Wilton Junior/Estadão
Nuzman (esquerda) na sede da PF, no Rio de Janeiro. Wilton Junior/Estadão

Confederações defendem cautela diante de acusações contra Nuzman

Crise no COB, com suspeita de compra de votos para o Rio, deixa ‘família olímpica’ refém das investigações

Marcio Dolzan e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2017 | 17h00

Atletas e confederações estão tentando separar o lado esportivo do político na crise do movimento olímpico brasileiro, após as acusações de que a escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016 tenha sido comprada. O momento turbulento gera incertezas óbvias nas preparações dos atletas e a falta de recursos pode até se acirrar caso a imagem do Comitê Olímpico do Brasil (COB) seja arranhada.

A crise iniciou há quase duas semanas, quando a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Unfair Play. Entre os investigados estão o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), que responde a 13 processos na 7.ª Vara Federal Criminal da cidade e já foi condenado a 14 anos e 2 meses de prisão pela Justiça Federal de Curitiba; o empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, conhecido como Rei Arthur, considerado foragido; e o presidente do COB e do Comitê Rio-2016, Carlos Arthur Nuzman. Ele foi apenas convocado para prestar esclarecimentos e negou qualquer ato ilícito no processo.

Por ora, dirigentes esportivos pregam a cautela. Ninguém quer bater. Mesmo os mais críticos à gestão de Nuzman, como Alaor Azevedo, presidente da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa e oposição ao dirigente no último pleito do COB – único a votar contra –, preferem esperar o desenrolar da investigação para uma posição. A Confederação Brasileira de Vela, por exemplo, disse em nota que os projetos estão sendo realizados normalmente.

“O trabalho e o planejamento da CBVela seguem normais neste início de ciclo olímpico, sempre tendo os velejadores como foco principal. Em dezembro, haverá a Copa Brasil de Vela em Ilhabela, reunindo os principais nomes das classes olímpicas no litoral de São Paulo.”

Pedro Cavazzoni, CEO da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve), garante que os atletas de inverno já estão na reta final de preparação. “A escolha das sedes olímpicas é realizada pelo COI e seus membros e, portanto, sem relação com a CBDN, que tem como objetivo a preparação esportiva dos atletas. Estamos na reta final de preparação para os Jogos, sendo esse o primeiro ciclo da entidade sob o novo planejamento de longo prazo que foi lançado em 2015, e que já começa a dar os primeiros resultados, como por exemplo, o recorde de atletas com índice Olímpico para PyeongChang”.

Para os atletas olímpicos, o aprendizado é lidar com a triste realidade de falta de recursos após período de “fartura” antes dos Jogos do Rio. O nadador Bruno Fratus, vice-campeão mundial nos 50m livre e no revezamento 4 x 100m livre neste ano, está tendo ajuda do COB para arcar com os custos de sua preparação nos EUA. Isso foi um pedido da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) que o COB aprovou.

Para o ciclista Henrique Avancini, que conquistou o histórico quarto lugar na semana passada no Mundial da modalidade, é preciso separar o lado político do esportivo. “Aos poucos, algumas confederações, e vejo isso no COB também, fazem uma gestão com caráter executivo, para realizar trabalho a longo prazo e, sinceramente, espero que as próximas notícias não sejam negativas para o esporte. Por enquanto, o legado olímpico não tem sido tão expressivo nas modalidades consideradas pequenas”, lamenta.

Ele conta que sempre foi muito bem atendido no COB e toda ajuda profissional que precisou, conseguiu. “Essa parte esportiva da entidade não vejo como algo ruim. Obviamente que as acusações afetam todos os envolvidos e isso é ruim. Se tiver algo errado, espero que exista punição e que isso gere mudanças”, diz.

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'Nuzman devia pedir licença da presidência enquanto se defende'

Ex-judoca e deputado federal fala sobre a situação do presidente do Comitê Olímpico do Brasil

Entrevista com

João Derly

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2017 | 17h00

Ex-judoca e deputado federal, João Derly fala sobre o convite feito para que Carlos Arthur Nuzman compareça para depor na Comissão de Esporte da Câmara. Para ele, o dirigente devia pedir licença de suas atividades como presidente do Comitê Olímpico do Brasil enquanto se defende das acusações. Confira a entrevista exclusiva:

Por que a decisão de convidar o Nuzman a depor na Comissão do Esporte?

A Comissão do Esporte tem essa missão de falar, discutir e fiscalizar a questão esportiva. Hoje, o agente máximo, a maior entidade esportiva do nosso País, que é o Comitê Olímpico, está sendo investigada. É a oportunidade que o presidente Nuzman tem de poder se explicar, mostrar que não tem algum ilícito.

O senhor acredita que ele vai comparecer sem problemas?

Eu creio que sim. Quando convidamos o Marco Polo Del Nero (CBF), ele compareceu, quando se investigava um esquema na Fifa. Então eu creio que se o presidente Carlos Arthur Nuzman não deve nada, ele comparecerá. Agora, caso não apareça ficará uma situação bem complicada. É extremamente importante mostrar que não tem medo de um debate franco, aberto.

A operação Unfair Play afeta a imagem do esporte olímpico?

Acho que a operação interfere, sim, no esporte brasileiro. A instituição fica afetada, porque seu líder máximo está sendo investigado, existem apreensões no comitê... Tudo isso deixa uma dúvida sobre a gestão nos bastidores de uma entidade tão importante como é o Comitê Olímpico do Brasil. Acho importante o presidente se desvincular, pedir licença durante esse período em que se defende, senão fica a entidade aí sofrendo. Seria importante mostrar elegância e dignidade e se afastar durante esse período de defesa.

O senhor considera que deveria haver algum tipo de intervenção no COB?

Não sei se temos que ter algum tipo de intervenção, apesar de o Comitê Olímpico ainda ter muitos recursos públicos. Se for comprovado algum ilícito, aí talvez valha algum tipo de intervenção. No dado momento, ainda não.

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COB ainda não sabe se terá imagem arranhada após investigações

Dirigente diz que impacto da acusação que aponta compra de votos para escolha do Rio ainda não pode ser dimensionado

Marcio Dolzan e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2017 | 17h00

Mesmo que a Polícia Federal tenha batido na sede do Comitê Olímpico do Brasil (COB), onde realizou procedimento de busca e apreensão, e esteja investigando seu presidente, Carlos Arthur Nuzman, a entidade tenta transparecer normalidade. Oficialmente, a avaliação é de que a Operação Unfair Play não prejudica a imagem do COB porque as investigações ainda estão em andamento e uma eventual participação de Nuzman no suposto esquema de compra de votos para o Rio receber os Jogos de 2016 ainda precisa ser comprovada.

Um desgaste na imagem do comitê poderia ter consequências danosas na busca por patrocínios, uma preocupação que vem desde o fim do ano passado, quando acabaram os contratos do mais rico ciclo olímpico que o COB já viveu.

Para Rafael Grabowsky, gerente geral de Marketing da entidade, os impactos na operação ainda não podem ser dimensionados. “É cedo para a gente falar qualquer coisa. O Nuzman está preparando sua defesa, falar alguma coisa agora seria prematuro”, comentou. “Vamos ter de esperar um pouco mais, para depois entender se vai haver algum impacto ou não.”

Por ora, os negócios seguem seu ritmo normal. Na terça-feira, o COB vai apresentar oficialmente sua nova fornecedora de material esportivo, a chinesa Peak, que substitui a Nike. Até o fim de semana, a entidade também deverá assinar contrato com a Universidade Estácio, que passará a ser uma de suas principais patrocinadoras.

O ministério do Esporte não quis se manifestar sobre a Operação Unfair Play, mas a ação chamou a atenção no Congresso Nacional. A Comissão de Esporte da Câmara aprovou na quarta-feira requerimento do deputado federal João Derly (Rede-RS) de convite para que Carlos Arthur Nuzman compareça à comissão para prestar esclarecimentos (leia mais ao lado). Por se tratar de um convite, e não de convocação, o dirigente não é obrigado a comparecer.

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