Concentrando os holofotes

Qualquer pessoa que goste de futebol há de lamentar que Neymar e Ronaldo não estarão em campo hoje na Vila, no clássico entre Santos e Corinthians. Mas convém olhar a situação do ponto de vista de quem não é apenas torcedor. Ronaldo, como disse Ugo Giorgetti no domingo passado, agora parece que só fará "participações especiais"; está cada vez mais difícil imaginá-lo numa longa sequência de partidas até o final do ano, embora tenha todo o direito - e todo o mérito - de encerrar sua carreira em campo, não no departamento médico. Além disso, Iarley, desabituado a jogar entre os zagueiros, começou a fazer gols com maior frequência e deve receber apoio para continuar assim, já que o clube não teve a capacidade de contratar um centroavante de qualidade. Ronaldo é que deve reconquistar seu espaço; entrar aos poucos em momentos oportunos e mostrar que pode ajudar, como mostrou contra o Atlético-PR. Mas não se pode descartar Iarley como se fosse chuteira velha.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2010 | 00h00

O caso Neymar é muito mais delicado. Depois das primeiras reações a seu comportamento dentro de campo, como a queixa de Chicão de ter levado um chapéu com a partida parada, muitos saíram defendendo o menino da Vila porque seria herdeiro de um estilo artístico e provocador que seria a marca do futebol brasileiro. O tempo, porém, mostrou que seu comportamento é bem diferente da saudável irreverência que todo jovem talento deve ter, da bendita petulância que move os craques em afirmação; está mais para mascarado, marrento, arrogante. Não é apenas por ser "liso" com a bola nos pés que irrita zagueiros e técnicos adversários; é por gostar de humilhar, de desrespeitar - até mesmo seu próprio treinador, Dorival Júnior. Logo, ficar fora de alguns jogos é um puxão de orelhas inadiável. O Santos e o torcedor pagam o preço, mas preço maior seria passar a mão em sua cabeça mole. Ele parece destinado a ser um grande? Sim, mas destinos se jogam fora também.

Os dois casos pessoais, acima de tudo, não devem obscurecer a perspectiva de um bom jogo e a situação dos dois times. O Corinthians, obviamente, chega com mais confiança e mais qualidade. É líder de novo, com um jogo a menos que o Fluminense, e vem de duas boas partidas. Tem bons jogadores na defesa, nas laterais (Roberto Carlos merecendo pedidos de desculpas de todos que duvidaram de sua forma física e técnica) e sobretudo no meio, onde Jucilei, Elias, Paulinho e Ralf são opções que nenhum outro clube tem, por sua versatilidade em desarmar sem falta e apoiar com rapidez. Bruno César está um pouco abaixo do que vinha antes, mas já esboçou reação. Não há um craque entre os titulares, mas há muitos bons jogadores. Com a queda de produção do Fluminense, em função de desfalques (Emerson, Fred, Diguinho, Deco no último jogo), a liderança ficou em bons pés.

Já o Santos sem Robinho, André (vendidos) e Ganso (contundido), com Neymar tendo ataques precoces de estrelismo, perdeu muita qualidade. Ainda tem alguns jogadores experientes e novatos promissores e sempre é perigoso dentro de casa, mas aos poucos começa a perder espaço na tabela para times mais coesos, como Botafogo e Cruzeiro. Este em especial, depois da chegada de Montillo, ganhou um diferencial técnico que antes não tinha, apesar do empate com o Botafogo. O Internacional, que o Corinthians enfrenta no próximo domingo, no Beira-Rio, é outro que tende a ir mais longe, se bem que carece de bom banco de reservas e ainda parece viver ressaca da Libertadores. Os seis times que citei ainda podem chegar ao título.

O fato de que os três melhores jogadores do campeonato no momento sejam três meias de criação argentinos - Montillo, D"Alessandro e Conca - diz muito sobre o futebol brasileiro no momento. Mas o campeonato começou a melhorar, e aquilo que o torcedor gosta de ver - jogadas de talento - não tem nacionalidade. Se Ronaldo se despedir como merece e Neymar botar a cabeça no lugar, tanto melhor. Mas vamos concentrar os holofotes nos que estão produzindo futebol.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.