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Bronze em Guadalajara, Marcelo Suartz derrotu o venezuelano Amleto Monacelli e conquistou o inédito ouro brasileiro pan-americano no boliche Divulgação

Confederações não olímpicas se aproximam do COB, ganham apoio, mas buscam recursos

Entidades estão de olho em recursos das loterias federais que, atualmente, são destinadas apenas para confederações olímpicas

Felipe Rosa Mendes, Estadão Conteúdo

02 de dezembro de 2020 | 12h00

Acostumadas a serem lembradas pelo público somente a cada quatro anos, nas edições dos Jogos Pan-Americanos, as confederações de esportes não olímpicos querem mais espaço e recursos, se possível das loterias federais e do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Juntando esforços desde o Pan de Lima-2019, no Peru, onde foram destaques, as entidades responsáveis por Boliche, Hóquei, Patinação, Squash, Esqui Aquático/wakeboard e Fisiculturismo vêm se aproximando da atual gestão do COB, atualmente mais aberto às demandas destas confederações.

Esta aproximação e a abertura do Comitê Olímpico podem ser decisivos para o futuro destas entidades e de suas respectivas modalidades. Coadjuvantes no sistema esportivo brasileiro, as confederações se mantêm sem receber recursos públicos com regularidade. Em tese, só recebem apoio financeiro para a disputa dos Pan-Americanos, a cada quatro anos.

“Só recebemos ajuda de custo para o Pan. Para todos os eventos classificatórios, temos que pagar do bolso, até os atletas bancam suas viagens. Somos o único País das Américas que não recebe recursos”, diz Moacyr Neuenschwander, presidente da Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação, ao Estadão. “Confederação que não é olímpica está fadada a começar cada ano sem recurso público, sem orçamento de entrada. É a nossa realidade.”

Para o dirigente, as cobranças, principalmente na época do Pan, costumam ser altas e desproporcionais aos recursos que recebem. “Quando a gente vai para o Pan, o ouro da patinação é igual ao do vôlei. Ficamos nos mesmos hotéis, a pressão e a cobrança são as mesmas. Mas a ajuda não é a mesma. Até o cartão de débito que cada dirigente recebe, para bancar gastos recorrentes durante a competição, tem diferença. O valor das confederações olímpicas é quase três vezes o valor da confederação pan-americanas. É quase uma subclasse.”

Este cenário, contudo, está mudando, de acordo com os dirigentes ouvidos pelo Estadão. “Até a época do Nuzman, éramos simplesmente ignorados por sermos confederações não olímpicas”, diz Neuenschwander. “Percebemos na gestão do Paulo Wanderley uma abertura maior para discutirmos a interação entre as confederações não olímpicas”, reforça Guy Iglori Machado, presidente da Confederação Brasileira de Boliche, que conta com apenas cinco funcionários, todos voluntários, para administrar a entidade de 1.500 atletas filiados.

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Percebemos na gestão do Paulo Wanderley uma abertura maior para discutirmos a interação entre as confederações não olímpicas
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Guy Iglori Machado, presidente da Confederação Brasileira de Boliche

O passo decisivo na aproximação entre estas entidades e a atual gestão do COB aconteceu nos últimos dias, quando as cinco confederações não olímpicas passaram a integrar o Programa Gestão, Ética e Transparência, o chamado GET. O programa consiste numa consultoria que o COB presta às confederações, que passam a ser acompanhadas mensalmente nos quesitos governança, estratégia, transparência, “processos suporte” e compliance, temas recorrentes nas discussões sobre a profissionalização da gestão esportiva brasileira.  

“O programa auxilia as entidades a conseguir maturidade na sua gestão e também na sua transparência, dois pilares que achamos fundamentais no avanço da gestão esportiva. Até pouco tempo atrás as confederações não tinham conselhos de administração e conselho fiscal separados da chapa do presidente e do vice. Hoje temos programas de ouvidoria e a publicação de salários, funcionários e estatutos nos sites. Avançamos muito”, avalia Rogério Sampaio, diretor-geral do COB, em entrevista ao Estadão.

O dirigente ressalta que o GET tem caráter de consultoria, e não de fiscalização. “Às vezes o gestor pega uma entidade de nível nacional, com 27 federações afiliadas, e uma quantidade de regras que precisa obedecer por força de lei. O gestor assume e não sabe para onde vai, onde coloca o investimento. O GET vem ajudando a confederação a nortear o seu desenvolvimento”, explica Sampaio.

Das 35 confederações olímpicas do País, 34 estão dentro do GET. Somente a CBF não faz parte, por decisão da própria entidade. O programa tem agora também as cinco confederações não olímpicas, que vão passar pelos mesmos processos de avaliação. De acordo com o COB, o GET avalia 1.000 evidências de gestão ao longo de um mês, através de 345 perguntas que cada entidade precisa responder regularmente.

Com base nestas perguntas, o GET atribui nota para a gestão de cada confederação. O COB não divulga as avaliações, mas a reportagem apurou que no primeiro ano de funcionamento do programa, em 2018, apenas uma entidade obteve a pontuação máxima. Em 2019, foram três. E, neste ano, já são sete: Desporto na Neve, Golfe, Hipismo, Atletismo, Canoagem, Pentatlo Moderno e Tênis de Mesa.

O COB aposta que, com gestões mais profissionais, as confederações, principalmente as não olímpicas, terão mais chances de conseguir patrocinadores. “Mais organizadas, as confederações vão obter melhores resultados esportivos, que chamam mais a atenção dos patrocinadores privados. As grandes empresas, quando entram numa parceria, cobram organização e boa gestão dos seus recursos”, explica Paula Neri, gestora do projeto GET.

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Mais organizadas, as confederações vão obter melhores resultados esportivos, que chamam mais a atenção dos patrocinadores privados. As grandes empresas, quando entram numa parceria, cobram organização e boa gestão dos seus recursos
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Paula Neri, gestora do projeto GET

O apoio foi abraçado pelas confederações não olímpicas. Mas estas entidades sonham com a entrada de recursos públicos também em anos nos quais não há edição dos Jogos Pan-Americanos. “Acreditamos que o GET é o primeiro passo para receber recursos no futuro. O Brasil é exceção nesta divisão entre confederações olímpicas e não olímpicas”, afirma Neuenschwander.

SONHO ANTIGO - Para o dirigente, o GET é a porta de entrada para um sonho antigo: os recursos das loterias federais. Atualmente estes valores são distribuídos pelo COB somente para as confederações olímpicas. Para 2021, as cifras oscilam de R$ 2.958.485,86 (para a confederação de escalada esportiva) a R$ 7.504.998,42 (judô), num total de R$ 150 milhões vindos das loterias federais.

“O GET vai nos ajudar quando recebermos recursos públicos. Estaremos preparados para prestar contas no futuro. Se esse programa tivesse sido implantado há 10 anos, não teria havido metade dos problemas que as confederações tiveram. O GET é fundamental, foi uma vitória. Vamos agarrar isso como oportunidade”, diz Moacyr Neuenschwander, do Hóquei e Patinação.

A busca, contudo, é controversa. Estes recursos das loterias federais são distribuídos com base na Lei 13.756 (de 2018), que alterou a famosa Lei Agnelo Piva e não veta o direcionamento para confederações não olímpicas. “Os recursos (...) serão aplicados, exclusiva e integralmente, em programas e projetos de fomento, desenvolvimento e manutenção do desporto, de formação de recursos humanos, de preparação técnica, manutenção e locomoção de atletas, de participação em eventos desportivos e no custeio de despesas administrativas, conforme regulamentação”, diz um dos trechos do texto da lei.  

Para o advogado Leonardo Andreotti, especializado em direito desportivo, a lei deixa claro que parte da distribuição dos recursos públicos é papel do COB. No entanto, o direcionamento exclusivo para confederações olímpicas poderia ser alterado no estatuto da própria entidade.

“O COB, no exercício de sua autonomia, pode prever internamente, como responsável pelo esporte olímpico, como e a quem vai descentralizar os recursos no contexto de suas entidades filiadas e, eventualmente, se entender que isso pode qualificar o sistema, abrir a possibilidade para outras modalidades. Diante de uma norma constitucional, a lei não pode determinar como cada entidade vai direcionar internamente os recursos. Existe autonomia”, explicou. “Não haveria, a princípio, obstáculo legal, sendo o COB o único competente para tomar esta decisão, observados minimamente os limites e as delimitações atualmente impostos.”

Questionado sobre o assunto, Rogério Sampaio evitou descartar essa possibilidade. “No momento, os recursos estão sendo priorizados para as modalidades que fazem parte do programa dos Jogos Olímpicos. Mas entendemos também que estas modalidades (não olímpicas) devem ter um atendimento que propicie ter um bom desempenho. Teríamos que fazer um estudo para ver se a lei permite isso”, disse o diretor-geral do COB, ao Estadão.

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'Prioridade são as modalidades que participam dos Jogos Olímpicos', diz Rogério Sampaio

Diretor-geral do COB reforça, no entanto, que entidade está aberta para confederações não olímpicas

Entrevista com

Rogério Sampaio

Felipe Rosa Mendes, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 12h00

Diretor-geral do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Rogério Sampaio diz que a entidade está de braços abertos para as confederações não olímpicas. Mas afirma que o COB está com as mãos amarradas para poder apresentar maior ajuda a estas afiliadas, que recebem recursos públicos somente para a participação nos Jogos Pan-Americanos, a cada quatro anos.

Em entrevista ao Estadão, ele admite que a prioridade são as confederações de modalidades olímpicas. No entanto, deixou em aberto um possível estudo da lei das loterias para futura avaliação do COB. Neste caso, o Comitê Olímpico precisaria alterar seu estatuto para poder direcionar parte destes recursos às demais confederações.

Confira abaixo os principais trechos da conversa:

A entrada das confederações não olímpicas no GET é um primeiro passo para uma maior ajuda do COB às entidades?

O COB entende que a participação das modalidades pan-americanas nos Jogos Pan-Americanos é de extrema importância para o nosso desenvolvimento, como tivemos agora em Lima-2019 a melhor participação do esporte brasileiro (numa edição do Pan). Entendemos também que estas modalidades, em médio prazo, podem fazer parte em algum momento dos Jogos Olímpicos. E queremos ter um excelente desempenho nestas modalidades. Estaremos disponíveis, sempre que possível, para apoiar estas modalidades.

A atual gestão do COB cogita repassar recursos das loterias federais também às confederações não olímpicas no futuro?

O COB deseja o melhor desempenho para todas as modalidades ligadas a ele. Quando a gente fala em repassar recursos, falamos em atender as modalidades com a estrutura ideal para que possam se desenvolver. No momento, os recursos estão sendo priorizadas para as modalidades que fazem parte do programa dos Jogos Olímpicos. Inclusive este próximo ciclo olímpico terá duas edições dos Jogos: Tóquio-2021 e Paris-2024. Teremos que fazer um esforço muito grande de investimento para ter boas presenças. Mas entendemos também que estas modalidades devem ter um atendimento que propicie ter um bom desempenho.

Há interpretações da lei que permitem o direcionamento de recursos para estas entidades?

Teríamos que fazer um estudo para ver se a lei permite isso. Mas no momento temos um controle muito grande do recurso. E a prioridade são as modalidades que participam dos Jogos Olímpicos.

Hoje as confederações não olímpicas não têm direito a voto para eleger o presidente do COB e nem podem participar das assembleias. Isso pode mudar no futuro?

A atual gestão do COB atende estritamente aquilo que está escrito no Estatuto do COB. E o Estatuto dá direito a voto às modalidades olímpicas, aos membros do COI e à comissão de atletas. Se a Assembleia, em algum momento, achar que deve ter uma mudança estatutária, a atual gestão vai cumprir toda a mudança que for aprovada. O que cabe à atual gestão é cumprir aquilo que o Estatuto diz.

Por que as confederações em geral estão sofrendo para obter patrocínio?

Precisamos ocupar um espaço que possamos divulgar as modalidades. Tem algumas modalidades que não têm transmissão televisiva dentro do país. Sem espaço, fica difícil ter patrocinador. Depois de 2016, passamos por uma retração econômica. mas estou muito confiante sobre nosso próximo ciclo olímpico.

Como surgiu o GET?

Depois dos Jogos do Rio-2016, havia o anseio da sociedade para que a gestão esportiva fosse mais transparente, com o uso de algumas ferramentas da gestão corporativa das empresas privadas. O grande mérito do COB foi ter tido a sensibilidade de no momento certo sentir a necessidade em relação a este anseio da sociedade. E ter se fortalecido com a contratação de profissionais que pudessem trazer tudo aquilo que imaginavam para o programa.

O programa é considerado bem-sucedido pelo COB?

Sim, basta ver os números em relação ao avanço. Nós não estamos sentados em berço esplêndido. Entendemos que precisamos avançar mais. O COB não pensa pequeno na questão da gestão esportiva. Sempre falo que ninguém vai ficar para trás. E temos conseguido isso. A única comparação que faço é o estágio que temos hoje com o que tínhamos em 2017. Entendemos que existe um período de maturidade.

Há previsão de ampliar o GET nos próximos anos?

O investimento continua. Não só o investimento em termos de recursos financeiros, mas também de energia. É um avanço que conseguimos no segundo semestre de 2020. É cada vez mais o GET se integrando a todas as áreas. Antes o programa existia talvez no início um pouco isolado internamente, aplicando algumas regras da gestão corporativa das empresas. E hoje o que vemos é o GET se integrando a outras áreas da gestão do COB.

Qual é o orçamento anual do programa?

A área do GET não é uma área cara. Depois que todo o programa está pronto, tudo é feito através de e-mail. Temos treinamentos ao longo do ano, algumas visitas que ocorrem. São aproximadamente R$ 500 mil por ano. E, talvez pelo valor investido, é uma das áreas que mais traz resultado. O orçamento será mantido para 2021.

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