Concerto espanhol

Tentei buscar outro tema, mas não consegui. Não por falta de assunto, mas por ser impossível ignorar o que o Barcelona realizou no domingo e tem feito já há alguns anos na Europa. O espetáculo apresentado no Japão provocou um fenômeno que nunca tinha visto em quase 15 anos de carreira: repercussão e mobilização até mesmo entre os que não gostam de futebol. Mais até do que em grandes títulos conquistados por nossos clubes.

EDUARDO MALUF, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h02

Fui ao dentista, no início da semana, em Londrina. Dr. Hilton deu "boa tarde" e, antes de falar sobre o tratamento, suspirou: "Nossa, foi incrível o que fez o Barcelona". Uma tia que raramente vê jogos e não tem a menor ideia, por exemplo, de como funciona a regra do impedimento se disse impressionada: "Parecia outro esporte, não futebol".

No intervalo do jogo, na manhã de domingo, meu pai não se conteve e pegou o telefone para exaltar esse "time extraterrestre": "Fazia tempo que não via nada igual, está parecendo um confronto entre profissionais de primeira e um catadão da várzea".

Todos têm razão. O comentário mais incômodo para nós, brasileiros, certamente foi o último. O Santos parecia mesmo time de várzea. Mas é o melhor que temos aqui no País. E continua sendo muito bom. Tem um técnico respeitado, um dos melhores jogadores do mundo e alguns atletas de alto nível.

O que houve então? Nada de diferente do que havia ocorrido, por exemplo, com o Real Madrid uma semana antes. A equipe de Cristiano Ronaldo, com o apoio da torcida, saiu na frente, mas depois sofreu três gols e escapou de levar pelo menos uns cinco.

O Real é ruim? De jeito nenhum. O Barcelona é que extrapola tudo o que podemos definir como bom futebol. Aliás, os torcedores deveriam usar smoking ou, pelo menos, paletó e gravata para ver esse conjunto se apresentar. Como se fossem a um concerto de Mozart na Ópera de Viena.

Não vi o Santos de Pelé jogar, infelizmente. Assisti, por videoteipe, à Laranja Mecânica dos anos 70 e acompanhei, já fanático pela bola, a nossa seleção de 82, a Argentina de 86, o Flamengo de Zico, o Corinthians de Sócrates, o São Paulo de Raí, o Palmeiras da Parmalat... Nenhum desses (descarto o Santos na comparação) para mim foi superior ou mesmo igual ao Barcelona de hoje.

É óbvio que precisamos respeitar a distância de uma época para a outra e as mudanças no futebol. E temos de levar em consideração o calor do momento. Todos estamos extasiados, impressionados, boquiabertos com o talento do grupo dirigido por Pep Guardiola. Mesmo pesando todos esses fatores, a equipe catalã fica na frente.

Os grandes times citados tinham nomes espetaculares e jogo vistoso. Mas sofriam derrotas e deixavam o oponente se divertir um pouco. Os adversários do Barcelona não se divertem, não curtem a partida. Correm para um lado, correm para o outro, mas raramente tocam na bola. Devem se sentir num jogo de "bobinho", implorando pelo fim do tormento.

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