Concentrando em números

Analisar os números não é necessariamente um gesto contra a criatividade no futebol. Por exemplo: no clássico entre São Paulo e Santos, domingo passado, qual foi o time que mais driblou e chutou a gol? Se você pensou no "futebol arte" dos meninos da Vila, errou. O São Paulo finalizou 17 vezes, contra 13 do Santos, e driblou nada menos que cinco vezes mais, 25 a 5. Além disso, o Santos fez mais faltas, 19 a 17, e cruzou mais, 18 a 13. Outro número: o São Paulo jogou com um a menos a partir dos 33 minutos do primeiro tempo em diante, ou seja, praticamente dois terços do jogo, e mesmo assim o Santos não conseguiu usar os espaços com suas qualidades técnicas.

DANIEL PIZA, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

Portanto, quem diz que o São Paulo representa o "futebol força" ? aquele que menospreza a habilidade, comete muitas faltas e ganha os jogos em lances de bola parada e chuveirinhos ? não pode descrever o que se passou no Morumbi. Hernanes foi o melhor jogador em campo e fez um belo gol depois de driblar dois adversários; e Dagoberto, marrento e pipoqueiro como é, fez o seu e deu arranques e dribles até em Neymar. Assim o time conquistou o empate com dez jogadores. Foi punido no final, com falha de Rogério em cobrança de falta, mas isto não significa que o Santos tenha jogado melhor. Paulo Henrique não acertou em momentos cruciais e Robinho ficou longe da área.

Um jogo é uma narrativa, não um balanço contábil, e os números dão pistas do que aconteceu. A posse de bola foi do Santos, 55%, e a equipe também fez alguns lances de categoria, como a assistência de Neymar para André no segundo gol e o chute de Robinho no travessão. Mas, como o próprio Neymar disse, eles jogaram metade do que podem. Em parte porque relaxam demais depois de abrir vantagem, o que pode ser atribuído à imaturidade (ainda que Léo, Edu Dracena, Robinho e Arouca sejam bem experientes) ou vaidade. E em parte porque sabiam que têm vantagem do empate e que o jogo da volta será em Santos. Se não opuserem concentração e imaginação, colocam outra mão na taça.

Os homens de preto. Neymar não deveria ter recebido amarelo por derrubar Dagoberto sem violência num canto do gramado. Marlos não deveria ter recebido o primeiro amarelo pelo mesmo motivo; logo, não poderia ter sido expulso ? o que afetou a igualdade de condições e o nível técnico da partida. Juiz brasileiro na dúvida prefere sempre dar a não dar cartão, porque se o lance seguir e culminar em gol as críticas serão mais duras. Por isso também evita dar pênaltis que não viu direito, como no jogo entre Flamengo e Vasco, em que o auxiliar da linha de fundo, que viu o toque de mão de Willians, não pôde assinalar... E isto no único lugar do mundo onde as transmissões de futebol têm comentaristas de arbitragem. Eis um traço cultural curioso: ao dar tanta importância ao futebol, o brasileiro atrapalha o futebol.

Tensão Pré-Mundial. O jornal Lance divulga toda semana um balanço das atuações dos jogadores brasileiros "selecionáveis", mas nem é preciso detalhar muito para reduzir as expectativas. Certo, o time de Dunga ganhou duas competições (Copa América e Copa das Confederações, embora não a Olimpíada) e bateu, entre outros, Argentina e Inglaterra, depois de parar de escalar três volantes e nomes como Afonso. Mas a Copa é muito mais importante e muitos jogadores não estão em boa fase técnica e/ou física.

Kaká não se acha no Real Madrid. Luís Fabiano viu sua média de gols despencar no Sevilha. Adriano não tem jogado. Felipe Melo faz lambanças na Juventus. Kleberson está na reserva. Josué, Gilberto Silva e Elano continuam apagados. Até Lúcio e Juan têm sido contestados. E Robinho está bem, mas convenhamos que, para uma seleção que já venceu com Pelé, Garrincha, Gérson, Romário e Ronaldo, isso não inspira muita confiança.

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