática do esporte, atendendo entidades como Hoods to Woods e Chill Foundation, que ensinam esportes de inverno a jovens de origens menos favorecidas.

Powell percorreu um longo caminho desde que começou a andar de skate na minúscula Waynesville, Carolina do Norte, até o mundo do snowboard profissional e sua crescente coleção de patrocinadores e prêmios. Ele aprendeu a praticar o snowboard do lado errado da prancha. Um instrutor que trabalhava no resort de esqui mais próximo, a Cataloochee Ski Area, no Maggie Valley, Carolina do Norte, ensinou Powell, aos 7 anos, a subir no snowboard com o pé esquerdo na frente da prancha, mas ele percebeu rapidamente que era chamado de “snowboarder canhoto” e mudou de posição, colocando o pé direito à frente.

“Sempre gostei de sair voando pelo ar”, afirmou Powell, contanto que era a cobaia de seu grupo de amigos. “Meus amigos sempre me faziam tentar manobras difíceis, e eu sempre caía de pé.”

Ele adaptava ao snowboard as manobras que aprendia no skate e rapidamente superava os colegas de turma. Logo, os pais dele o mandaram para o acampamento de férias de snowboard de Woodward Copper, no Colorado, onde seu talento foi reconhecido por um dos treinadores, Chad Otterstrom.

“Nunca dava para saber que manobra ele ia fazer, e ele sempre caía de pé”, afirmou  Otterstrom, um snowboarder profissional. Ele encorajou Powell a se matricular na Stratton Mountain School, em Vermont, uma escola particular de ensino médio com foco em esportes de inverno de competição.

Outra vez, assim como nas pistas da Copper Mountain e em Cataloochee, Powell era um dos poucos atletas não brancos. Apesar de nunca ter se sentido discriminado enquanto atleta negro em um esporte praticado predominantemente por brancos, afirmou ele, sua habilidade de praticar o snowboard em um nível tão elevado de excelência serviu de proteção.

“Quase todos eram brancos”, afirmou a mãe de Powell, Val, professora de jardim de infância, na casa da família, em Waynesville. “E várias famílias também tinham casas no resort de montanha.”

No último ano do Ensino Médio, Powell tinha vários contratos com patrocinadores e viajava pelo país para participar de competições, vídeos e campanhas de redes sociais. O tamanho da montanha em que aprendeu o esporte fez de Powell um snowboarder perfeitamente adaptado à disputa de Knuckle Huck. Esse estilo pode ser o mais próximo ao praticado em parques de neve e montanhas por snowboarders amadores, diferente da modalidade slopestyle, na qual os atletas descem encostas de montanhas superando vários tipos de obstáculos artificiais, e dos halfpipes, que ficaram famosos com Shaun White, na Olimpíada de 2006.

Conforme vídeos de Powell voando por cima de tocos de árvores ou se arrastando sobre canos começaram a pipocar on-line, seu perfil começou a ser cada vez mais notado. “Quando comecei no snowboard, não tive nenhuma inspiração, a não ser uns poucos snowboarders mais velhos na nossa montanha”, afirmou Powell. “Mas quanto mais snowboarders negros houver, mais snowboarders negros aparecerão.”

“Estou causando impacto com os vídeos”, acrescentou ele, mencionando os jovens  snowboarders que o têm como exemplo e se imaginam crescendo no esporte. “Eles são a próxima geração do snowboard. São os próximos Zeb Powell.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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